As francófilas e suas yoga pants

Uma vez Carrie Bradshaw disse, num episódio de Sex and the City, que era fácil reconhecer quem não era de Nova Iorque só de olhar para a pessoa. A maneira como estavam vestidos delatava os forasteiros. Carrie passou todas as temporadas do seriado usando roupas e sapatos fabulosos, quando não um pouco excêntricos, e, embora eu duvide que todas as nova-iorquinas se vistam como Carrie se vestia, algumas devem fazê-lo, e a exuberância possivelmente passará despercebida nas ruas de Manhattan.

Aqui na costa oeste dos EUA, as coisas são bem diferentes. As californianas se vestem com muito mais descontração. Na Califórnia há uma predileção por calças legging. Sim, aquelas de fazer ginástica, aqui chamadas de yoga pants. Não fiz uma pesquisa, mas poderia apostar que em nenhum outro lugar do mundo usam-se tantas leggings como aqui. Elas são o que se vê nas ruas da cidade, nos cafés, nos supermercados, nos cinemas, nos aeroportos. As americanas daqui parecem estar sempre prontas para dar uma corridinha ou entrar numa academia, mesmo se na verdade estiverem indo pegar um caffè latte no Starbucks ou buscar o filho na escola. Calças legging estão para as californianas assim como calças jeans estão para o resto do mundo. E elas as vestem impecavelmente, tenham certeza, já que não se vê uma só celulite ou gordurinha fora do lugar. Elas podem.

Meio que na contramão do que disse acima, uma boa parte das americanas se intitula Francophile (francófilas), o que quer dizer que amam de paixão tudo aquilo que é francês. Daí a abundância de livros sobre o país e, em especial, sobre Paris e as parisienses. Há inúmeras autoras ensinando as americanas a serem mais francesas. “As francesas isso, as francesas aquilo, as francesas sempre, as francesas jamais…” Os livros tratam do que as francesas comem, de como se portam e, sobretudo, de como se vestem. Ironicamente, suas autoras não são francesas. Com raras exceções, são americanas que passaram algum tempo em Paris e resolveram escrever sobre a parcela das francesas que corresponde ao ideal que se fez delas pelo mundo afora: as despojadamente elegantes e charmosas.

Não entendo muito do assunto, mas depois de morar em alguns países e de visitar uns tantos outros, é claro para mim que moda é uma coisa muito particular de cada cultura. Apesar de sermos bombardeados pela mídia com as tendências de cada estação, a forma como cada cultura vê e usa essas tendências varia muito. As espanholas têm uma maneira particular de se vestir, as italianas também. O que funciona em Portugal – sei por experiência própria – não funciona necessariamente no Brasil ou nos Estados Unidos… Como Carrie Bradshaw já havia notado, até dentro de um mesmo país existem diferenças. É só observar como as cariocas, as paulistanas e as mineiras se vestem. Apesar de bom gosto ser bom gosto em qualquer canto e de um desastre fashion ser sempre um desastre fashion, cada lugar tem suas cores locais e seus encantos. Tentar recriar aqui o que dá certo acolá nem sempre resulta bem. Mas há uma aura ao redor das francesas que todo mundo, em especial as americanas, parece querer imitar.

Não faz muito tempo, uma famosa ex-modelo francesa escreveu um guia de estilo parisiense. Com olho no grande mercado americano, o livro logo foi traduzido para o inglês, e ela se juntou, assim, ao time das autoras americanas que vêm lucrando com o tema há tempos. A ex-modelo inicia o livro dizendo que você não precisa ter nascido em Paris para ter o estilo das moçoilas de lá. Se ela, que nasceu em Saint-Tropez, pode se vestir a la Parisienne (imaginem!), por que você, que nasceu do outro lugar do mundo, não poderia? Não preciso dizer que o livro tem vendido aqui como cerveja em dia de Super Bowl.

E a coisa continua. Basta fazer uma breve pesquisa no Amazon.com e aparecerão dezenas de outros livros mais recentes sobre o assunto.

Paris provoca essa paixão nas americanas. Não é de se estranhar, já que aquela cidade é maravilhosa, e as parisienses, sensualíssimas. Mas nem a paixão nem todos os livros vendidos parecem modificar de fato o comportamentos das americanas. Pelo menos não na costa oeste. Aqui, apesar de tais livros venderem muito, as yoga pants vendem muito mais e reinam absolutamente. Agora, uma francesa saboreando um pain au chocolat de leggings num café de Paris parece bastante improvável, non?

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E por falar em yoga pants…

Aproveitando a onda, nomes como Michael Kors, Alexander Wang, Rebecca Taylor, Seven for All Mankind, entre outros, já estão criando suas versões da peça, usando tecidos mais sofisticados e cobrando bastante por elas. A ideia é vestir a mulher contemporânea – aquela que está sempre em movimento entre o trabalho, a academia, o barzinho, etc., com conforto e alguma elegância. Na falta de um termo dicionarizado, inventou-se até um nome esquisito para a tendência: athleisure, ou seja, uma mistura de atletismo com lazer. Dizem que o jeans está com seus dias contados. Ai, ai, o que será de mim?…