The Mission – Um breve passeio pelos bairros de São Francisco

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The Mission District  foi o primeiro bairro de São Francisco. Quando os espanhóis missionários chegaram em 1769, encontraram uma população nativa que eles logo subjugaram. A tribo Yelamu vivia ali havia mais de dois mil anos quando o padre Francisco Palóu fundou a Misión San Francisco de Asís, usando o trabalho – nada voluntário – dos nativos na sua construção.

Com a corrida do ouro no século XIX, um grande número de imigrantes europeus, em especial, alemães, poloneses e irlandeses, começou a se aglomerar na área, o que contribuiu para torná-la mais residencial e para desenvolver o comércio local. Com o passar das décadas, esses europeus foram se mudando para outras regiões da cidade. Os anos de 1950 e 1960, no entanto, viram a chegada de imigrantes mexicanos. A nova população mudou as características do bairro. Logo chegaram muitos e muitos outros latino-americanos, e, hoje, o Mission é conhecido como o bairro latino de São Francisco.

O Mission nunca foi um bairro muito próspero. Durante quase cinquenta anos, os relativos baixos preços das moradias atraíam imigrantes que, mesmo com pouca renda, conseguiam comprar ou alugar uma residência no local. O bairro também nunca foi lá tão seguro quanto os outros bairros da cidade, particularmente nos seus cantos ou ruas mais obscuras. Caminhado pela Mission Street, uma de suas principais ruas, veem-se armazéns, lojinhas de roupas usadas, bancas de frutas e verduras, mercadinhos que vendem de tudo e muitos murais pintados por artistas da região que se empenham em passar suas mais variadas mensagens, principalmente de cunho político e social. Assim como os murais, o bairro é muito colorido.

Se antes imigrantes pouco abastados conseguiam adquirir propriedade no local, isso agora está mudando. O boom tecnológico da última década e meia na região de São Francisco vem atraindo cada vez mais profissionais da área, normalmente bastante abonados, para o distrito. Esse pessoal não quer morar nos bairros nobres da cidade nem no Vale do Silício. Prefere o burburinho alegre e a diversidade que o Mission proporciona. Com a chegada dos tech people, o perfil do bairro está se transformando de novo e causando muita polêmica e revolta. Dinheiro chama dinheiro e o preço de tudo tem ido às alturas. Inúmeros moradores que vivem lá há décadas não estão conseguindo mais bancar os atuais aluguéis altíssimos ou manter as casas compradas gerações atrás. Muitos prédios estão passando por reformas e a fachada do bairro está se modernizando. Mark Zuckerberg tem uma mansão por ali cuja reforma (e estou falando só da reforma), especula-se, custou quase dois milhões de dólares. Como é que o café e o cookie não vão ficar mais caros, não?

Indubitavelmente inspirada pelos mexicanos, a culinária do distrito vem há tempos recebendo também a influência de inúmeras outras culturas. Taquerías convivem amigavelmente com restaurantes indiano, vietnamita, italiano, etíope, guatemalteco, salvadorenho, nicaraguense, etc. Se a Mission Street tem um jeitão bastante dilapidado e feioso, a paralela Valencia Street já demonstra sinais de que esse pessoal mais cheio da grana se instalou pelas redondezas para ficar: a rua é cheia de restaurantes, lojas, butiques, cafés, etc. – tudo muito, muito hipster

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E por falar em mexicanos… 

Dia 5 de maio é uma data importante para eles. Foi nesse dia de 1862 que o general Zaragoza e seu exército venceram os franceses, que tentavam dominar o país, na ‘Batalla de Puebla’. A data é comemorada no México e em muitas cidades americanas. Em São Francisco, a festa acontece no Mission. Muita música, danças folclóricas, comida típica, artesanato e diversão para quem quiser passar por lá. Bota na agenda!

_MG_4853Alguns dados tirados das fontes:

San Francisco Chronicle: http://www.sfchronicle.com/the-mission/a-changing-mission/

Wikipedia

Chocolate quente italiano

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Temperaturas mais baixas pedem bebidas quentinhas. No inverno italiano, la cioccolata calda, um chocolate quente bem espesso e pouco doce, é figurinha fácil em todas as cafeterias. Nas melhores, ele normalmente é feito só com chocolate meio amargo em barra derretido no leite. Em outras cafeterias, a bebida às vezes é feita com um pouco de amido de milho e chocolate em pó. De um jeito ou de outro, é sempre uma delícia. Quer experimentar? Ecco come farla:

Ingredientes:

300ml de leite

120g de chocolate meio amargo (pelo menos 60% de cacau), em pedaços

Preparo:

Em uma panela de tamanho médio, misture o leite e o chocolate e leve ao fogo baixo, mexendo sempre por alguns minutos. Quando o chocolate tiver derretido, aumente o fogo e continue mexendo por pelo menos mais cinco minutos. Você vai ver que, quanto mais tempo a mistura ficar no fogo, mais grossa vai se tornando. Desligue o fogo e deixe o chocolate repousar por alguns minutos, até que tenha se formado uma película por cima. Retire a película cuidadosamente com uma colher e aguarde mais uns dois minutos. Mexa bem para que fique bem cremoso e pronto! Sirva o chocolate quente acompanhado de panna montata (creme de leite fresco batido), se quiser.

Acha que tanto chocolate é pecado grande demais? Diminua a quantidade e use 1 colher (sopa) de amido de milho dissolvido em leite frio para engrossar. Outra alternativa é dividir os 120g entre chocolate em barra e chocolate em pó, e usar 1 colher (sopa) de amido de milho. Adoce com um pouco de açúcar ou (por que não?) mel e divirta-se!

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Chinatown – Um breve passeio pelos bairros de São Francisco

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Chinatown de São Francisco é a comunidade chinesa mais antiga do país. Sua história se confunde com a da cidade, que teve início no final da primeira metade do século XIX. O que é hoje São Francisco não passava de um vilarejo no meio do qual alguém havia enfiado uma bandeira americana. Portsmouth Square se chamava a praça ao redor da qual havia algumas cabanas, uma ou outra construção de pedras ou tijolos, algum comércio precário e pouca coisa mais. Com a descoberta de ouro na Califórnia em 1848, a população do lugar cresceu de mil para mais de 25 mil habitantes em apenas um ano. Muitos desses recém-chegados eram chineses.

A notícia da descoberta de ouro nas terras distantes da ‘Golden Mountain’ (EUA) chegou à China quando o país estava muito mal. Os chineses haviam acabado de ser derrotados pelos britânicos na Primeira Guerra do Ópio e, ainda por cima, uma série de catástrofes naturais castigava a população. As consequências disso tudo foram devastadoras. Muitos chineses deixaram seu país em busca de melhores dias e vieram procurar trabalho nas minas e nas ferrovias do oeste americano. Foram recebidos com desconfiança. Nos anos seguintes, a construção das ferrovias terminou e, ao mesmo tempo, os EUA entraram em depressão econômica. Os chineses continuavam chegando aos montes e começaram a ser vistos com maus olhos porque competiam por trabalho com os americanos. Discriminados e submetidos a uma legislação para lá de repressora, eles passaram por maus pedaços… Sem trabalho e proibidos de atuar em vários setores, centenas de chineses se instalaram em cortiços de madeira nas proximidades de Portsmouth Square, que agora já era uma região com residências, hotéis, escritórios, restaurantes, bordéis e casas de jogos. Começaram a se dedicar à agricultura e à pecuária, a fazer serviços domésticos nas casas dos americanos e a trabalhar em restaurantes. Montaram muitas e muitas lavanderias. Aquela área logo ficou conhecida como “Little Canton” e, mais tarde, como “Chinatown”. O lugar ficou colorido e barulhento, cheio de lanternas típicas, placas em dialetos diversos, templos, herbários, um teatro, mercadinhos e muita gente.

Durante as décadas seguintes, a imigração de chineses foi controlada rigorosamente. Só entrava um número restrito de homens; mulheres e crianças voltavam para trás. As coisas começaram a mudar quando, com o ataque do Japão a Pearl Harbor em dezembro de 1941, os chineses se aliaram aos americanos e lutaram com eles lado a lado contra os japoneses, usando o mesmo uniforme e carregando a mesma bandeira. A partir daí, caíram nas graças dos americanos (bem, mais ou menos) e passaram a poder adquirir cidadania americana e a ter direitos antes negados, como trazer a família da China, trabalhar em diversos setores, votar, possuir propriedade fora de Chinatown, etc.

O tempo passou e muita coisa mudou desde então. Hoje Chinatown compreende uma área de pouco mais de vinte quarteirões em volta da mesma Portsmouth Square – uma praça feiosa onde frequentemente se veem idosos jogando xadrez chinês ou praticando Tai Chi. Fica no coração da cidade e faz fronteira com o bairro italiano North Beach e o Distrito Financeiro. Ali habitam mais de 80 mil chineses (descendentes e recém-chegados), muitos em condições precárias. É muita gente em pouco espaço. A maioria da população chinesa (e asiática, como um todo), no entanto, geralmente mais próspera, mora nos distritos de Richmond e Sunset.

Segundo o último Censo, um em cada cinco habitantes de São Francisco é chinês ou de descendência chinesa. Hoje, quem diria, o prefeito da cidade, Ed Lee, é sino-americano.

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E por falar em sino-americanos…

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Chop Suey, ao contrário do que se acredita, não é um prato chinês autêntico. Nasceu por acaso, em solo americano. Dizem que alguns marinheiros chegaram a Honolulu tarde da noite, famintos. Não encontraram nada aberto. Quando viram a luz ainda acesa em um pequeno restaurante, imploraram para o dono lhes dar qualquer coisa de comer. O proprietário, um senhor chinês, ficou com pena dos marinheiros e improvisou uma receita com as sobras do dia. O prato ficou uma delícia. Quando perguntaram o nome daquilo, o senhor respondeu: “chop suey”, que em cantonês quer dizer “coisas misturadas”.

Aqui vai uma receitinha bem simples e saborosa. Os ingredientes podem ser facilmente substituídos, se quiser.

Chop Suey

Ingredientes:

500g da carne de sua preferência (porco, vaca ou frango), em fatias finas

2 colheres (sopa) de óleo (um pouco mais, se necessário)

2 cenouras médias, cortadas em diagonal em fatias finas

1 talo de salsão, cortado em diagonal em fatias finas 2 xícaras de brotos de feijão (frescos ou enlatados)

1 xícara de cogumelos frescos fatiados 1 xícara de brotos de bambu (frescos ou enlatados)

3 cebolinhas, cortadas em diagonal em fatias grossas

3 xícaras de noodles ou arroz cozido

Para o molho:

½ xícara de caldo de galinha

3 colheres (sopa) de molho de soja (Shoyu)

4 colheres (chá) de amido de milho

1 colher (chá) de açúcar

Preparo:

Aqueça 1 colher de óleo em um wok ou uma frigideira grande. Frite as cenouras e o salsão em fogo algo, mexendo sempre, por cerca de dois minutos. Acrescente mais um pouco de óleo, se necessário, e adicione os brotos de feijão fresco (se estiver usando) e os cogumelos, os brotos de bambu e as cebolinhas. Frite, mexendo constantemente, por mais dois minutos ou até que os legumes estejam macios, porém ainda crocantes. Retire e reserve.

Aqueça a colher de óleo restante no wok ou frigideira e frite metade da carne. Mexa sempre até que esteja bem frita. Retire e reserve. Faça o mesmo com a outra metade da carne. Quando estiver frita, adicione o molho e mexa constantemente, até que ele ferva e engrosse. Junte os legumes e a carne que estavam reservados e os brotos de feijão enlatados (se estiver usando). Aqueça por um minuto e sirva sobre noodles ou arroz. Rende 4 porções.

Obs.: O segredo desse tipo de prato é cozinhar com pouco óleo,em fogo alto e rapidamente.

(Receita adaptada do livro: Wok Cuisine, Oriental to American – Better Homes and Gardens)

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P.S. A história da imigração chinesa é muito mais complexa e interessante do que poderia caber num post de blog. Aqui fica um resumo bem superficial, só para dar uma ideia. 🙂

Fontes:

San  Francisco Magazine – Special Issue: Culture, Politics, and the Rise of a Chinese-American Establishment

PBS – KQEDhttp://www.pbs.org/kqed/chinatown/resourceguide/story.html

Wikipedia

The Castro – Um breve passeio pelos bairros de São Francisco

 

(Foto de Feito Peixe Fora d'Água)
(Foto de Feito Peixe Fora d’Água)

O bairro Castro nasceu dentro de um outro bairro, o Eureka Valley, lá pelo final dos anos 1880. Na época, ali só havia umas poucas residências e vários pequenos negócios. Nas casas, de arquitetura vitoriana, além de americanos e mexicanos, moravam irlandeses, alemães, suecos e finlandeses que trabalhavam no comércio, no setor público e nas docas, e o pequeno lugar tinha tudo de que precisava: mercadinhos, padaria, açougue, etc. Com o tempo, o número de casas aumentou e espremeu o bairro, mas suas características permaneceram. Até a chegada a Segunda Guerra Mundial… Os anos pós-guerra viram o declínio do bairro. Os preços altíssimos dos financiamentos fizeram com que muitos trocassem Eureka Valley pelo subúrbio de São Francisco. A popularização dos automóveis serviu de incentivo.

Durante a Segunda Guerra Mundial, milhares de soldados americanos de todas as partes do país foram expulsos das suas divisões devido à sua orientação sexual. São Francisco, já conhecida por ser bastante tolerante, acolheu um grande número desses soldados, e eles foram parar em diversos pontos da cidade. Eureka Valley passou a se firmar como uma comunidade gay durante o Summer of Love do bairro vizinho, Haight-Ashbury, em 1967 (para saber mais sobre o evento e o movimento hippie, dê uma olhadinha no meu post anterior). Nos anos que se seguiram, médicos, engenheiros e advogados, grande parte deles gays com muito dinheiro, começaram a se mudar para Eureka Valley, atraídos principalmente pela bela arquitetura local. Castro Street, a principal rua do pequeno distrito, acabou por dar seu nome ao bairro.

Hoje, São Francisco (incluindo Oakland e Hayward) tem o maior número de pessoas que se identificam como gays, lésbicas, bissexuais e transexuais do país. Segundo a Sistema de Pesquisa Gallup, isso se traduz em 6,2% da população da cidade. A bandeira símbolo do movimento LGBT foi desenhada por Gilbert Baker, artista de São Francisco, em 1978, e sofreu algumas modificações desde então.

O bairro foi e continua sendo palco de marchas, protestos, movimentos políticos e eventos históricos. E de pessoas nuas. Pois é. Até fevereiro de 2013, usar roupas na cidade era opcional. A única exigência era que, por questões de higiene, se cobrisse o assento com papel ou pano antes de se sentar. A nova lei cortou um pouco o barato dos peladões e peladonas espalhados por São Francisco. No entanto, basta um passeio por Castro para a gente se deparar com alguém assim, bem à vontade. Se não quiser passar pela experiência, não visite o bairro ou, então, torça para que esteja fazendo muito frio no dia.  🙂

Castro é, sem dúvida, um dos bairros mais agitados da cidade. Há inúmeros bares, cafés, restaurantes, clubes e lojas, além do icônico cinema (o Castro Theater, construído em 1922). Diversão não falta. Uma precaução, porém: olhinhos infantis podem se chocar com algumas vitrines. Às vezes, elas podem ser bastante explícitas.

Para saber mais, você pode fazer um walking tour que passa pelos lugares mais interessantes enquanto conta a história do bairro. É só visitar o site:

http://www.cruisinthecastro.com

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E por falar em movimentos políticos…

 Foi para Castro que se mudou Harvey Milk , a primeira pessoa assumidamente gay  eleita para um cargo de governo nos EUA. A história é contada no filme Milk: A Voz da Igualdade, de 2008. Aqui vai o trailer:

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Fontes:

Wikipedia

http://www.kqed.org/w/hood/castro/castroHistory.html

Frommer’s San Francisco 2011

Um breve passeio pelos bairros de São Francisco: Haight-Asbury

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O bairro de Haight-Ashbury recebeu esse nome devido à intersecção de duas de suas ruas principais, a Haight St. e Ashbury St. Até o início do século passado, as grandes casas coloridas de estilo vitoriano que ali existiam eram habitadas por moradores da classe média-alta de São Francisco. O bairro, por sorte, escapou ileso do terremoto de 1906 que devastou grande parte da cidade. As mansões continuaram de pé, mas o lugar foi mudando de perfil aos poucos.

A Crise de 1929 e a consequente depressão econômica pela qual o país passou nos anos seguintes e, mais para a frente um pouco, os anos posteriores à Segunda Guerra Mundial contribuíram para o declínio daquela região. Os antigos moradores abandonaram o bairro, alugando suas antigas residências por preços muito baixos. E, aí, ah… aí, vieram os anos 1960 e, com eles, o movimento hippie.

Foi o Human Be-In, um evento que atraiu cerca de 20 mil pessoas em janeiro de 1967 no Golden Gate Park (ali do lado) o responsável pelo início da popularização do movimento hippie. Foi esse evento também que inspirou o famoso musical Hair. Em junho do mesmo ano, aconteceu o Monterey Pop Festival, no sul da Califórnia. Nele se apresentaram pela primeira vez para um grande público figuras como Janis Joplin e as bandas The Jimmy Hendrix Experience e The Who. O festival deu início ao Summer of Love, um fenômeno social que levou cerca de 100 mil pessoas a se instalarem, de cabelão, bata e cuia, em Haight-Ashbury. Essa multidão toda chegou para ficar, atraída pelo baixo custo dos aluguéis, pelo fácil acesso a drogas, como anfetaminas, LSD e marijuana, e pela vontade de viver em comunidade. O bairro de São Francisco ficou famoso e passou a ser sinônimo de contracultura, drogas e música. Ah, claro, e de paz e amor. Janis Joplin, o pessoal do Grateful Dead e do Jefferson Airplane todos moraram ali.

Nos anos de 1980, Haight-Ashbury teve papel importante no crescimento e na promoção da comédia teatral de SF. O bairro ajudou a lançar a carreira de Robin Williams e Whoopi Goldberg, entre outros comediantes.

Hoje os hippies se foram, com exceção de alguns poucos remanescentes. O que se vê ali agora é uma mistura de lojas trendy, restaurantes e cafés hip (não confundir hip com hippie!), lojas de discos e de roupas vintage, moradores ricos (muitos voltaram…), pedintes, gente das mais diversas tribos, algum cheiro suspeito, cores por todos os lados e, sim, muitos turistas.

Se planeja passar alguns dias em São Francisco, uma visita ao bairro pode ser bastante divertida. Aqui vão quatro dicas:

  • Haight-Ashbury Flower Power Walking Tour: para quem quer saber um pouco mais sobre a arquitetura local, a história do movimento hippie, visitar a casa de Janis Joplin, etc.

www.haightashburytour.com

  • Haight-Ashbury Street Fair: a feira acontece todo segundo domingo de junho. Lá você vai encontrar artesanato de todo tipo, comidas étnicas, bandas de rock e coisas do gênero.

www.haightashburystreetfair.org

  • Ben and Jerry’s Ice Cream: a legendária sorveteria fica bem na esquina da Haight Street com a Ashbury Street. Saboreie seu sorvete e tire uma foto das placas. 🙂

1480 Haight St., San Francisco CA.

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E por falar em hippies…

Scott McKenzie imortalizou o movimento na cidade com sua música San Francisco (Be Sure to Wear Flowers in Your Hair): 

“If you’re going to San Francisco
Be sure to wear some flowers in your hair
If you’re going to San Francisco
You’re gonna meet some gentle people there”…

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Fontes:

Frommer’s San Francisco 2011

Wikepedia

Comfort Food para todos os gostos

São Francisco é uma cidade de imigrantes e concentra inúmeras nacionalidades entre seus pouco mais de 850 milhões de habitantes. Essa diversidade toda naturalmente se reflete na culinária. Junte a isso o fato de que o país como um todo – e essa cidade em particular – é muito competitivo, e você tem uma quantidade enorme de bons a excelentes restaurantes das mais variadas partes do mundo (os ruinzinhos não sobrevivem por muito tempo – sites de opinião como Yelp e Zagat são implacáveis…).

Há poucos dias, fui com o Filho ao Westfield, um shopping center que fica no centro da cidade. Na hora que bateu a fome, fomos almoçar na praça da alimentação do shopping. Para nossa surpresa, recentemente abriram ali uma pequena churrascaria brasileira. Não dava para deixar escapar. Picanha aqui é coisa rara! Fizemos o pedido a dois funcionários que de brasileiros não tinham nada e que pareciam pouco familiarizados com aquilo que serviam (pedi umas gotinhas do óleo da pimenta e a mocinha me deu um copinho cheio de malaguetas). Já sentados, enquanto misturava o arroz com o feijão e a farinha, eu me peguei pensando em quão pouco atraente aquilo devia parecer aos olhos estrangeiros, e quão delicioso era. Será que esse pessoal aqui sabe como comer isso do jeito certo? Tinha que vir com instruções: misture tudo e bote umas gotinhas de pimenta por cima. Fica uma bagunça, mas é muito bom.

Comfort food é uma expressão traduzida normalmente como comida caseira. Mas é mais que isso, é a comida que nos leva de volta à infância, que nos traz aquele sentimento gostoso de que está tudo certo, de que tudo está bem. Vai além do sentido de comida caseira. Quando vi o Filho se deliciando com arroz, feijão e bife, foi nisso que pensei. Ele parecia ter voltado no tempo, à época em que eu ainda fazia arroz e feijão ou, então, à férias na casa da avó. No mesmo instante, um casal de coreanos se sentou do nosso lado. Eles mexiam com maestria os ingredientes das duas tigelas que haviam levado para a mesa. Eu não sabia o nome daquele prato coreano, muito menos o jeito certo de comê-lo, mas aquilo era evidentemente comfort food para eles. Na praça da alimentação do Westfield não há McDonald’s nem Pizza Hut. O que há é uma pequenina amostra da heterogeneidade que existe em São Francisco. Ali você encontra pouco mais de meia dúzia de restaurantes de diversas nacionalidades, mas, lá fora, as alternativas são incontáveis. A chance de agradar a um estrangeiro com saudades de casa é grande!

Obs.: Come-se bem em São Francisco hoje, assim como se come bem em Chicago, Nova Iorque e muitas outras cidades americanas. Mas nem sempre foi assim. A história da evolução da culinária no país é muito interessante e está contada no ótimo livro ‘An Economist gets Lunch’, de Tyler Cowen. O autor dá ainda grandes dicas de como encontrar boa comida (boa comida não é sinônimo de comida cara) e explica por que muitas vezes come-se melhor num restaurante ‘pé sujo’ do que num badalado. Isso vale para qualquer país! Se você lê em inglês e se interessa pelo assunto, fica aqui a sugestão.

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E por falar em comfort food…

Meatloaf é o exemplo perfeito de comfort food para os americanos. Parece com nosso bolo de carne, mas não é recheado. Os temperos também são diferentes dos que vão na versão brasileira. Aqui vai uma receita bem gostosa e fácil de fazer do site ‘simplyrecipes.com’ . Se quiser dar uma olhada na receita original é só visitá-lo. O site traz outros pratos deliciosos e fotos de dar água na boca.

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Tempo de preparo: 20 minutos; tempo de cozimento: 1 hora (+ 10 minutos)

Serve: 4 a 6

Ingredientes

2 colheres (sopa) de manteiga sem sal

1 xícara de cebola, bem picada

1 talo de aipo, bem picado

1 cenoura, bem picada

½ xícara de cebolinha, parte branca e verde, bem picada

3 dentes de alho, amassados

2 colheres (chá) de sal

½ colher (chá) de pimenta-do-reino

2 colheres (chá) de Molho Inglês (Worcestershire sauce)

2/3 xícara de Ketchup, divididos em 1/3 e 1/3

700g de carne moída

350g de linguiça italiana (apimentada ou sem pimenta) ou carne de porco moída*

1 xícara de farinha de pão (bata duas fatias de pão de forma até obter uma farinha grosseira)

2 ovos grandes, levemente batidos

1/3 xícara de salsinha, picada

* A linguiça italiana dá um gostinho especial à receita. Se preferir usar carne de porco moída ou mesmo linguiça de porco comum, acrescente ½ colher (chá) de sementes de erva-doce amassadas, ½ colher de ervas secas (como tomilho, orégano e/ou alecrim) e umas gotas de pimenta vermelha.

Preparo:

Aqueça o formo a 180°C.

Em uma panela grande, leve a manteiga ao fogo médio. Assim que derreter, acrescente a cebola, o aipo, a cenoura, a cebolinha e o alho e frite por cerca de 5 minutos. Cubra a panela e frite por mais alguns minutos, mexendo de vez em quando, até que os legumes estejam macios. Tempere com o sal e a pimenta e adicione o Molho Inglês e 1/3 xícara de Ketchup. Cozinhe por mais um minuto e retire do fogo.

Quando os legumes tiverem esfriado um pouco, coloque-os em uma tigela grande e junte a carne moída, a linguiça sem a pele, os ovos, a farinha de pão e a salsa. Mexa bem com as mãos até que tudo esteja bem misturado.

Unte uma assadeira de pão ou de bolo inglês (cerca de 25cm x 10cm, com 7cm de altura) e coloque ali a mistura da carne. Pressione até ficar uniforme. Se não tiver uma assadeira própria, molde o bolo de carne com as mãos e coloque-o em uma assadeira ou pirex. Espalhe o restante do Ketchup por cima da carne e cubra com papel alumínio.

Leve-o ao forno por cerca de uma hora ou até que esteja assado (retire o papel alumínio depois de 30 minutos). Deixe descansar por 10 minutos e sirva.

Se sobrar, o meatloaf fica ótimo em sanduíches no dia seguinte! É só conservá-lo na geladeira e esquentá-lo de novo quando for usar.

Pequena história dos food trucks

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Segundo o site culinaryschools.com, a história dos food trucks americanos teve origem no final do século 17, na costa leste do país, com vendedores ambulantes que paravam suas carroças nas ruas e vendiam comida aos transeuntes. Depois da Guerra Civil (1861-1865), muita gente começou a cruzar o país em busca de novas oportunidades. Essa expansão criou uma necessidade grande de alimentos, e a carne era um deles. Para suprir essa demanda, pecuaristas precisavam percorrer enormes distâncias levando gado para o oeste e o norte do país e, como as ferrovias ainda não haviam chegado àqueles lados, acabavam ficando meses a fio nas estradas, com pouca coisa para comer.

Em 1866, enquanto se preparava para a longa viagem que teria pela frente para levar suas duas mil cabeças de gado do Texas para o estado do Novo México, o rancheiro Charles Goodnight teve uma sacada genial: adquiriu uma carroça que havia pertencido ao Exército e a adaptou com uma cozinha. Deu um jeito de enfiar uma superfície onde pudesse preparar e servir a comida, estocou o vagão com enlatados e outros não perecíveis e lá foi ele, feliz da vida, porque finalmente conseguiria comer bem na estrada. A ideia pegou. Para os cowboys, ‘chuck’ significa ‘boia’ ou ‘rango’  e, desde então, essas carroças  passaram a ser conhecidas como chuck wagons. Essas ‘cozinhas sobre rodas’ são as precursoras dos food trucks de hoje nas terras americanas.

Décadas mais para a frente, imigrantes mexicanos trouxeram a cultura do taco truck para a Califórnia. A coisa foi se diversificando um pouco, mas, durante muito tempo, food trucks eram sinônimos de hambúrgueres, cachorros-quentes, sorvetes e, naturalmente, tacos. Nada muito interessante.

A crise financeira iniciada na década passada foi a responsável pela reviravolta do street food (comida vendida na rua, seja em bancas, feiras, carrinhos ou food trucks). Por causa da crise, muitos chefes de restaurantes badalados perderam o emprego. Montar um food truck pareceu uma boa ideia para alguns deles, uma vez que o capital que precisariam empregar seria relativamente pequeno. Os americanos, já acostumados com a cultura do street food, estavam ávidos por uma comida rápida, econômica, mas de melhor qualidade. Bingo! Assim nasciam os food trucks gourmet.

As cidades americanas com mais concentração de food trucks são Chicago, Los Angeles, Nova Iorque, Washington D.C., Houston, Miami e São Francisco. Presume-se que, a cada semana, dez food trucks novos sejam abertos. Hoje há cerca de três milhões deles nas ruas do país e sabe-se lá quantos outros espalhados pelo mundo. A história do street food em países asiáticos, africanos e europeus é muito mais antiga, e a origem de seus food trucks certamente é diversa. Porém, a onda dos food trucks repaginados e chiquezinhos de hoje se deve bastante à influência da cultura americana.

Na outra ponta dos food trucks gourmet estão aqueles com finalidades humanitárias que são usados para levar ajuda a refugiados e populações carentes ou de áreas em conflitos. Entre um extremo e outro, segundo a Food and Agriculture Organization of the United Nations, eles alimentam cerca de 2,5 bilhões de pessoas por dia. É gente para caramba!

O termo food truck foi adicionado à Wikipédia em 2006.

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E por falar em food trucks…

Se ainda não viu, não deixe de ver o gostosíssimo filme Chef, com Jon Favreau, Sofía Vergara e Scarlett Johansson. Dê uma olhada no trailer:

O ótimo livro The Van (‘O Furgão’), de Roddy Doyle, também virou filme anos atrás. A história é da época em que food trucks eram tudo, menos requintados:

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Quer saber mais? Aqui vão as fontes:

http://www.culinaryschools.com/history-of-food-trucks

http://mashable.com/2011/08/04/food-truck-history-infographic/

http://mobile-cuisine.com/business/history-of-american-food-trucks/

E um filminho bem legal que resume bem a história toda:

http://www.history.com/shows/modern-marvels/videos/history-of-food-trucks

Un sombrero rojo, pero no mucho

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“Será que este vai funcionar?”, pensei de manhã, ao lambuzar o rosto com o mais recente creme antirrugas que promete resultados em três meses. Mas daqui a três meses não vou estar três meses mais velha? Isso tem jeito de batalha perdida… É melhor ir à luta, por via das dúvidas, e usar todas as armas disponíveis: sérum com tensor, creme para a região dos olhos, creme para a região do pescoço, protetor solar… O arsenal conta ainda com preenchedor instantâneo de rugas (cujo efeito, posso quase jurar, também desaparece instantaneamente), base corretiva, e por aí vai. Complicada essa faixa dos quarenta e tantos anos…

Enquanto observo minha imagem e vejo as mudanças que os anos têm trazido, penso naquelas que não são visíveis, mas que são ainda mais importantes. A juventude nos dá todas as possibilidades ou, pelo menos, a ilusão de que temos todas as possibilidades. O tempo passa e realiza algumas delas; outras, não. Às vezes, muda o rumo completamente. O que não quer dizer que seja para pior. A sociedade nos cobra algumas coisas, mas as cobranças que nos aporrinham mais são as internas. Tenho me dado conta de que tá aí uma coisa boa que a idade traz: a gente começa a fazer ouvidos moucos a essas cobranças, venham de fora ou de dentro. Aliás, na minha opinião (e opinião, por definição, é uma coisa muito pessoal), envelhecer é libertador, pelo menos quando aceitamos que estamos envelhecendo e que o processo não tem volta. A gente passa a ‘não ter que’ mais nada. Aleluia! Que leveza!

Minha mãe sempre diz que cada idade tem sua beleza. Minha mãe é uma otimista, mas ela tem razão. Foi ela que me mandou, tempos atrás, aquela bonita mensagem chamada ‘El sombrero rojo’. A mensagem descreve o olhar feminino diante do espelho: aos dois anos, a menina vê uma rainha; aos oito, uma princesa; aos vinte, ela se acha gordinha e feiosa… e assim vai. Aos setenta anos, a senhora não se importa tanto com o que vê e, aos oitenta, nem olha mais para o espelho: veste um chapéu vermelho e sai para se divertir. Que maravilha deve ser não dar muita bola para o espelho nem para o que pensa a patota!

A mensagem ‘El sombrero rojo’ me lembra dois grupos bem diversos de mulheres que vi num restaurante outro dia. O primeiro era formado por cerca de quinze jovens que deviam ter pouco menos de trinta anos. Estavam todas produzidíssimas, maquiadíssimas, de salto altíssimo. Tudo assim, no superlativo, como a idade permite. Vira e mexe, ajeitavam o cabelo ou puxavam a saia curtíssima para baixo. O segundo grupo também era numeroso. Dele faziam parte várias mulheres de sessenta e poucos anos. Estavam todas bem arrumadas, mas sem exageros. As senhoras pareciam entretidas com o cardápio e se empenhavam em escolher um belo vinho e conversar com as amigas do lado e da frente. Os interesses e as prioridades mudam com o passar dos anos, disso ninguém tem dúvida. Mas, de qualquer jeito, ambos os grupos pareciam estar se divertindo, cada um à sua maneira. Enquanto as jovens transmitiam muita vitalidade e energia, as senhoras deixavam transparecer uma tranquilidade e uma segurança encantadoras de quem se sente muito bem na própria pele, mesmo essa não sendo mais lisinha. Admirei os dois grupos e me senti meio no limbo. É estranho, não, quando a gente não tá lá nem cá, quando não temos mais o frescor e as aspirações da juventude nem temos ainda a serenidade e a sabedoria que a maturidade (espera-se) traz. É claro que serenidade e sabedoria não chegam do nada. Vêm de muitas coisas vividas, um bom tanto delas tristes, difíceis e desagradáveis. Acho que deve ser assim que a gente passa a escolher em que deve realmente usar nossa energia, já que a temos em menor quantidade que antes. Vai ficando mais claro com o que vale a pena a gente se importar.

E como o cérebro da gente trabalha por associações, acabo de me lembrar de um outro episódio. Não faz muito tempo, numa cafeteria que costumo frequentar aqui em São Francisco, vi entrar um casal de idade bastante avançada, de braços dados. O senhor, bem curvadinho e de cabelo bem branquinho, apoiou sua bengala na parede e se sentou enquanto a senhora foi ao balcão fazer o pedido. Tomaram seu café e ficaram ali um pouco. Na hora de irem embora, a senhora se levantou, se pôs na frente do companheiro e lhe estendeu as mãos. O senhor as segurou e tentou se levantar. Foram três tentativas até conseguir. Sentada na mesa ao lado deles, eu me peguei dizendo em pensamento: upa-lá-lá. O senhor pegou sua bengala, eles se deram os braços e saíram, caminhando devagarinho.

E assim a vida passa, com suas belezas e seus perrengues. Eu não sei até onde vou chegar. Mas quero fazer um pacto com a idade, supondo que eu siga vivendo ainda uns bons anos: eu a aceito, e ela chega gentilmente. Vou passar todos os creminhos de última geração que eu conseguir – e vou agradecer aos céus se minhas preocupações forem as rugas, porque, na escala do que é de fato relevante, que importância elas têm, não? Vou procurar aprender tudo o que eu puder e tentar nunca tomar nada por garantido. Espero não perder a capacidade de me surpreender nem de me encantar. Deus me livre de ficar muito ranzinza e cheia de manias! E, embora a gente vá perdendo um pouco as ilusões, se não for pedir muito, gostaria de sempre ter com que sonhar (a vida fica muito sem graça sem um mínimo de ilusão).

Como ainda não estou pronta para vestir um chapéu vermelho, vou agora mesmo providenciar um fedora bem bonitinho e fazer a transição aos poucos. Espero chegar lá! E espero que com saúde. Espero também que, anos à frente, minhas amigas e eu possamos nos reunir de vez em quando em volta de uma grande mesa num restaurante bacaninha para compartilharmos nossas histórias. Bebericando um bom vinho, sem dúvida. E, se der para esticar os anos ainda um pouco mais, que eu tenha alguém querido a quem dar o braço na hora de passear – para que o mais forte de nós dê um upa-lá-lá ao outro, se precisar.

E por falar em amigas…

Deixo aqui um grande beijo a todas as minhas, que estão espalhadas pelos quatro cantos.

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Panna cotta com frutas vermelhas

Ontem tivemos visitas aqui em casa. Alguns amigos americanos que conhecemos quando estávamos todos morando na Itália vieram passar umas horinhas conosco. Para comemorar o reencontro, preparei um jantar bem italiano. De sobremesa, fiz panna cotta.

Panna cotta significa creme de leite cozido e é uma sobremesa bem fácil de preparar. Não é muito doce e o que dá graça a ela é o caldo, ou coulis, que vai por cima. Há muitas variações de coulis, e aqui vai a receita de um muito tradicional:

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Ingredientes (8 pessoas):

Para a panna cotta:

600ml de creme de leite fresco integral (evite os de latinha)

100g de açúcar

1 fava de baunilha

3 folhas de gelatina

8 copos de plástico

Para o caldo de frutas vermelhas:

1 xícara de morangos

1 xícara de framboesa

1/2 colher (sopa) de suco de limão

2 colheres (sopa) de açúcar de confeiteiro

Preparo:

  • Amoleça a gelatina em uma tigela com água fria.
  • Em uma panela, misture o creme de leite, o açúcar e a fava de baunilha cortada no meio, no sentido de comprimento. Deixe ferver ligeiramente e desligue o fogo. Retire a fava de baunilha e raspe os grãos com a ponta de uma faca. Misture os grãos com o creme de leite e deixe repousar por cerca de 15 minutos, com a panela tampada.
  • Leve o creme de novo ao fogo e esquente-o ligeiramente. Desligue o fogo, Retire a gelatina da água e escorra bem. Acrescente a gelatina ao creme de leite e mexa bastante, até que ela esteja completamente dissolvida.
  •  Enxágue os copinhos de plástico em água fria. Retire o excesso de água, mas não os enxugue. Encha cerca de 1/3 de cada copinho com o creme e leve-os à geladeira por pelo menos 5 horas.*
  • Enquanto isso, faça o caldo. Bata 3/4 xícara de morangos e 3/4 xícara de framboesas, o suco de limão e o açúcar até obter um molho uniforme. Passe o molho por uma peneira grossa. Despeje o caldo em uma tigela, acrescente os morangos e as framboesas restantes e deixe marinar na geladeira por pelo menos duas horas.
  • Desenforme cuidadosamente a panna cotta e sirva acompanhada do caldo.

*Parece pouco, mas satisfaz. Acredite!

Se quiser dar um sabor mais tropical à panna cotta, faça um caldo de manga ou de maracujá da próxima vez. De goiabada com certeza ficará uma delícia também!

(Receita adaptada do livro Panna cotta, de Stéphanie Bulteau. Guido Tommasi Editore)

Amália e sua fiel ajudante

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Esta manhã, pus meu iPod para tocar aleatoriamente e ele selecionou um fado. Adicionei a música à minha lista depois de visitar a Casa Museu Amália Rodrigues no verão europeu passado – passeio que fazia parte do plano que duas amigas e eu tínhamos de explorar Lisboa como se fôssemos turistas. Como as músicas têm o poder de fazer a gente voltar no tempo e no espaço, hoje de manhã fui parar de novo na conhecida Rua de São Bento, dentro do casarão em que a fadista viveu seus últimos 40 anos.

A Casa Museu é fácil de identificar: a gente chega e já vê um grande rosto da Amália pintado na fachada. Amália morreu em 1999 e, desde então, o casarão passou por algumas remodelações para se tornar um museu, mas pouca coisa mudou de fato.

O museu oferece visitas guiadas. Naquela tarde, esperamos alguns minutos no hall de entrada até que o pequeno grupo que havia chegado antes de nós saísse. Então, foi nossa vez de conhecer os andares seguintes da casa. Nossa guia, uma senhora já de uma certa idade, deixou escapar um suspiro enquanto subia lentamente os antigos degraus. Perguntei-lhe se ela subia e descia aquela escada muitas vezes por dia. Ela me disse que sim e sorriu, acrescentando, com ar resignado, “Estou acostumada!”

Chegamos no primeiro andar. Ali ficam uma grande sala de estar e uma sala de jantar. Tudo continua mobiliado e decorado como na época em que Amália ali morava. Na sala principal, encontram-se uma guitarra do século XIX, um piano, muitas condecorações e medalhas diversas. A mesa da sala de jantar está posta como se a cantora estivesse para receber amigos ou convidados ilustres. Nossa guia apontava para objetos e contava algumas histórias. De lá, fomos ao segundo andar, onde ficam uma outra sala, uma saleta cheia de roupas, dois quartos e um banheiro. A senhora continuava a contar histórias, chamando nossa atenção para os diversos quadros nas paredes e para vestidos e bijuterias que Amália usava em seus espetáculos e que agora permanecem expostos nos aposentos.

Nossa guia parecia seguir um script decorado que, de tanto ser repetido, já não trazia nenhum traço de emoção. Foi então que minha amiga resolveu lhe perguntar se ela havia conhecido a cantora pessoalmente. “Se eu conheci a Amália? Ah, sim!”, disse ela. Então, contou-nos que, quando fez dezoito anos, pediu de presente ao pai permissão para viajar a Lisboa. Era seu sonho conhecer a grande estrela Amália Rodrigues. Seu pai consentiu e ela partiu de Angola, sua terra Natal, para Portugal sem imaginar o que encontraria pela frente. Contou-nos que chegou ao país estranho e que, durante dias e dias, tentou em vão falar com Amália. De tanto insistir, a própria fadista abriu a porta de seu casarão para ela e a convidou a entrar. “Entrei”, disse ela, “e não saí mais”. Amália ofereceu-lhe um emprego, e a jovem se tornou sua companheira fiel por quase quarenta anos. Disse-nos que havia dedicado sua vida à cantora enquanto esta era viva e que continuava a fazê-lo agora, como guia da Casa Museu.

Íamos ouvindo curiosidades sobre os costumes de Amália, sobre o que acontecia nos palcos e detrás deles, sobre as visitas que a artista recebia e as viagens que fazia. Descobrimos que a senhora a acompanhava por todos os lados, que conhecia bem os amores e os desamores da diva, suas alegrias e suas depressões.

Entre um relato e outro, a guia ia, aos poucos, revelando-nos também um pouco de sua própria história. Disse-nos que havia se casado e tido filhos. Contou-nos que foi ela que encontrou Amália morta, numa manhã, ao chegar para trabalhar. Fui me dando conta de que aquela senhora não havia tido somente um papel coadjuvante na vida de uma pessoa ilustre como Amália. A senhora era, sim, protagonista de uma existência interessantíssima. Quantas coisas mais teria para contar? Quantas dificuldades e desafios teria vencido? Que pena que não escreveu um livro ou não registrou de alguma outra forma tudo aquilo que vivenciou e continua vivenciando, começando pela sua infância em Angola, sua paixão por uma artista portuguesa, sua determinação em conhecê-la e sua coragem de, ainda tão jovem, sair de seu país, sem imaginar que o estava abandonando. Isso há mais de cinquenta anos!

Nossa visita guiada chegou ao fim. Saí do museu encantada com as histórias da Amália e com a trajetória daquela senhora e com vontade de saber mais sobre as duas. Não fosse eu tão tímida nem a guia tão ocupada, talvez a tivesse convidado para um café e um dedo de prosa. Mas eu sou tão tímida e ela estava tão ocupada…

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E por falar em fado…

– Sua história é complexa e muito rica. Quem quiser saber um pouco mais sobre o assunto não pode deixar de visitar o Museu do Fado, no Lg. do Chafariz de Dentro, 1, em Santa Apolônia. Tel.: 21 882 3470 ( www.museudofado.pt )

A Casa Museu Amália Rodrigues fica na Rua São Bento, 193. Tel.: 21 397 1896

– Nos meses de julho, agosto e setembro geralmente acontecem as ‘Visitas Cantadas’ em Alfama e na Mouraria, dois bairros típicos da cidade. As visitas se dão no final da tarde, duas vezes por semana. Basta chegar no ponto de encontro e se juntar ao grupo. As visitas são guiadas e o grupo caminha por ruas importantes da trajetória do fado, ouvindo histórias e músicas. Para maiores detalhes, visite o http://www.museudofado.pt . É bom ligar antes para se certificar que vai haver.

Em tempo: um programa imperdível na Mouraria, ao terminar a visita cantada, é subir até o terraço do Hotel Mundial, pedir uma bebidinha e apreciar o pôr do sol. A vista da cidade é linda! O hotel fica na Praça Martim Moniz, 2.

– Há várias casas de fado em Lisboa. Normalmente o programa inclui o jantar, que é caro e nem sempre é bom. Mas é possível chegar mais tarde só para assistir ao show. Aqui vão duas opções:

Clube do Fado: Rua São João da Praça, 86-94, Sé. Tel.: 21 885 2704

Senhor Vinho: Rua do Meio à Lapa, 18. Tel.: 21 397 2681

– Engana-se quem pensa que fado é coisa do passado. O estilo musical tem encontrado novo vigor com nomes fortes como Mariza, Kátia Guerreira, Carminho e Ana Moura, entre tantos outros.

– Em 2011, o fado foi declarado Patrimônio Imaterial da Humanidade, pela UNESCO.

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Mural de autoria desconhecida, Mouraria
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Mural de autoria desconhecida, Mouraria