A manteiga e o caramelo

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A manteiga existe há vários milênios, mas até virar isso que passamos no pão nosso de cada dia, muita coisa aconteceu. Antes ela era feita de leite de cabra ou de ovelha. Foi só bem mais tarde, com a domesticação do gado, que se passou a confeccioná-la com leite de vaca. Aí, em alguma altura do campeonato, começaram a adicioar sal, um conservante natural, ao creme para que ela durasse mais. No início, manteiga era coisa de camponeses pobres; mais tarde, caiu nas graças da nobreza. A história é longa… Aqui na França, um rei lá da Idade Média* resolveu impor uma taxa alta sobre o preço do sal em quase todo o território francês. As pessoas tiveram de parar de botar os cristaizinhos na manteiga. Aliás, tiveram de parar de botá-los em muitas outras coisas: o sal tinha virado artigo de luxo. Só que a Bretanha era, na época, uma província governada como se fosse uma nação separada dentro do reino e acabou ficando isenta de pagar esse tal de imposto. Ainda por cima, a região produzia o próprio sal. Com acesso fácil ao produto, os bretões continuaram acrescentar sal a tudo, inclusive à manteiga. Desde então, a manteiga salgada bretã adquiriu excelência e fama. Não é de se admirar que o caramelo salgado (e é aqui que eu queria chegar) tenha sido inventado lá, séculos mais tarde. A data de sua origem é meio incerta, mas foi no final da década de 1970 que ele começou a se popularizar graças a um chocolatier** que, para se diferenciar de seus concorrentes, criou um bombom usando chocolate, amêndoas e caramelo feito com um pouquinho da manteiga salgada local. Foi sucesso absoluto. De uns anos para cá, o caramel au beurre salé virou moda no mundo todo e aparece em forma de balas, bombons e também em calda, como essa da foto acima, cuja receita – fácil, fácil – eu deixo aqui. Quem não conhece pode se assustar: caramelo salgado? Não, não: você sente um pouquinho do sal, sim, mas a calda continua sendo bem doce, não se preocupe. Fica ótimo por cima de frutas, sorvetes, pipocas, crepes ou panquecas, rabanadas e bolos, como o brownie, por exemplo.

*Rei Philippe VI de Valois, em 1343.

**Chocolatier Henri Le Roux, em Quiberon, na Bretanha.

 

Caramelo com manteiga salgada (Caramel au beurre salé)

Ingredientes:

½ xícara de açúcar

2 colheres (sopa) de manteiga com sal

200 ml de creme de leite integral e fresco (procure não usar creme de leite de latinha porque o sabor dele é intenso e o resultado será diferente)

Preparo:

Leve uma panela com o açúcar ao fogo baixo. Deixe caramelizar, sem mexer, até ficar com aquela corzinha bem dourada. Se necessário, gire a panela de vez em quando para que o açúcar derreta uniformemente. Cuidado para que não passe do ponto: a gente sabe que caramelo queimado é amargo!

Retire do fogo, junte a manteiga e mexa bem.

Acrescente o creme de leite, leve de volta ao fogo baixo e mexa constantemente, até que o caramelo esteja bem homogêneo. Sirva morno ou frio. Se o puser na geladeira, ele vai ficar cremoso: uma delícia para comer às (pequenas) colheradas!

Obs.: Empelotou? Sem problema: leve ao fogo bem baixinho de novo e mexa até derreter.

 

Sobre excessos, carências e chocolates

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Paris tem “chocolateries” fantásticas, e algumas delas ainda fazem tudo “Maison”, da torrefação ao produto final. Visitá-las é um agrado a vários dos nossos sentidos. Hoje entrei numa e saí com um saquinho contendo pequeninos chocolates que eu trouxe para casa. Eles não são baratos. Mas isso é porque utilizam os melhores ingredientes, são feitos meticulosamente e exigem cuidados no armazenamento, já que chocolate não gosta de frio nem de calor. Normalmente esses quadradinhos ou bolinhas têm uma casquinha por fora que protege seu recheio. Quanto mais fina for essa casquinha, melhor é a sua qualidade. Os chocolates artesanais daqui parecem obras de arte em miniatura. Devem ser tratados com respeito. Nem se os preços não fossem proibitivos nós os deveríamos tratar com menos reverência. Não se devora um chocolatinho desses: a gente aprecia cada minúscula mordida da pequena maravilha. Há quem prefira enfiá-los inteiros na boca e saborear a explosão de sensações de uma vez. Também é válido, desde que se ponha atenção no que se está fazendo. A gente não come um chocolatinho desses assim, às pressas, vendo uma cena de suspense na TV ou andando da cozinha para a sala… Eles não são muito doces, por isso, podem não agradar a quem prefere barras e bombons mais açucarados. Costumam ser ou intensos ou delicados. Às vezes, são intensos e delicados ao mesmo tempo, por mais que essas qualidades pareçam incompatíveis. Portanto, não é só pelo preço que não os comemos aos montes. É que basta um mesmo. Ou dois…

A gente não precisa de muita coisa para ser feliz. E isso, embora verdade, é um danado de um clichê. Então, vou colocar de outro jeito: nada em excesso faz bem. Nem mesmo as coisas boas. Bem, essa é a minha opinião… O que varia, acho eu, é o que a gente considera excesso. Cada um tem um limite diferente. Veja bem, a terceira (ou quarta, ou quinta… quantifique como preferir) latinha de cerveja ou taça de vinho possivelmente vai resultar em enxaqueca ou ressaca – física ou moral -, e aquela xícara extra de café pode atrapalhar o sono dos mais sensíveis à cafeína. Acompanhar o que está acontecendo no mundo é essencial, mas assistir a noticiários indiscriminadamente deprime.  Um pouco de raiva pode ser positivo, porque nos impulsiona a fazer alguma coisa. No entanto, muita raiva causa estragos às vezes irremediáveis, a gente sabe. Até amor em demasia faz mal, já que o amor que a gente sente não costuma ter lá muito de sublime, não? Ele geralmente vem temperado de egoísmo, ciúmes, superproteção, sentimento de posse, controle… Vai dizer que muito disso é bom?

E tem outra, será que porque a gente pode, a gente deve? Aquela coisa que é tão sensacional, se feita, consumida, usada, comprada (preencha aqui com o verbo que quiser) com muita frequência, vai acabar virando banal e perdendo a graça. É uma pena quando o encanto acaba. Por isso, não quero comer esses chocolatinhos especiais todos os dias. Também não quero tomar banho de banheira todos os dias (o meio ambiente agradece), mesmo tendo a grande sorte de ter uma banheira no meu apartamento alugado. Um banho de banheira, quando a gente mora num país onde faz muito frio, equivale a um banho de piscina ou de mar no verão brasileiro. É uma bênção! Olha só, não quero nem papear com minhas amigas todos os dias. Espera, que explico: quero vê-las com muita frequência, claro, mas não todos os dias. Porque é uma delícia sentir um pouquinho de saudade e ter o que contar quando a gente se encontra. A espera também é um prazer porque a gente já curte por antecedência o que vai vir. A gente curte duas vezes.

É claro que o oposto de excesso também não é nada legal. Carência é péssimo, privação é chato. Quem é que adora um regime ou quando acaba a água? Gostaria de estar com meus pais e irmãos mais vezes, porque os visito muito pouco. Isso me faz muita falta. Meu filho adolescente logo vai para a universidade e vai morar bem longe. Queria poder continuar a vê-lo todos os dias, mesmo que só por alguns minutos. Mas o que para mim é uma necessidade básica para ele certamente é exagero. É aquela história que eu disse acima, de cada um ter um limite diferente.

Acho que o negócio é não pecar por um lado nem por outro. O melhor mesmo é a gente aproveitar os pequenos prazeres, cuidando para que continuem a ser pequenos prazeres. Hoje vou me deliciar com meus chocolatinhos da “chocolaterie” bacana e já sei que vai ser assim, porque sempre é: o primeiro que eu provar vai ser divino, o segundo vai ser bom e, se eu não parar, o terceiro não vai me dar, nem de longe, tanta satisfação quanto o primeiro. Melhor deixá-lo para amanhã. Isso vale para um monte de outras coisas. Ou será que estou enganada?

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Os miseráveis de Paris

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Há muitos necessitados em Paris. Nós os vemos por todos os lados. Necessitados é um termo muito vago que poderia ser substituído por mendigos, pedintes, desafortunados, pessoas em situação de rua, até mesmo miseráveis – na sua primeira definição, a de excessivamente pobres. Seja qual for o termo que eu escolher, a ideia vai ficar incompleta e a conotação vai ser negativa. Dar esmola é outro termo que acho terrível. Soa pequeno, insuficiente, condescendente. Mas vou usá-lo aqui também, porque não vou conseguir fugir dele.

Cotidianamente vejo os mesmos necessitados pelas ruas por onde passo. Tenho minha rotina, faço os mesmos caminhos, eles também. Pego o metrô no mesmo horário todas as manhãs e entro no último vagão. Quando o trem para na estação Franklin Roosevelt, de onde estou, vejo uma senhora sentada num dos bancos da plataforma, dormindo de braços cruzados e com a cabeça caída para a frente. Nunca vejo seu rosto. Ela está sempre com a mesma roupa, que, com o passar do tempo (eu a vejo há meses), tem ficado mais rota. As portas do trem se fecham e eu sigo viagem. Vejo a senhora por poucos segundos, mas a cena é igual todas as vezes.

Todos os dias vejo um senhor sentado num degrau de uma rua perto de casa, acompanhado de seu cachorro. No chão, há um papelão com a mensagem nous avons faim (temos fome). Ele está sempre de olhos baixos, fazendo palavras-cruzadas. Tem um jeito muito distinto e não parece estar pedindo dinheiro. Bem-vestido, não fosse por aquele papelão, ninguém o tomaria por mendigo.

Muitos desses necessitados espalhados pela cidade são franceses, mas há inúmeros refugiados também, como a família sentada no chão do Trocadéro: o pai numa ponta, os dois filhos no meio e a mãe na outra ponta. Ou o casalzinho jovem aqui da esquina, ou o rapaz da rua da frente. São alguns poucos exemplos, entre tantos outros casos.

Recentemente, vi uma mulher que, pelas roupas, parecia ser do norte europeu. Ela carregava um bebezinho dormindo no colo. Na mesma hora, lembrei de um artigo de revista que havia lido anos antes sobre essas mulheres pedintes que trazem sempre um bebê dormindo. Os bebês não são seus filhos e estão drogados, dizia a revista. Dormindo, eles passam um ar de anjinhos e comovem as pessoas. O artigo era taxativo: não dê esmola para essas mulheres!

Mas foi há poucos dias que vi uma cena mais perturbadora: outra dessas mulheres sentada no chão, com uma criança bem grande no colo. O menino devia ter sete ou oito anos. Ele dormia profundamente, e ela parecia mal aguentar segurá-lo. A mulher virou para mim com olhar de súplica. Desviei os olhos, pensando em como uma criança daquela idade podia estar dormindo tão pesadamente àquela hora da tarde, e fiquei cheia de revolta. Olhei de novo. O semblante dela se abriu, provavelmente porque ficou esperançosa, achando que eu havia me sensibilizado e que lhe daria alguma coisa. Não dei. Eu estava era indignada. Se eu falasse bem francês, se conhecesse as regras locais, com certeza teria procurado um policial e avisado, pensei. Não sei se teria tido coragem, na verdade, mas quis acreditar que eu teria tomado alguma providência.

Naquela noite, perdi o sono. Aquela cena não saía da minha cabeça. Eu me perguntava para onde aquele menino teria sido levado quando saíram dali. Teria sofrido violência física ou psicológica? A mulher também? Onde se alojavam? Como eu pude não ter ajudado? Como pude arbitrar sem ter conhecimento dos fatos? Que direito eu tive, ou melhor, tenho, de presumir qualquer coisa sobre quem quer que seja, se não estou sentindo na pele o que a pessoa está? Absolutamente nenhum. Não conheço a história dessas pessoas, não sei por que estão na situação em que estão. Então, não posso julgá-las. Mesmo se fosse possível conhecer sua história, eu não saberia o que se passa no seu íntimo. Então, não poderia julgá-las. Mesmo se fosse possível conhecer o que se passa no seu íntimo, eu as estaria julgando conforme meu íntimo, minhas vivências, meus valores. Então, não poderia julgá-las. A única pessoa que posso julgar sou eu mesma.

Mas e aí, diante da miséria alheia, como agir? Há pessoas que não se abalam com isso e não dão esmolas (eis o termo que acho terrível). É uma escolha válida. Se não existe um conflito interno, está tudo bem. Bom para elas. Por outro lado, há aquelas que se engajam, arregaçam as mangas, dedicam-se a aliviar o sofrimento dos outros. Eu as admiro e respeito profundamente. Não faço parte do primeiro grupo nem do segundo. O que faço é dar uns trocados aleatoriamente (como se alguns trocados fizessem alguma diferença) ou, pior ainda, escolhendo aqueles que parecem precisar mais ou merecer mais. Que critério mais absurdo é esse? Não é uma piada? Que prepotência a minha! Quem eu penso que sou?

Por que, afinal, dou esmolas? Não é para me sentir bem, para poder comer um éclair de cinco euros sem sentir culpa? Ora, dar esmolas é um ato egoísta ou de compaixão? Faço isso por eles ou por mim? E importa? Para quem recebe, possivelmente não. Para quem dá, acho que sim. Será que o que nos move (o que me move) não é uma noção religiosa – e distorcida – de que se não o fizermos seremos julgados por Deus? Deus, ando pensando, não tem nada com isso. Não o Deus em que acredito, que não julga nem castiga. Deixemos Deus fora disso. A coisa é entre mim e mim (num português capenga): o que aquela situação provoca em mim, que sentimentos ela gera e como eu reajo a eles, o que faço a partir daí. Só que, na maior parte das vezes, esqueço de pensar assim e me deixo mover, sim, pela culpa. Faço pouco e me culpo muito. Combinação desastrosa.

O outono chegou trazendo o frio de volta à cidade. Daqui para a frente, esfriará mais e mais. As estações de metrô se encherão de desabrigados à noite. Muitos dormem lá para se proteger das temperaturas baixas e das chuvas, que, no inverno, são quase diárias. Vou continuar a vê-los de manhã quando pegar o trem. Vou continuar a olhar para eles quando andar pelas ruas, achar alguma moeda no fundo do bolso, brincar de juíza e escolher para quem dá-la, mas logo, distraída, desviar o olhar para as vitrines lindas das lojas de Paris.

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A miséria sempre me chamou atenção em todos os lugares onde morei: São Paulo, Rio, Londres, São Francisco… Ela pode ter causas distintas e ser expressa de formas diferentes, a gente sabe. E, obviamente, há vários níveis de pobreza. Mas fome é sempre fome, frio é sempre frio, desabrigo é sempre desabrigo, desespero é sempre desespero. Falei dos miseráveis de Paris porque é o onde estou no momento.