Londres

Em junho de 1994, eu embarquei para Londres para passar um ano. Larguei a escola onde dava aulas de manhã e à noite, tirei uma licença sabática no banco onde trabalhava à tarde, tranquei o apartamento que eu alugava e fui realizar meu sonho de morar na Inglaterra, sonho que eu tinha desde criança. Como muitas meninas, cresci ouvindo histórias de princesas, rainhas e castelos. Na Inglaterra tinha princesas, rainha e castelos. Depois passei a  adolescência ouvindo os discos da banda inglesa Queen. A coincidência do nome era só isso mesmo, coincidência. Mas a origem da banda, não. Gostava porque era inglesa. Meu quarto era coberto de pôsteres do Freddie Mercury e do Roger Taylor. Quando fui para a Inglaterra, a paixão pela banda já tinha passado, mas a paixão pelo país continuava.

Meus pais não gostaram da ideia. Minha mãe queria me levar para o cartório. Queria que eu assinasse um documento dizendo que eu não arrumaria namorado estrangeiro. Coisa de mãe. Eu ri: “Namorado estrangeiro? Cruzes!” Para mim, estrangeiro tinha uma consistência diferente, assim, meio pastosa. Eu jamais namoraria um.

Fui para estudar inglês. Comprei um pacote que incluía curso e hospedagem em casa de uma família inglesa durante um mês. Depois, ia ter que me virar: arrumar trabalho e lugar para morar.

Na estação de trem, indo para a escola no primeiro dia de aula, conheci a Luciana e a Karla. Brasileiro a gente reconhece só de olhar. Elas iam fazer o mesmo curso que eu. Foi assim. Viramos amigas imediatamente e não nos separamos mais nos próximos meses, até elas voltarem para o Brasil. Nós três estávamos no mesmo barco. Terminado o mês de aulas, arranjamos um lugar para morar juntas e procuramos trabalho também juntas. O trabalho era ilegal, naturalmente. Nenhuma de nós tinha permissão. Alguns brasileiros que conhecemos na escola disseram que a gente deveria tentar fazer um tal de ‘Silver Service’, isto é, ser garçonete em eventos, casamentos, festas bacanas. Esses mesmos amigos nos deram as dicas de como manejar as bandejas e os talheres, de como servir os pratos pela esquerda (a menos que o prato já viesse pronto) e retirá-los pela direita, de circular a mesa no sentido anti-horário… Depois fomos comprar o uniforme numa loja de roupas usadas: camisa branca, saia e colete pretos e gravata borboleta. Aí, eles nos levaram à agência que contratava garçons e nos apresentaram como suas conterrâneas lá de Portugal. Uma boa parte das pessoas que trabalhavam para aquela agência era “portuguesa”. O pessoal da agência fingia que acreditava e não pedia documentos. Se pedisse, perderia metade do seu staff. Quase todos estavam ali de passagem. Era uma farra tremenda. Mas havia um ou outro que levava o trabalho a sério. O Oskar era um deles. Um senhor já de cabelos brancos, Oskar era grego e tinha trabalhado a vida inteira de  garçom no seu país antes de se mudar para Londres. Ele tinha orgulho do que fazia. Um dia, comentou que meu colete estava todo sujo e amassado. Eu nunca pensava em lavar meu colete, muito menos em passá-lo. Oskar chamou minha atenção com muito jeito. Ele era sempre gentil e educado. Disse que deveríamos fazer nosso trabalho com excelência e dignidade. Passei a respeitar meu amigo ainda mais por isso.

Através da agência, trabalhei em lugares fantásticos. Fui garçonete num jantar para gente importantíssima num dos salões do Museu Britânico, trabalhei em camarotes no estádio de Wembley, servi muitos almoços e jantares no Grosvenor House. Ao Royal Festival Hall também fui várias vezes. Numa delas, trabalhei na sala onde jantava a princesa Diana, durante um concerto realizado ali em sua homenagem. A agência me dava trabalhos em bares, hotéis, bancos. Eu não sabia nem abrir uma garrafa de vinho, me atrapalhava toda com as bandejas e nunca conseguia carregar dez pratos de uma só vez de volta para a cozinha. Lembrava-me sempre do Oskar e ficava envergonhada pelo pouco que eu me importava com aquilo. Eu também estava ali de passagem.

Recebíamos nosso salário às sextas. Today is payday! Oba! A gente passava na agência feliz da vida. Aí, era só pagar as contas e sair para nos divertir com o que sobrava.

Ah… Diversão não faltava. Nosso lugar preferido era um pub holandês que ficava em Chinatown. O que mais me fascinava era que em Londres a gente podia fazer o que quisesse que ninguém se importaria, ninguém nem notaria. Todo mundo ali fazia o que queria. Eu não fiz porque não quis. Mas muitos enlouqueciam. Vi alguns amigos se degradarem. O sensação de liberdade era inebriante. Nada, absolutamente nada causa espanto em Londres. Aquela cidade já viu de tudo.

Conheci muita gente bacana: Vanessa, Paula, Margarete, Célia, Plínio, Marival… Alguns continuam amigos até hoje, outros desapareceram.

No final do meu turno num sábado à noite, enquanto passava pano no chão de um restaurante, eu me peguei pensando no fato de que eu estava passando pano no chão de um restaurante num sábado à noite… E que não trocaria aquilo por nada. Eu estava radiante.

Poucos meses depois, naquele mesmo pub de Chinatown, conheci um irlandês muito interessante. Ele mandava flores, escrevia bilhetes lindos e tinha sempre histórias incríveis para contar. Logo descobri que os estrangeiros não têm consistência pastosa e que intuição de mãe não falha nunca. O irlandês virou Marido e, quem diria, meu ano sabático já está na sua vigésima edição.

 

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