Roma

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Roma não foi amor à primeira vista. Eu tinha vinte e um anos a primeira vez que vi a cidade. Passei lá os últimos dias de uma viagem que fazia sozinha, com aquela coragem (ou seria imprudência?) que a gente ainda tem aos vinte e poucos anos. Assim como minha aventura, minha grana também estava no fim. Para completar, não entendia a língua, não conhecia ninguém ali, ainda precisava arranjar onde me alojar, e os hoteizinhos que cabiam no meu espremido orçamento pareciam estar todos lotados. A um certo ponto, cansada de tanto rodar em busca de uma pensione, resolvi parar a procura por um instante e tomar um sorvete para ver se o açúcar me reanimava. Entrei na sorveteria com minha mala, pedi em inglês o que eu queria, paguei e me sentei, pronta para repensar meus planos. Foi aí que o funcionário da sorveteria se aproximou e me disse: “Desculpe, signorina, mas sentada é mais caro.” Para não pagar a diferença, fui comer o meu sorvete na pracinha do lado e lá fiquei, tentando focar meus pensamentos no que me preocupava no momento, enquanto carros, vespas, táxis, ônibus de turistas, bicicletas e pedestres disputavam a rua da frente e a minha atenção. Definitivamente, não me apaixonei pela cidade de imediato.

Horas depois, consegui me instalar numa pensãozinha. Ao dar uma olhada no banheiro que teria que dividir com os outros hóspedes, decidi que passaria os próximos dias sem tomar banho, já que ele parecia mais sujo que eu. Deixei meus pertences no quarto e saí para explorar o lugar, com mapa e câmera nas mãos.

Nos dias seguintes, fiz todos os passeios que meu livro-guia indicava: visitei o Coliseu, o Pantheon, a Fontana di Trevi, o Fórum Romano, a Piazza Navona e até algumas catacumbas. Comi o primeiro Spaghetti alla Carbonara da minha vida, escolhido ao acaso, e gostei tanto que quis repetir no dia seguinte. E, no dia seguinte, como não entendia o que dizia o cardápio nem me lembrava como se chamava a massa deliciosa do dia anterior, pedi o único prato da lista que parecia levar ovos – e tomei um susto quando o garçom me trouxe uma sopa com um ovo pochê por cima. Mais uma frustração e mais um mico para contar para os amigos na volta.

Com muita convicção, ao passar pela Fontana di Trevi, não joguei uma moedinha. Soltei até um desaforo: “Aqui eu não volto de jeito nenhum!” Para minha sorte, o Netuno da ponte mais famosa do mundo fez ouvidos moucos, e eu voltei umas tantas vezes. Põe sorte nisso…

É aí que está a magia de Roma: depois de fazer todos aqueles programas obrigatórios (e maravilhosos) que todo turista que visita o lugar pela primeira vez precisa fazer, ficamos livres para explorar o restante da cidade, que é absurdamente caótica e absolutamente fantástica, e olhar para ela com olhos diferentes.

Roma é cheia de ruazinhas estreitas, de praças e fontes, de pequenos cafés e restaurantes meio escondidos, de igrejas lindas e menos conhecidas, de lojinhas únicas, como aquela que só vende papel de embrulhar presentes, ou aquela outra que só vende chapéus, ou aquela ainda que só vende luvas. É uma delícia se perder na cidade, andar muito e descobrir tesouros menos óbvios. Então a gente se esquece que aquilo ali é a Roma de Rômulo e Remo, dos Césares, a antiga capital do mundo. Até dobrarmos uma esquina e, inesperadamente, darmos de cara com o Coliseu.

Roma não foi amor à primeira vista. A cidade foi me conquistando aos poucos. No segundo encontro, ela me encantou. No terceiro, eu já estava fisgada. Aí, como já deu para adivinhar, não teve jeito: virou amor eterno.

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 E por falar em Roma…

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Um dos pratos mais típicos da cidade chama-se ‘Spaghetti Cacio e Pepe’ (espaguete com queijo e pimenta). Apesar de muito difundido em Roma, sua origem, na verdade, é antiga e incerta. Muitos dizem que ele nasceu na região do Lazio, onde fica Roma. Outros afirmam que ele surgiu na cidade de Nápoles ou mesmo na região de Abruzzo. Com somente três ingredientes, era a comida dos pastores, devido a seu baixo custo, sua praticidade e seu valor nutritivo. Os pastores saíam para trabalhar e levavam consigo um pedaço de Pecorino (queijo de ovelha), um punhado de espaguete e um bom tanto de pimenta preta triturada – que gerava calor e ajudava a suportar as noites frias de lá.

Tempos depois, apareceram variantes como o ‘Spaghetti alla Carbonara’, por exemplo, que leva ovos e pancetta ou guanciale (bacon feito com as bochechas do porco), entre outras.

Contudo, é justamente a simplicidade do ‘Spaghetti Cacio e Pepe’ que faz com que seu preparo seja cheio de cuidados: a massa deve estar al dente e o prato deve chegar à mesa quentíssimo. E, levando só três ingredientes, estes precisam ser da melhor qualidade.

Ingredientes (para 4 pessoas):

400g de espaguete

cerca de duas xícaras de queijo Pecorino Romano ralado na hora

Abundante pimenta preta ralada na hora

Preparo:

Leve uma panela com água e um pouco de sal ao fogo. Quando ferver, acrescente o espaguete e mexa durante os primeiros minutos para que não grude. Cozinhe-o de acordo com as instruções da embalagem, tomando cuidado para não cozinhar demais. Escorra a massa, reservando algumas conchas da água.

Leve o espaguete de volta à panela e acrescente um pouco da água reservada (comece com uma concha). Adicione mais ou menos 2/3 do queijo e mexa bastante, até que o queijo e a água tenham ficado com uma consistência cremosa. Se vir que há água no fundo, adicione queijo. Se, ao contrário, a massa estiver muito seca, coloque um pouco mais de água. Por fim, acrescente bastante pimenta. O processo deve ser bem rápido, para não esfriar a massa. Sirva em pratos aquecidos.

Observações:

  1. Na Itália, massa é servida como primo piatto, então as porções são pequenas. A quantidade acima pode não ser suficientes para quatro pessoas famintas, se for servida como prato único.
  2. Conseguir uma textura cremosa às vezes é mais complicado do que parece. Se não der na primeira vez, tente de novo outra hora: ne vale la pena!

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Facciamoci un aperitivo?

Dizem que o médico grego Hipócrates, há quase dois milênios e meio, prescrevia gotas de seu Vinum Hippocraticum aos pacientes que não tinham fome. Uma espécie de vinho branco misturado com losna e arruda, a poção era bastante amarga. Podemos imaginála sendo engolida de uma só vez e provocando uma grande careta…

Mais tarde, os romanos acrescentaram ervas aromáticas à mistura com o intuito de torná-la mais prazerosa. Sua função continuava a mesma: a de abrir o apetite, e ela passou, então, a ser conhecida como ‘aperitivo’, que vem do latim aperire (abrir).

Com o tempo e a influência de outros povos, a bebida continuou se transformando e se popularizando.

Muitos séculos depois, em Turim, foi criado o Vermouth. Tendo objetivo semelhante, mas paladar bem mais agradável, a novidade caiu nas graças do rei Vittorio Emanuele II e virou o aperitivo oficial da corte. E, assim, a combinação de vinho, ervas e especiarias que prepara o estômago antes das refeições virou mania em toda a Itália e é bastante apreciada especialmente no norte do país. O conceito ampliou-se ao longo dos anos e hoje inclui diversas outras bebidas alcoólicas e não alcoólicas que vão desde vinho, cerveja e coquetéis, como o Negroni e o Bellini, até sucos de frutas e refrigerantes.

O hábito delicioso de ir ao bar com amigos antes do jantar não deve ser confundido com nosso happy hour: os aperitivos na Itália não ficam mais baratos por causa do horário. Ao contrário, geralmente os preços aumentam consideravelmente entre as 18h e as 21h. O que os torna tão atraentes (e mais caros) é que os bares e restaurantes servem antepastos com a bebida. Pelo preço dela, você come e bebe. As comidinhas vão desde simples batatinhas e azeitonas, até elaboradas pizzette, bruschette, focacce e grissini, massas, verduras grelhadas ou mesmo fatias de queijo, salame e presunto cru. Os antepastos variam bastante de região para região. Vale a pena pesquisar quais são os bares mais populares entre os italianos e evitar os muito turísticos.

Muitas vezes, as porções são trazidas até a mesa; se quiser mais uma porção, terá que pedir mais uma bebida. Outras vezes, há um bufê do qual você se serve. Você pode voltar ao bufê várias vezes, mas é sempre bom usar o bom senso: se pretende continuar comendo, é melhor pedir mais uma bebida. A ideia original, no entanto, deve continuar valendo: a de preparar o estômago e não a de substituir a refeição.

Os italianos fazem um aperitivo no bar e depois ou vão jantar em casa ou seguem com os amigos para algum restaurante onde, invariavelmente, o assunto girará em volta daquilo que estiverem comendo. É um prazer que leva a outro, mas tudo em doses moderadas. Dificilmente veremos alguém se excedendo na bebida ou na comida. Não parece que eles sabem muito bem o que fazem?

(Fontes: Bar Business; http://www.bergamoparty.it)

 E por falar em aperitivos…

  De cor alaranjada e sabor levemente amargo, o Aperol é uma bebida originária de Pádua e lembra um pouco o Campari (ambos são feitos pelo Gruppo Campari). Porém, tem teor alcoólico bem menor que seu primo de cor vermelha (11% contra os mais de 20% do Campari). Com ele é feito um dos aperitivos mais queridos da Itália. Ecco la ricetta:

Aperol Spritz

Em um copo do tipo americano ou uma taça de vinho, colocar bastante gelo e acrescentar:

3 partes de Prosecco ou outro vinho branco espumante

2 partes de Aperol

1 parte de Club soda ou água com gás

1 fatia fina de laranja (opcional)

Cin cin!

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Mensagem para você

Uma de minhas resoluções para 2014 é ir à academia com regularidade. É uma resolução que se renova a cada ano que começa, mas que não costuma chegar ao final do primeiro bimestre. “Esse ano vai ser diferente”, é a ladainha de sempre. Mas esse ano vai ser diferente!

Na segunda-feira amarrei o tênis com convicção. A academia, muito convenientemente, fica bem perto da minha casa. Não tenho mesmo desculpas.

Entrei com passos decididos e ares de quem sabe o que está fazendo e não tem tempo a perder. Escolhi uma esteira e me preparei para passar os três-quartos de hora seguintes da forma menos sofrida possível: assistindo a alguma coisa na TV portátil do aparelho. Por coincidência, naquela hora estava começando o filme ‘Mensagem para Você’, com o Tom Hanks e a Meg Ryan. Quase troquei de canal para ver o noticiário, porém lembrei que o filme é uma graça e resolvi ficar por ali mesmo. Não iria vê-lo inteiro, mas tudo bem, eu já o havia visto algumas vezes e conhecia o final.

Como todos nos lembramos, a história começa com um homem e uma mulher que, apesar de não se conhecerem pessoalmente, trocam mensagens por e-mail. Um espera ansiosamente as mensagens do outro. Depois eles acabam se encontrando, é claro. Foi divertido observar como tantas coisas mudaram desde que o filme foi lançado. E-mails, naquela época, eram o que havia de mais avançado e a forma mais ágil de se comunicar por escrito com alguém. O pai do personagem principal até faz uma alusão ao tempo em que as cartas iam por correio, dentro de um envelope selado. Pouco mais de uma década mais tarde, e-mails estão quase obsoletos, dando vez às mensagens mais velozes nos telefones ou nas redes sociais, que dispensam introduções cordiais e vão direto ao assunto. Quem tem tempo a perder com lengalengas? Quando entra uma mensagem no nosso smartphone, tablet ou qualquer que seja nosso aparato eletrônico, um sinal sonoro nos avisa. Com o reflexo já condicionado, na mesma hora pegamos o aparelho para checar o que chegou ali. E, não raramente, a pessoa que nos mandou a mensagem espera que a gente a responda assim também: na mesma hora. Não responder as mensagens rapidamente virou indelicadeza. Os tempos mudam e muda com eles o manual das boas maneiras. Recentemente, ouvi na TV alguém falando sobre etiqueta moderna e aconselhando-nos a não deixar mensagens em caixa postal, caso a pessoa com quem queremos falar não atenda o telefone. Tanto a ligação não atendida quanto nosso número estarão lá, e a pessoa retornará a chamada assim que puder. ‘Ninguém quer ouvir seus recados!’- disse a entrevistada, sorrindo para a câmera. Vejam a diferença: falar ao telefone requer mais tempo, portanto o prazo de tolerância para o retorno da chamada é maior. Mensagens escritas são mais rápidas e, supõe-se, qualquer um pode parar seja lá o que estiver fazendo para digitar o equivalente a vários minutos de conversa usando apenas umas míseras abreviaturas. Se der para responder usando só um emoticon, melhor ainda! Eu me pergunto se a facilidade de comunicação não está criando um imediatismo neurótico em todo mundo…

Voltei minha atenção novamente para o filme, que já havia avançou e agora mostrava a ótima cena em que Joe Fox (Tom Hanks) entra em um Starbucks e diz, enquanto escolhe seu café, que o Starbucks e similares foram criados para pessoas inseguras e indecisas. Segundo Fox, em tais lugares, essas pessoas têm uma ótima oportunidade de treinarem, já que precisam tomar cerca de seis decisões para conseguir fazer seu pedido: têm de escolher se querem um café grande ou pequeno, normal ou descafeinado, com leite integral ou desnatado. Feitas as escolhas, elas saem de lá com a autoestima elevada. Ah, mas assim era naquela época… Desde então, o Starbucks mudou. Segundo a própria empresa, hoje estão disponíveis mais de 87 mil combinações de bebidas à base de espresso. Prefiro acreditar a fazer os cálculos! Há grãos de várias procedências e tipos de torra, muitas alternativas de leite, até leite que não é bem leite, como o de soja, entre tantas outras opções. Pedidos do tipo “I’ll have a for here, tall, skinny, decaf mocha, with just one shot of coffee and extra syrup but no cream” são atendidos pelo barista sem que  ele pestaneje. A ideia por trás é que a pessoa se sinta especial, já que pode personalizar seus pedidos. Na Itália, berço do cappuccino que conhecemos hoje (o feito com café espresso, leite e espuma de leite), há somente duas variações possíveis: “con cacao” e “decaffeinato”. E ele é o mesmo sempre, em qualquer cafeteria do país: simples e maravilhoso. A gente não deveria jamais mexer no que é perfeito…

Assim, sem que eu percebesse, passaram-se os meus quarenta e cinco minutos de esteira. Até que isso não é tão mau! Desliguei o aparelho com pena de interromper o filme. Ainda bem que posso achá-lo de novo no Netflix. Com o astral elevado devido à serotonina e à história gostosa, saí da academia e fui depressa tomar um Frappuccino. O Starbucks, muito convenientemente, também fica bem perto da minha casa. Não tenho mesmo como resistir.

E por falar em café…

 Marocchino

Parente do cappuccino, o marocchino não é muito conhecido fora da Itália, o que é uma pena porque ele é uma delícia. É do tamanho certo para aquela hora quando queremos uma bebida à base de café que não seja tão forte quanto um espresso puro nem tão grande quanto um cappuccino. O marocchino é quase um mini-cappuccino. A diferença é que não leva leite (só espuma bem espessa) e leva um monte de chocolate. Não é tentador? Como fazê-lo:

Faça espuma de leite utilizando o vaporizador da máquina de espresso caseira, um mix ou uma cremeira. Se for utilizar um mix ou uma cremeira, esquente o leite primeiro. Polvilhe uma xícara pequena (aqueles copinhos para shots são ótimos) com bastante chocolate amargo em pó. Prepare um café espresso e despeje-o na xícara polvilhada. Complete-a com a espuma de leite quente e densa e, por cima, acrescente mais um pouco de chocolate em pó. Adoce ao seu gosto.

Uma de suas variações: unte a xícara com uma calda de chocolate grossa no lugar de polvilhá-la com o pó. Se a calda for doce, dispense o açúcar ou use-o em menor quantidade.

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 Onde encontrar

Brasil: na Kopenhagen. O cappuccino pequeno (de 60ml) deles se assemelha um pouco ao marocchino. Leva chocolate ao leite, portanto é mais doce. Maravilhoso!

Itália: em qualquer bar (= cafeteria).

São Francisco: no Caffè Greco, em North Beach (o bairro italiano da cidade).

Londres

Em junho de 1994, eu embarquei para Londres para passar um ano. Larguei a escola onde dava aulas de manhã e à noite, tirei uma licença sabática no banco onde trabalhava à tarde, tranquei o apartamento que eu alugava e fui realizar meu sonho de morar na Inglaterra, sonho que eu tinha desde criança. Como muitas meninas, cresci ouvindo histórias de princesas, rainhas e castelos. Na Inglaterra tinha princesas, rainha e castelos. Depois passei a  adolescência ouvindo os discos da banda inglesa Queen. A coincidência do nome era só isso mesmo, coincidência. Mas a origem da banda, não. Gostava porque era inglesa. Meu quarto era coberto de pôsteres do Freddie Mercury e do Roger Taylor. Quando fui para a Inglaterra, a paixão pela banda já tinha passado, mas a paixão pelo país continuava.

Meus pais não gostaram da ideia. Minha mãe queria me levar para o cartório. Queria que eu assinasse um documento dizendo que eu não arrumaria namorado estrangeiro. Coisa de mãe. Eu ri: “Namorado estrangeiro? Cruzes!” Para mim, estrangeiro tinha uma consistência diferente, assim, meio pastosa. Eu jamais namoraria um.

Fui para estudar inglês. Comprei um pacote que incluía curso e hospedagem em casa de uma família inglesa durante um mês. Depois, ia ter que me virar: arrumar trabalho e lugar para morar.

Na estação de trem, indo para a escola no primeiro dia de aula, conheci a Luciana e a Karla. Brasileiro a gente reconhece só de olhar. Elas iam fazer o mesmo curso que eu. Foi assim. Viramos amigas imediatamente e não nos separamos mais nos próximos meses, até elas voltarem para o Brasil. Nós três estávamos no mesmo barco. Terminado o mês de aulas, arranjamos um lugar para morar juntas e procuramos trabalho também juntas. O trabalho era ilegal, naturalmente. Nenhuma de nós tinha permissão. Alguns brasileiros que conhecemos na escola disseram que a gente deveria tentar fazer um tal de ‘Silver Service’, isto é, ser garçonete em eventos, casamentos, festas bacanas. Esses mesmos amigos nos deram as dicas de como manejar as bandejas e os talheres, de como servir os pratos pela esquerda (a menos que o prato já viesse pronto) e retirá-los pela direita, de circular a mesa no sentido anti-horário… Depois fomos comprar o uniforme numa loja de roupas usadas: camisa branca, saia e colete pretos e gravata borboleta. Aí, eles nos levaram à agência que contratava garçons e nos apresentaram como suas conterrâneas lá de Portugal. Uma boa parte das pessoas que trabalhavam para aquela agência era “portuguesa”. O pessoal da agência fingia que acreditava e não pedia documentos. Se pedisse, perderia metade do seu staff. Quase todos estavam ali de passagem. Era uma farra tremenda. Mas havia um ou outro que levava o trabalho a sério. O Oskar era um deles. Um senhor já de cabelos brancos, Oskar era grego e tinha trabalhado a vida inteira de  garçom no seu país antes de se mudar para Londres. Ele tinha orgulho do que fazia. Um dia, comentou que meu colete estava todo sujo e amassado. Eu nunca pensava em lavar meu colete, muito menos em passá-lo. Oskar chamou minha atenção com muito jeito. Ele era sempre gentil e educado. Disse que deveríamos fazer nosso trabalho com excelência e dignidade. Passei a respeitar meu amigo ainda mais por isso.

Através da agência, trabalhei em lugares fantásticos. Fui garçonete num jantar para gente importantíssima num dos salões do Museu Britânico, trabalhei em camarotes no estádio de Wembley, servi muitos almoços e jantares no Grosvenor House. Ao Royal Festival Hall também fui várias vezes. Numa delas, trabalhei na sala onde jantava a princesa Diana, durante um concerto realizado ali em sua homenagem. A agência me dava trabalhos em bares, hotéis, bancos. Eu não sabia nem abrir uma garrafa de vinho, me atrapalhava toda com as bandejas e nunca conseguia carregar dez pratos de uma só vez de volta para a cozinha. Lembrava-me sempre do Oskar e ficava envergonhada pelo pouco que eu me importava com aquilo. Eu também estava ali de passagem.

Recebíamos nosso salário às sextas. Today is payday! Oba! A gente passava na agência feliz da vida. Aí, era só pagar as contas e sair para nos divertir com o que sobrava.

Ah… Diversão não faltava. Nosso lugar preferido era um pub holandês que ficava em Chinatown. O que mais me fascinava era que em Londres a gente podia fazer o que quisesse que ninguém se importaria, ninguém nem notaria. Todo mundo ali fazia o que queria. Eu não fiz porque não quis. Mas muitos enlouqueciam. Vi alguns amigos se degradarem. O sensação de liberdade era inebriante. Nada, absolutamente nada causa espanto em Londres. Aquela cidade já viu de tudo.

Conheci muita gente bacana: Vanessa, Paula, Margarete, Célia, Plínio, Marival… Alguns continuam amigos até hoje, outros desapareceram.

No final do meu turno num sábado à noite, enquanto passava pano no chão de um restaurante, eu me peguei pensando no fato de que eu estava passando pano no chão de um restaurante num sábado à noite… E que não trocaria aquilo por nada. Eu estava radiante.

Poucos meses depois, naquele mesmo pub de Chinatown, conheci um irlandês muito interessante. Ele mandava flores, escrevia bilhetes lindos e tinha sempre histórias incríveis para contar. Logo descobri que os estrangeiros não têm consistência pastosa e que intuição de mãe não falha nunca. O irlandês virou Marido e, quem diria, meu ano sabático já está na sua vigésima edição.

 

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Pisa

“Itália! Sério?” Não conseguia acreditar nos meus ouvidos quando o Marido disse que tinha recebido uma proposta de trabalho naquele país. A gente estava em Portugal fazia três anos, completamente adaptados e felizes. Mas…. Itália? Uau!

Resolvemos passar um final de semana prolongado em alguma cidade italiana “para ver aquilo com olhos diferentes e sentir o clima”. Fomos parar em Pisa, só porque não a conhecíamos. Exploramos o lugar de cima para baixo. Começamos pelo mais óbvio, a torre, e de lá, caminhamos muito, tiramos dezenas de fotos e fizemos tudo aquilo que os visitantes devem fazer.

Na hora de escolher onde jantar, decidimos sair do burburinho e procurar algum lugar onde não houvesse turistas. Achamos um restaurante pequeno e bonitinho que, para a nossa sorte, tinha uma mesa disponível para três. Nossa intuição dizia que comer ali seria muito bom.

Assim que sentamos, o garçom nos trouxe um pequeno quadro negro onde estavam anotados os poucos pratos do dia. “A-ha!”, disse o Marido. “Não te falei?” O Marido tem uma teoria que não costuma falhar: quanto menor o tamanho do cardápio, melhor será a qualidade da comida. Para ele, a gente deve fugir sempre que puder dos cardápios de várias páginas e, principalmente, daqueles que têm uma página em cada língua e fotos dos pratos. Não era o caso ali…

O Filho, então com sete anos, não parecia nada impressionado com nossa animação. Quando seu gnocchi al sugo chegou, ele não conseguia entender a razão de nossa excitação. Não queria comer. Idade complicada… “Isso aqui tá uma delícia! Experimenta!”, tentávamos. Nada. Quando a paciência se esgota, a gente deixa o bom senso de lado e contraria descaradamente a recomendação dos pediatras que costumam dizer que não devemos subornar nossos filhos porque as crianças comerão quando sentirem fome. Subornamos. Aliás, ameaçamos. “Se não comer tudo, não vai ter sobremesa.” O garoto não viu outro jeito senão comer. Queria muito a torta de chocolate que estava no cardápio e engoliu as bolinhas sem reclamar. Assim, nós três pudemos jantar com serenidade. Dois terços da família estavam felizes da vida e o outro terço estava… resignado.

Pratos retirados, o garçom perguntou: “Volete un dolce?” “Sì! La torta al cioccolato, per favore.” “Mi dispiace, è finita.” O-oh! “Volete la torta di mele? È buonissima.” Ele disse torta de maçã? Torta de fruta? Estava fora de questão. O Filho se pôs a chorar. Sentiu-se traído. Tinha comido todas aquelas bolinhas de gnocchi só por causa da sobremesa de chocolate que viria depois. “Não é justo, não é justo!”

Da janelinha da porta da cozinha, o chef observava a cena. Veio ver o que acontecia. Num italiano capenga, explicamos que o menino era chocólatra e que, naquela idade, torta de maçã não parecia uma coisa muito apetitosa. “Non ti preoccupare, caro! Faccio un dolce al cioccolato specialmente per te!” Foi para a cozinha e voltou, minutos mais tarde, com um prato na mão. Nele estava um guardanapo vermelho em cima do qual o chef havia arrumado cuidadosamente várias bolachas do tipo Maria. Do lado das bolachas vinha uma taça pequena cheia de ganache (chocolate derretido em creme de leite). Aquilo era bolacha e chocolate derretido. Só. Mas estava lindo! O menino sorriu de orelha a orelha e se lambuzou com gosto.

Claro que o fim de semana em Pisa não foi decisivo na hora de aceitarmos a proposta de emprego. No fundo, a gente já sabia que queria ir mesmo antes daquela viagem. A gente também sabia que morar na Itália seria bem diferente de visitá-la. E foi mesmo. O dia a dia muitas vezes se tornava um exercício de paciência porque as coisas podem ser bastante complicadas ali. Mas quando fomos embora de lá, as complicações viraram uma vaga lembrança. A gente se lembra mesmo é da deliciosa simplicidade de uma pizza Margherita e de um prato de gnocchi al sugo como aquele de Pisa, da sobremesa improvisada de bolacha Maria e chocolate derretido e de um cappuccino bebido ao balcão do bar. Mas, além da comida, a gente se lembra também da simplicidade da atitude do chef que saiu da sua cozinha para ver como podia consolar um menino que chorava. Simples aqui não tem nada a ver com simplista, simplório, coisa feita de qualquer jeito ou de mau gosto. É só o contrário de complicado e pretensioso. Complicações a gente esquece, deixa para lá. O que é bom de verdade geralmente é simples. E de coisas boas e simples a Itália está cheia.

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E por falar em cardápios longos…

Na Itália muito dificilmente se come mal. Até mesmo nos restaurantes bastante turísticos, as chances de se encontrar comida relativamente boa são razoáveis. Poderá não ser uma comida fantástica, mas será decente. O que os restaurantes “de cardápio em várias línguas” em algumas cidades italianas têm de atraente é o preço baixo dos pratos. Aí é que mora o perigo porque, por outro lado, sua Coca-Cola custará quase tanto quanto a lasagna que você pediu. No final, a conta será bem diferente do esperado. Vale a pena caminhar quatro ou cinco quarteirões para sair do miolinho turístico. Com certeza haverá uma Osteria ou um restaurantezinho bacana onde a comida será melhor e o preço final sairá quase igual ao daquele turístico.

Já que estou relembrando coisas maravilhosas, aqui vai uma bela canção do Negramaro.