Sobre excessos, carências e chocolates

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Paris tem “chocolateries” fantásticas, e algumas delas ainda fazem tudo “Maison”, da torrefação ao produto final. Visitá-las é um agrado a vários dos nossos sentidos. Hoje entrei numa e saí com um saquinho contendo pequeninos chocolates que eu trouxe para casa. Eles não são baratos. Mas isso é porque utilizam os melhores ingredientes, são feitos meticulosamente e exigem cuidados no armazenamento, já que chocolate não gosta de frio nem de calor. Normalmente esses quadradinhos ou bolinhas têm uma casquinha por fora que protege seu recheio. Quanto mais fina for essa casquinha, melhor é a sua qualidade. Os chocolates artesanais daqui parecem obras de arte em miniatura. Devem ser tratados com respeito. Nem se os preços não fossem proibitivos nós os deveríamos tratar com menos reverência. Não se devora um chocolatinho desses: a gente aprecia cada minúscula mordida da pequena maravilha. Há quem prefira enfiá-los inteiros na boca e saborear a explosão de sensações de uma vez. Também é válido, desde que se ponha atenção no que se está fazendo. A gente não come um chocolatinho desses assim, às pressas, vendo uma cena de suspense na TV ou andando da cozinha para a sala… Eles não são muito doces, por isso, podem não agradar a quem prefere barras e bombons mais açucarados. Costumam ser ou intensos ou delicados. Às vezes, são intensos e delicados ao mesmo tempo, por mais que essas qualidades pareçam incompatíveis. Portanto, não é só pelo preço que não os comemos aos montes. É que basta um mesmo. Ou dois…

A gente não precisa de muita coisa para ser feliz. E isso, embora verdade, é um danado de um clichê. Então, vou colocar de outro jeito: nada em excesso faz bem. Nem mesmo as coisas boas. Bem, essa é a minha opinião… O que varia, acho eu, é o que a gente considera excesso. Cada um tem um limite diferente. Veja bem, a terceira (ou quarta, ou quinta… quantifique como preferir) latinha de cerveja ou taça de vinho possivelmente vai resultar em enxaqueca ou ressaca – física ou moral -, e aquela xícara extra de café pode atrapalhar o sono dos mais sensíveis à cafeína. Acompanhar o que está acontecendo no mundo é essencial, mas assistir a noticiários indiscriminadamente deprime.  Um pouco de raiva pode ser positivo, porque nos impulsiona a fazer alguma coisa. No entanto, muita raiva causa estragos às vezes irremediáveis, a gente sabe. Até amor em demasia faz mal, já que o amor que a gente sente não costuma ter lá muito de sublime, não? Ele geralmente vem temperado de egoísmo, ciúmes, superproteção, sentimento de posse, controle… Vai dizer que muito disso é bom?

E tem outra, será que porque a gente pode, a gente deve? Aquela coisa que é tão sensacional, se feita, consumida, usada, comprada (preencha aqui com o verbo que quiser) com muita frequência, vai acabar virando banal e perdendo a graça. É uma pena quando o encanto acaba. Por isso, não quero comer esses chocolatinhos especiais todos os dias. Também não quero tomar banho de banheira todos os dias (o meio ambiente agradece), mesmo tendo a grande sorte de ter uma banheira no meu apartamento alugado. Um banho de banheira, quando a gente mora num país onde faz muito frio, equivale a um banho de piscina ou de mar no verão brasileiro. É uma bênção! Olha só, não quero nem papear com minhas amigas todos os dias. Espera, que explico: quero vê-las com muita frequência, claro, mas não todos os dias. Porque é uma delícia sentir um pouquinho de saudade e ter o que contar quando a gente se encontra. A espera também é um prazer porque a gente já curte por antecedência o que vai vir. A gente curte duas vezes.

É claro que o oposto de excesso também não é nada legal. Carência é péssimo, privação é chato. Quem é que adora um regime ou quando acaba a água? Gostaria de estar com meus pais e irmãos mais vezes, porque os visito muito pouco. Isso me faz muita falta. Meu filho adolescente logo vai para a universidade e vai morar bem longe. Queria poder continuar a vê-lo todos os dias, mesmo que só por alguns minutos. Mas o que para mim é uma necessidade básica para ele certamente é exagero. É aquela história que eu disse acima, de cada um ter um limite diferente.

Acho que o negócio é não pecar por um lado nem por outro. O melhor mesmo é a gente aproveitar os pequenos prazeres, cuidando para que continuem a ser pequenos prazeres. Hoje vou me deliciar com meus chocolatinhos da “chocolaterie” bacana e já sei que vai ser assim, porque sempre é: o primeiro que eu provar vai ser divino, o segundo vai ser bom e, se eu não parar, o terceiro não vai me dar, nem de longe, tanta satisfação quanto o primeiro. Melhor deixá-lo para amanhã. Isso vale para um monte de outras coisas. Ou será que estou enganada?

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