Os miseráveis de Paris

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Há muitos necessitados em Paris. Nós os vemos por todos os lados. Necessitados é um termo muito vago que poderia ser substituído por mendigos, pedintes, desafortunados, pessoas em situação de rua, até mesmo miseráveis – na sua primeira definição, a de excessivamente pobres. Seja qual for o termo que eu escolher, a ideia vai ficar incompleta e a conotação vai ser negativa. Dar esmola é outro termo que acho terrível. Soa pequeno, insuficiente, condescendente. Mas vou usá-lo aqui também, porque não vou conseguir fugir dele.

Cotidianamente vejo os mesmos necessitados pelas ruas por onde passo. Tenho minha rotina, faço os mesmos caminhos, eles também. Pego o metrô no mesmo horário todas as manhãs e entro no último vagão. Quando o trem para na estação Franklin Roosevelt, de onde estou, vejo uma senhora sentada num dos bancos da plataforma, dormindo de braços cruzados e com a cabeça caída para a frente. Nunca vejo seu rosto. Ela está sempre com a mesma roupa, que, com o passar do tempo (eu a vejo há meses), tem ficado mais rota. As portas do trem se fecham e eu sigo viagem. Vejo a senhora por poucos segundos, mas a cena é igual todas as vezes.

Todos os dias vejo um senhor sentado num degrau de uma rua perto de casa, acompanhado de seu cachorro. No chão, há um papelão com a mensagem nous avons faim (temos fome). Ele está sempre de olhos baixos, fazendo palavras-cruzadas. Tem um jeito muito distinto e não parece estar pedindo dinheiro. Bem-vestido, não fosse por aquele papelão, ninguém o tomaria por mendigo.

Muitos desses necessitados espalhados pela cidade são franceses, mas há inúmeros refugiados também, como a família sentada no chão do Trocadéro: o pai numa ponta, os dois filhos no meio e a mãe na outra ponta. Ou o casalzinho jovem aqui da esquina, ou o rapaz da rua da frente. São alguns poucos exemplos, entre tantos outros casos.

Recentemente, vi uma mulher que, pelas roupas, parecia ser do norte europeu. Ela carregava um bebezinho dormindo no colo. Na mesma hora, lembrei de um artigo de revista que havia lido anos antes sobre essas mulheres pedintes que trazem sempre um bebê dormindo. Os bebês não são seus filhos e estão drogados, dizia a revista. Dormindo, eles passam um ar de anjinhos e comovem as pessoas. O artigo era taxativo: não dê esmola para essas mulheres!

Mas foi há poucos dias que vi uma cena mais perturbadora: outra dessas mulheres sentada no chão, com uma criança bem grande no colo. O menino devia ter sete ou oito anos. Ele dormia profundamente, e ela parecia mal aguentar segurá-lo. A mulher virou para mim com olhar de súplica. Desviei os olhos, pensando em como uma criança daquela idade podia estar dormindo tão pesadamente àquela hora da tarde, e fiquei cheia de revolta. Olhei de novo. O semblante dela se abriu, provavelmente porque ficou esperançosa, achando que eu havia me sensibilizado e que lhe daria alguma coisa. Não dei. Eu estava era indignada. Se eu falasse bem francês, se conhecesse as regras locais, com certeza teria procurado um policial e avisado, pensei. Não sei se teria tido coragem, na verdade, mas quis acreditar que eu teria tomado alguma providência.

Naquela noite, perdi o sono. Aquela cena não saía da minha cabeça. Eu me perguntava para onde aquele menino teria sido levado quando saíram dali. Teria sofrido violência física ou psicológica? A mulher também? Onde se alojavam? Como eu pude não ter ajudado? Como pude arbitrar sem ter conhecimento dos fatos? Que direito eu tive, ou melhor, tenho, de presumir qualquer coisa sobre quem quer que seja, se não estou sentindo na pele o que a pessoa está? Absolutamente nenhum. Não conheço a história dessas pessoas, não sei por que estão na situação em que estão. Então, não posso julgá-las. Mesmo se fosse possível conhecer sua história, eu não saberia o que se passa no seu íntimo. Então, não poderia julgá-las. Mesmo se fosse possível conhecer o que se passa no seu íntimo, eu as estaria julgando conforme meu íntimo, minhas vivências, meus valores. Então, não poderia julgá-las. A única pessoa que posso julgar sou eu mesma.

Mas e aí, diante da miséria alheia, como agir? Há pessoas que não se abalam com isso e não dão esmolas (eis o termo que acho terrível). É uma escolha válida. Se não existe um conflito interno, está tudo bem. Bom para elas. Por outro lado, há aquelas que se engajam, arregaçam as mangas, dedicam-se a aliviar o sofrimento dos outros. Eu as admiro e respeito profundamente. Não faço parte do primeiro grupo nem do segundo. O que faço é dar uns trocados aleatoriamente (como se alguns trocados fizessem alguma diferença) ou, pior ainda, escolhendo aqueles que parecem precisar mais ou merecer mais. Que critério mais absurdo é esse? Não é uma piada? Que prepotência a minha! Quem eu penso que sou?

Por que, afinal, dou esmolas? Não é para me sentir bem, para poder comer um éclair de cinco euros sem sentir culpa? Ora, dar esmolas é um ato egoísta ou de compaixão? Faço isso por eles ou por mim? E importa? Para quem recebe, possivelmente não. Para quem dá, acho que sim. Será que o que nos move (o que me move) não é uma noção religiosa – e distorcida – de que se não o fizermos seremos julgados por Deus? Deus, ando pensando, não tem nada com isso. Não o Deus em que acredito, que não julga nem castiga. Deixemos Deus fora disso. A coisa é entre mim e mim (num português capenga): o que aquela situação provoca em mim, que sentimentos ela gera e como eu reajo a eles, o que faço a partir daí. Só que, na maior parte das vezes, esqueço de pensar assim e me deixo mover, sim, pela culpa. Faço pouco e me culpo muito. Combinação desastrosa.

O outono chegou trazendo o frio de volta à cidade. Daqui para a frente, esfriará mais e mais. As estações de metrô se encherão de desabrigados à noite. Muitos dormem lá para se proteger das temperaturas baixas e das chuvas, que, no inverno, são quase diárias. Vou continuar a vê-los de manhã quando pegar o trem. Vou continuar a olhar para eles quando andar pelas ruas, achar alguma moeda no fundo do bolso, brincar de juíza e escolher para quem dá-la, mas logo, distraída, desviar o olhar para as vitrines lindas das lojas de Paris.

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A miséria sempre me chamou atenção em todos os lugares onde morei: São Paulo, Rio, Londres, São Francisco… Ela pode ter causas distintas e ser expressa de formas diferentes, a gente sabe. E, obviamente, há vários níveis de pobreza. Mas fome é sempre fome, frio é sempre frio, desabrigo é sempre desabrigo, desespero é sempre desespero. Falei dos miseráveis de Paris porque é o onde estou no momento.