Roma

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Roma não foi amor à primeira vista. Eu tinha vinte e um anos a primeira vez que vi a cidade. Passei lá os últimos dias de uma viagem que fazia sozinha, com aquela coragem (ou seria imprudência?) que a gente ainda tem aos vinte e poucos anos. Assim como minha aventura, minha grana também estava no fim. Para completar, não entendia a língua, não conhecia ninguém ali, ainda precisava arranjar onde me alojar, e os hoteizinhos que cabiam no meu espremido orçamento pareciam estar todos lotados. A um certo ponto, cansada de tanto rodar em busca de uma pensione, resolvi parar a procura por um instante e tomar um sorvete para ver se o açúcar me reanimava. Entrei na sorveteria com minha mala, pedi em inglês o que eu queria, paguei e me sentei, pronta para repensar meus planos. Foi aí que o funcionário da sorveteria se aproximou e me disse: “Desculpe, signorina, mas sentada é mais caro.” Para não pagar a diferença, fui comer o meu sorvete na pracinha do lado e lá fiquei, tentando focar meus pensamentos no que me preocupava no momento, enquanto carros, vespas, táxis, ônibus de turistas, bicicletas e pedestres disputavam a rua da frente e a minha atenção. Definitivamente, não me apaixonei pela cidade de imediato.

Horas depois, consegui me instalar numa pensãozinha. Ao dar uma olhada no banheiro que teria que dividir com os outros hóspedes, decidi que passaria os próximos dias sem tomar banho, já que ele parecia mais sujo que eu. Deixei meus pertences no quarto e saí para explorar o lugar, com mapa e câmera nas mãos.

Nos dias seguintes, fiz todos os passeios que meu livro-guia indicava: visitei o Coliseu, o Pantheon, a Fontana di Trevi, o Fórum Romano, a Piazza Navona e até algumas catacumbas. Comi o primeiro Spaghetti alla Carbonara da minha vida, escolhido ao acaso, e gostei tanto que quis repetir no dia seguinte. E, no dia seguinte, como não entendia o que dizia o cardápio nem me lembrava como se chamava a massa deliciosa do dia anterior, pedi o único prato da lista que parecia levar ovos – e tomei um susto quando o garçom me trouxe uma sopa com um ovo pochê por cima. Mais uma frustração e mais um mico para contar para os amigos na volta.

Com muita convicção, ao passar pela Fontana di Trevi, não joguei uma moedinha. Soltei até um desaforo: “Aqui eu não volto de jeito nenhum!” Para minha sorte, o Netuno da ponte mais famosa do mundo fez ouvidos moucos, e eu voltei umas tantas vezes. Põe sorte nisso…

É aí que está a magia de Roma: depois de fazer todos aqueles programas obrigatórios (e maravilhosos) que todo turista que visita o lugar pela primeira vez precisa fazer, ficamos livres para explorar o restante da cidade, que é absurdamente caótica e absolutamente fantástica, e olhar para ela com olhos diferentes.

Roma é cheia de ruazinhas estreitas, de praças e fontes, de pequenos cafés e restaurantes meio escondidos, de igrejas lindas e menos conhecidas, de lojinhas únicas, como aquela que só vende papel de embrulhar presentes, ou aquela outra que só vende chapéus, ou aquela ainda que só vende luvas. É uma delícia se perder na cidade, andar muito e descobrir tesouros menos óbvios. Então a gente se esquece que aquilo ali é a Roma de Rômulo e Remo, dos Césares, a antiga capital do mundo. Até dobrarmos uma esquina e, inesperadamente, darmos de cara com o Coliseu.

Roma não foi amor à primeira vista. A cidade foi me conquistando aos poucos. No segundo encontro, ela me encantou. No terceiro, eu já estava fisgada. Aí, como já deu para adivinhar, não teve jeito: virou amor eterno.

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 E por falar em Roma…

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Um dos pratos mais típicos da cidade chama-se ‘Spaghetti Cacio e Pepe’ (espaguete com queijo e pimenta). Apesar de muito difundido em Roma, sua origem, na verdade, é antiga e incerta. Muitos dizem que ele nasceu na região do Lazio, onde fica Roma. Outros afirmam que ele surgiu na cidade de Nápoles ou mesmo na região de Abruzzo. Com somente três ingredientes, era a comida dos pastores, devido a seu baixo custo, sua praticidade e seu valor nutritivo. Os pastores saíam para trabalhar e levavam consigo um pedaço de Pecorino (queijo de ovelha), um punhado de espaguete e um bom tanto de pimenta preta triturada – que gerava calor e ajudava a suportar as noites frias de lá.

Tempos depois, apareceram variantes como o ‘Spaghetti alla Carbonara’, por exemplo, que leva ovos e pancetta ou guanciale (bacon feito com as bochechas do porco), entre outras.

Contudo, é justamente a simplicidade do ‘Spaghetti Cacio e Pepe’ que faz com que seu preparo seja cheio de cuidados: a massa deve estar al dente e o prato deve chegar à mesa quentíssimo. E, levando só três ingredientes, estes precisam ser da melhor qualidade.

Ingredientes (para 4 pessoas):

400g de espaguete

cerca de duas xícaras de queijo Pecorino Romano ralado na hora

Abundante pimenta preta ralada na hora

Preparo:

Leve uma panela com água e um pouco de sal ao fogo. Quando ferver, acrescente o espaguete e mexa durante os primeiros minutos para que não grude. Cozinhe-o de acordo com as instruções da embalagem, tomando cuidado para não cozinhar demais. Escorra a massa, reservando algumas conchas da água.

Leve o espaguete de volta à panela e acrescente um pouco da água reservada (comece com uma concha). Adicione mais ou menos 2/3 do queijo e mexa bastante, até que o queijo e a água tenham ficado com uma consistência cremosa. Se vir que há água no fundo, adicione queijo. Se, ao contrário, a massa estiver muito seca, coloque um pouco mais de água. Por fim, acrescente bastante pimenta. O processo deve ser bem rápido, para não esfriar a massa. Sirva em pratos aquecidos.

Observações:

  1. Na Itália, massa é servida como primo piatto, então as porções são pequenas. A quantidade acima pode não ser suficientes para quatro pessoas famintas, se for servida como prato único.
  2. Conseguir uma textura cremosa às vezes é mais complicado do que parece. Se não der na primeira vez, tente de novo outra hora: ne vale la pena!

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