Meu filho e os bolos que quero fazer

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Quando penso na minha infância, uma das imagens recorrentes que me vêm é a da geladeira da casa dos meus pais. Costumava abri-la com frequência para ver o que havia de bom para lambiscar. Sempre encontrava algum doce. Na minha infância também nunca faltaram bolos. Minha mãe sempre fez pratos deliciosos, doces e salgados. Muitos deles são receitas que eu nunca experimentei – nunca ousei – fazer. Meu repertório culinário é bem diferente do dela. Eu nunca conseguiria fazer igual. Comida de mãe é comida de mãe. Outro dia estava pensando em como as lembranças que meu filho, hoje adolescente, vai ter serão diferentes das minhas. Entrei em crise, quis recuperar algumas coisas, fazer para ele o que traz reconforto para mim. Depois acabei me dando conta de que isso é impossível. Memória afetiva não se transfere. Meu filho se lembrará de outras coisas. Das recordações que ele terá não farão parte os doces ou bolos que fazem parte das minhas. Nem os lanches da tarde em volta da mesa da minha avó ou das minhas tias com café passado na hora, queijo fresco, bolachas e pães, muitas vezes, feitos em casa. De qualquer forma, espero que ele encontre aconchego quando, adulto, pensar na sua infância e adolescência. Aí, resolvi começar a fazer bolos com mais frequência (os que eu fazia eram bastante esporádicos…). Sei que essa é uma corrida contra o tempo, mas gostaria que me filho se lembrasse sempre de como é gostoso chegar em casa e sentir o cheirinho de bolo assando no forno. Porque, sério, isso é mesmo bom, não? Bolo simples, sem recheios ou coberturas complicadas. Aconchego não precisa de sofisticação. É bem possível que as recordações que ele terá nem incluirão comidas. Talvez eu esteja tentando plantar as memórias que eu quero ter. Deve ser isso mesmo, sou eu que quero me lembrar que assei bolos para meu filho antes de ele bater asas e voar para longe, coisa que vai acontecer daqui a não muito tempo. Mas torço muito para ele curtir os bolos de verdade!

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Já que resolvi virar boleira amadora, vou compartilhar com você as receitas que eu fizer e que derem certo. O tipo de bolo que escolhi é o pound cake. Já explico o que é:

Pound cake não tem uma bola tradução para o português. Esse bolo surgiu em algum lugar do norte da Europa no início do século dezoito. Bem impreciso, eu sei… Mas não há muitos registros que contem sua história direitinho. O que se sabe de fato é que ele recebeu esse nome porque, originalmente, sua receita levava a mesma medida (‘one pound’, isto é, uma libra – cerca de 450 gramas) de cada um desses quatro ingredientes: farinha, ovos, açúcar e manteiga. E só. O bolo de três séculos atrás pesava quase dois quilos e alimentava uma porção de gente. Com o tempo, pound cake passou a designar qualquer bolo cujos ingredientes tivessem o mesmo peso, qualquer que fosse esse peso. E o bolo continuou se transformando. Hoje em dia, pound cake é sinônimo de bolo simples, normalmente feito em assadeira do tipo daquelas usadas para fazer pão ou bolo inglês. Lembra-se do bolo Pullman de muitos anos atrás? É isso. Receitas maiores costumam ser feitas em assadeiras redondas, de furo, ou do tipo Bundt (uma assadeira redonda toda trabalhada, que deixa o bolo lindo!).

O bacana do pound cake é que ele pode ser servido assim, sem nada, ou, então, com um pouquinho de açúcar de confeiteiro peneirado por cima, com algum glacê ou com cobertura de chocolate, por exemplo. Sua simplicidade permite que ele seja acompanhado de manteiga, geleia, doce caseiro, pasta de amêndoa… E o melhor: ele combina com tudo: café, chá (quente no inverno, gelado no verão), chocolate quente, leite frio, suco… É uma felicidade!

(Especula-se que o pound cake seja originário da França, onde, até hoje, ele conserva o nome de quatre-quarts (quatro-quartos), referindo-se às partes iguais dos quatro ingredientes.)

Então, que tal começarmos fazendo um bolo que costuma agradar a todo mundo?

 

 Bolo de Chocolate – Chocolate Pound Cake

 

Esta receita é grande. Você vai precisar de uma assadeira de um bom tamanho. Como em casa somos só dois que comem bolo, em vez de usar uma assadeira grande, costumo dividir a massa entre duas assadeiras daquelas de pães (as minhas são pequenas). Assim, um bolo fica para consumo imediato e o outro eu congelo. Não é genial?

Ingredientes :

 3 xícaras de farinha (mais cerca de 1 colher de sopa, para polvilhar a assadeira)

½ xícara de chocolate em pó*

½ colher (chá) de fermento em pó

½ colher (chá) de sal

1 xícara (225 g) de manteiga sem sal, na temperatura ambiente (mais um pouquinho para untar a assadeira)

5 ovos, na temperatura ambiente

3 xícaras de açúcar

1 colheres (sopa) de extrato de baunilha

6 colheres (sopa) de óleo de coco (90 ml)**

1 xícara de leite, na temperatura ambiente

Açúcar de confeiteiro para polvilhar (opcional)

*Não vale usar achocolatado! Nada de Nescau, Nesquick, Toddy… Todos contêm muito açúcar e pouco cacau. Dê preferência, se possível, a chocolate em pó 100% puro ou o mais próximo disso.

** A receita da qual adaptei esta aqui levava gordura vegetal. Usando óleo de coco no lugar, o bolo fica com um aroma delicioso. Use uma colher de sopa padrão (de 15 ml) como medida.

Preparo:

Unte uma assadeira, redonda ou retangular, com manteiga e polvilhe com cerca de 1 colher de farinha. Reserve.

Pré-aqueça o forno a 170 graus enquanto prepara a receita.

Em uma tigela, peneire a farinha, o chocolate em pó, o fermento e o sal. Misture e reserve.

Bata a manteiga, o óleo de coco e o açúcar na batedeira por vários minutos, até que a mistura esteja bem macia e leve. Acrescente a baunilha e bata um pouquinho mais. Use uma espátula para raspar os lados da tigela da batedeira.

Adicione um ovo de cada vez e bata por vários segundos entre um ovo e o outro, raspado os lados de vez em quando.

Despeje um pouco de leite, bata e acrescente um pouco da mistura da farinha. Continue assim, alternando o leite e a farinha até que estejam bem incorporados e a massa esteja homogênea e leve. Tome cuidado para não bater demais nesta etapa.

Despeje a massa na assadeira e leve ao forno por cerca de uma hora. Aqui vai depender um pouco do forno que você tem. A melhor maneira de saber se o bolo está completamente assado continua sendo o teste do palitinho de dente! Deixe esfriar uns minutos, depois retire da assadeira e deixe esfriar mais um pouco. Se quiser, polvilhe com açúcar de confeiteiro.

Voilà ! Este bolo não precisa de mais nada, mas se quiser deixá-lo incrível, sirva com um pouquinho de creme de amêndoas feito em casa (receita facílima a seguir). É puro prazer!

(Versão do bolo adaptada da receita original de Trisha Yearwood – Trisha’s Southern Kitchen – para Food Network)

 

Creme de amêndoas

Pré-aqueça o forno a 180 graus.

Distribua cerca de 1 xícara de amêndoas em uma assadeira. Você pode escolher se quer usar amêndoas com pele ou sem. A pele não altera o sabor, só deixa o creme mais escurinho.

Leve ao forno por cerca de 5 a 10 minutos.

Retire as amêndoas e despeje em um processador. Bata ou pulse por vários minutos. A princípio, as amêndoas vão virar pó. Continue batendo, raspando os lados do processador com uma faca ou espátula, e verá a mágica acontecer: o pó começará a virar uma pasta. Continue batendo um pouco mais, até atingir uma consistência bem macia e cremosa. O processo todo leva em torno de 10 minutos.

Obs.: O creme de amêndoas não é doce, já que amêndoas são o único ingrediente. Ele fica uma delícia assim, mas, se preferir, acrescente um pouco de mel ou de xarope de bordo (maple syrop) depois que o creme estiver pronto. Basta bater um pouco mais. Você pode acrescentar um pouquinho de baunilha também. Agora, sério, não há necessidade de nada disso!

 

 

Sobre excessos, carências e chocolates

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Paris tem “chocolateries” fantásticas, e algumas delas ainda fazem tudo “Maison”, da torrefação ao produto final. Visitá-las é um agrado a vários dos nossos sentidos. Hoje entrei numa e saí com um saquinho contendo pequeninos chocolates que eu trouxe para casa. Eles não são baratos. Mas isso é porque utilizam os melhores ingredientes, são feitos meticulosamente e exigem cuidados no armazenamento, já que chocolate não gosta de frio nem de calor. Normalmente esses quadradinhos ou bolinhas têm uma casquinha por fora que protege seu recheio. Quanto mais fina for essa casquinha, melhor é a sua qualidade. Os chocolates artesanais daqui parecem obras de arte em miniatura. Devem ser tratados com respeito. Nem se os preços não fossem proibitivos nós os deveríamos tratar com menos reverência. Não se devora um chocolatinho desses: a gente aprecia cada minúscula mordida da pequena maravilha. Há quem prefira enfiá-los inteiros na boca e saborear a explosão de sensações de uma vez. Também é válido, desde que se ponha atenção no que se está fazendo. A gente não come um chocolatinho desses assim, às pressas, vendo uma cena de suspense na TV ou andando da cozinha para a sala… Eles não são muito doces, por isso, podem não agradar a quem prefere barras e bombons mais açucarados. Costumam ser ou intensos ou delicados. Às vezes, são intensos e delicados ao mesmo tempo, por mais que essas qualidades pareçam incompatíveis. Portanto, não é só pelo preço que não os comemos aos montes. É que basta um mesmo. Ou dois…

A gente não precisa de muita coisa para ser feliz. E isso, embora verdade, é um danado de um clichê. Então, vou colocar de outro jeito: nada em excesso faz bem. Nem mesmo as coisas boas. Bem, essa é a minha opinião… O que varia, acho eu, é o que a gente considera excesso. Cada um tem um limite diferente. Veja bem, a terceira (ou quarta, ou quinta… quantifique como preferir) latinha de cerveja ou taça de vinho possivelmente vai resultar em enxaqueca ou ressaca – física ou moral -, e aquela xícara extra de café pode atrapalhar o sono dos mais sensíveis à cafeína. Acompanhar o que está acontecendo no mundo é essencial, mas assistir a noticiários indiscriminadamente deprime.  Um pouco de raiva pode ser positivo, porque nos impulsiona a fazer alguma coisa. No entanto, muita raiva causa estragos às vezes irremediáveis, a gente sabe. Até amor em demasia faz mal, já que o amor que a gente sente não costuma ter lá muito de sublime, não? Ele geralmente vem temperado de egoísmo, ciúmes, superproteção, sentimento de posse, controle… Vai dizer que muito disso é bom?

E tem outra, será que porque a gente pode, a gente deve? Aquela coisa que é tão sensacional, se feita, consumida, usada, comprada (preencha aqui com o verbo que quiser) com muita frequência, vai acabar virando banal e perdendo a graça. É uma pena quando o encanto acaba. Por isso, não quero comer esses chocolatinhos especiais todos os dias. Também não quero tomar banho de banheira todos os dias (o meio ambiente agradece), mesmo tendo a grande sorte de ter uma banheira no meu apartamento alugado. Um banho de banheira, quando a gente mora num país onde faz muito frio, equivale a um banho de piscina ou de mar no verão brasileiro. É uma bênção! Olha só, não quero nem papear com minhas amigas todos os dias. Espera, que explico: quero vê-las com muita frequência, claro, mas não todos os dias. Porque é uma delícia sentir um pouquinho de saudade e ter o que contar quando a gente se encontra. A espera também é um prazer porque a gente já curte por antecedência o que vai vir. A gente curte duas vezes.

É claro que o oposto de excesso também não é nada legal. Carência é péssimo, privação é chato. Quem é que adora um regime ou quando acaba a água? Gostaria de estar com meus pais e irmãos mais vezes, porque os visito muito pouco. Isso me faz muita falta. Meu filho adolescente logo vai para a universidade e vai morar bem longe. Queria poder continuar a vê-lo todos os dias, mesmo que só por alguns minutos. Mas o que para mim é uma necessidade básica para ele certamente é exagero. É aquela história que eu disse acima, de cada um ter um limite diferente.

Acho que o negócio é não pecar por um lado nem por outro. O melhor mesmo é a gente aproveitar os pequenos prazeres, cuidando para que continuem a ser pequenos prazeres. Hoje vou me deliciar com meus chocolatinhos da “chocolaterie” bacana e já sei que vai ser assim, porque sempre é: o primeiro que eu provar vai ser divino, o segundo vai ser bom e, se eu não parar, o terceiro não vai me dar, nem de longe, tanta satisfação quanto o primeiro. Melhor deixá-lo para amanhã. Isso vale para um monte de outras coisas. Ou será que estou enganada?

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Comfort Food para todos os gostos

São Francisco é uma cidade de imigrantes e concentra inúmeras nacionalidades entre seus pouco mais de 850 milhões de habitantes. Essa diversidade toda naturalmente se reflete na culinária. Junte a isso o fato de que o país como um todo – e essa cidade em particular – é muito competitivo, e você tem uma quantidade enorme de bons a excelentes restaurantes das mais variadas partes do mundo (os ruinzinhos não sobrevivem por muito tempo – sites de opinião como Yelp e Zagat são implacáveis…).

Há poucos dias, fui com o Filho ao Westfield, um shopping center que fica no centro da cidade. Na hora que bateu a fome, fomos almoçar na praça da alimentação do shopping. Para nossa surpresa, recentemente abriram ali uma pequena churrascaria brasileira. Não dava para deixar escapar. Picanha aqui é coisa rara! Fizemos o pedido a dois funcionários que de brasileiros não tinham nada e que pareciam pouco familiarizados com aquilo que serviam (pedi umas gotinhas do óleo da pimenta e a mocinha me deu um copinho cheio de malaguetas). Já sentados, enquanto misturava o arroz com o feijão e a farinha, eu me peguei pensando em quão pouco atraente aquilo devia parecer aos olhos estrangeiros, e quão delicioso era. Será que esse pessoal aqui sabe como comer isso do jeito certo? Tinha que vir com instruções: misture tudo e bote umas gotinhas de pimenta por cima. Fica uma bagunça, mas é muito bom.

Comfort food é uma expressão traduzida normalmente como comida caseira. Mas é mais que isso, é a comida que nos leva de volta à infância, que nos traz aquele sentimento gostoso de que está tudo certo, de que tudo está bem. Vai além do sentido de comida caseira. Quando vi o Filho se deliciando com arroz, feijão e bife, foi nisso que pensei. Ele parecia ter voltado no tempo, à época em que eu ainda fazia arroz e feijão ou, então, à férias na casa da avó. No mesmo instante, um casal de coreanos se sentou do nosso lado. Eles mexiam com maestria os ingredientes das duas tigelas que haviam levado para a mesa. Eu não sabia o nome daquele prato coreano, muito menos o jeito certo de comê-lo, mas aquilo era evidentemente comfort food para eles. Na praça da alimentação do Westfield não há McDonald’s nem Pizza Hut. O que há é uma pequenina amostra da heterogeneidade que existe em São Francisco. Ali você encontra pouco mais de meia dúzia de restaurantes de diversas nacionalidades, mas, lá fora, as alternativas são incontáveis. A chance de agradar a um estrangeiro com saudades de casa é grande!

Obs.: Come-se bem em São Francisco hoje, assim como se come bem em Chicago, Nova Iorque e muitas outras cidades americanas. Mas nem sempre foi assim. A história da evolução da culinária no país é muito interessante e está contada no ótimo livro ‘An Economist gets Lunch’, de Tyler Cowen. O autor dá ainda grandes dicas de como encontrar boa comida (boa comida não é sinônimo de comida cara) e explica por que muitas vezes come-se melhor num restaurante ‘pé sujo’ do que num badalado. Isso vale para qualquer país! Se você lê em inglês e se interessa pelo assunto, fica aqui a sugestão.

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E por falar em comfort food…

Meatloaf é o exemplo perfeito de comfort food para os americanos. Parece com nosso bolo de carne, mas não é recheado. Os temperos também são diferentes dos que vão na versão brasileira. Aqui vai uma receita bem gostosa e fácil de fazer do site ‘simplyrecipes.com’ . Se quiser dar uma olhada na receita original é só visitá-lo. O site traz outros pratos deliciosos e fotos de dar água na boca.

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Tempo de preparo: 20 minutos; tempo de cozimento: 1 hora (+ 10 minutos)

Serve: 4 a 6

Ingredientes

2 colheres (sopa) de manteiga sem sal

1 xícara de cebola, bem picada

1 talo de aipo, bem picado

1 cenoura, bem picada

½ xícara de cebolinha, parte branca e verde, bem picada

3 dentes de alho, amassados

2 colheres (chá) de sal

½ colher (chá) de pimenta-do-reino

2 colheres (chá) de Molho Inglês (Worcestershire sauce)

2/3 xícara de Ketchup, divididos em 1/3 e 1/3

700g de carne moída

350g de linguiça italiana (apimentada ou sem pimenta) ou carne de porco moída*

1 xícara de farinha de pão (bata duas fatias de pão de forma até obter uma farinha grosseira)

2 ovos grandes, levemente batidos

1/3 xícara de salsinha, picada

* A linguiça italiana dá um gostinho especial à receita. Se preferir usar carne de porco moída ou mesmo linguiça de porco comum, acrescente ½ colher (chá) de sementes de erva-doce amassadas, ½ colher de ervas secas (como tomilho, orégano e/ou alecrim) e umas gotas de pimenta vermelha.

Preparo:

Aqueça o formo a 180°C.

Em uma panela grande, leve a manteiga ao fogo médio. Assim que derreter, acrescente a cebola, o aipo, a cenoura, a cebolinha e o alho e frite por cerca de 5 minutos. Cubra a panela e frite por mais alguns minutos, mexendo de vez em quando, até que os legumes estejam macios. Tempere com o sal e a pimenta e adicione o Molho Inglês e 1/3 xícara de Ketchup. Cozinhe por mais um minuto e retire do fogo.

Quando os legumes tiverem esfriado um pouco, coloque-os em uma tigela grande e junte a carne moída, a linguiça sem a pele, os ovos, a farinha de pão e a salsa. Mexa bem com as mãos até que tudo esteja bem misturado.

Unte uma assadeira de pão ou de bolo inglês (cerca de 25cm x 10cm, com 7cm de altura) e coloque ali a mistura da carne. Pressione até ficar uniforme. Se não tiver uma assadeira própria, molde o bolo de carne com as mãos e coloque-o em uma assadeira ou pirex. Espalhe o restante do Ketchup por cima da carne e cubra com papel alumínio.

Leve-o ao forno por cerca de uma hora ou até que esteja assado (retire o papel alumínio depois de 30 minutos). Deixe descansar por 10 minutos e sirva.

Se sobrar, o meatloaf fica ótimo em sanduíches no dia seguinte! É só conservá-lo na geladeira e esquentá-lo de novo quando for usar.

Un sombrero rojo, pero no mucho

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“Será que este vai funcionar?”, pensei de manhã, ao lambuzar o rosto com o mais recente creme antirrugas que promete resultados em três meses. Mas daqui a três meses não vou estar três meses mais velha? Isso tem jeito de batalha perdida… É melhor ir à luta, por via das dúvidas, e usar todas as armas disponíveis: sérum com tensor, creme para a região dos olhos, creme para a região do pescoço, protetor solar… O arsenal conta ainda com preenchedor instantâneo de rugas (cujo efeito, posso quase jurar, também desaparece instantaneamente), base corretiva, e por aí vai. Complicada essa faixa dos quarenta e tantos anos…

Enquanto observo minha imagem e vejo as mudanças que os anos têm trazido, penso naquelas que não são visíveis, mas que são ainda mais importantes. A juventude nos dá todas as possibilidades ou, pelo menos, a ilusão de que temos todas as possibilidades. O tempo passa e realiza algumas delas; outras, não. Às vezes, muda o rumo completamente. O que não quer dizer que seja para pior. A sociedade nos cobra algumas coisas, mas as cobranças que nos aporrinham mais são as internas. Tenho me dado conta de que tá aí uma coisa boa que a idade traz: a gente começa a fazer ouvidos moucos a essas cobranças, venham de fora ou de dentro. Aliás, na minha opinião (e opinião, por definição, é uma coisa muito pessoal), envelhecer é libertador, pelo menos quando aceitamos que estamos envelhecendo e que o processo não tem volta. A gente passa a ‘não ter que’ mais nada. Aleluia! Que leveza!

Minha mãe sempre diz que cada idade tem sua beleza. Minha mãe é uma otimista, mas ela tem razão. Foi ela que me mandou, tempos atrás, aquela bonita mensagem chamada ‘El sombrero rojo’. A mensagem descreve o olhar feminino diante do espelho: aos dois anos, a menina vê uma rainha; aos oito, uma princesa; aos vinte, ela se acha gordinha e feiosa… e assim vai. Aos setenta anos, a senhora não se importa tanto com o que vê e, aos oitenta, nem olha mais para o espelho: veste um chapéu vermelho e sai para se divertir. Que maravilha deve ser não dar muita bola para o espelho nem para o que pensa a patota!

A mensagem ‘El sombrero rojo’ me lembra dois grupos bem diversos de mulheres que vi num restaurante outro dia. O primeiro era formado por cerca de quinze jovens que deviam ter pouco menos de trinta anos. Estavam todas produzidíssimas, maquiadíssimas, de salto altíssimo. Tudo assim, no superlativo, como a idade permite. Vira e mexe, ajeitavam o cabelo ou puxavam a saia curtíssima para baixo. O segundo grupo também era numeroso. Dele faziam parte várias mulheres de sessenta e poucos anos. Estavam todas bem arrumadas, mas sem exageros. As senhoras pareciam entretidas com o cardápio e se empenhavam em escolher um belo vinho e conversar com as amigas do lado e da frente. Os interesses e as prioridades mudam com o passar dos anos, disso ninguém tem dúvida. Mas, de qualquer jeito, ambos os grupos pareciam estar se divertindo, cada um à sua maneira. Enquanto as jovens transmitiam muita vitalidade e energia, as senhoras deixavam transparecer uma tranquilidade e uma segurança encantadoras de quem se sente muito bem na própria pele, mesmo essa não sendo mais lisinha. Admirei os dois grupos e me senti meio no limbo. É estranho, não, quando a gente não tá lá nem cá, quando não temos mais o frescor e as aspirações da juventude nem temos ainda a serenidade e a sabedoria que a maturidade (espera-se) traz. É claro que serenidade e sabedoria não chegam do nada. Vêm de muitas coisas vividas, um bom tanto delas tristes, difíceis e desagradáveis. Acho que deve ser assim que a gente passa a escolher em que deve realmente usar nossa energia, já que a temos em menor quantidade que antes. Vai ficando mais claro com o que vale a pena a gente se importar.

E como o cérebro da gente trabalha por associações, acabo de me lembrar de um outro episódio. Não faz muito tempo, numa cafeteria que costumo frequentar aqui em São Francisco, vi entrar um casal de idade bastante avançada, de braços dados. O senhor, bem curvadinho e de cabelo bem branquinho, apoiou sua bengala na parede e se sentou enquanto a senhora foi ao balcão fazer o pedido. Tomaram seu café e ficaram ali um pouco. Na hora de irem embora, a senhora se levantou, se pôs na frente do companheiro e lhe estendeu as mãos. O senhor as segurou e tentou se levantar. Foram três tentativas até conseguir. Sentada na mesa ao lado deles, eu me peguei dizendo em pensamento: upa-lá-lá. O senhor pegou sua bengala, eles se deram os braços e saíram, caminhando devagarinho.

E assim a vida passa, com suas belezas e seus perrengues. Eu não sei até onde vou chegar. Mas quero fazer um pacto com a idade, supondo que eu siga vivendo ainda uns bons anos: eu a aceito, e ela chega gentilmente. Vou passar todos os creminhos de última geração que eu conseguir – e vou agradecer aos céus se minhas preocupações forem as rugas, porque, na escala do que é de fato relevante, que importância elas têm, não? Vou procurar aprender tudo o que eu puder e tentar nunca tomar nada por garantido. Espero não perder a capacidade de me surpreender nem de me encantar. Deus me livre de ficar muito ranzinza e cheia de manias! E, embora a gente vá perdendo um pouco as ilusões, se não for pedir muito, gostaria de sempre ter com que sonhar (a vida fica muito sem graça sem um mínimo de ilusão).

Como ainda não estou pronta para vestir um chapéu vermelho, vou agora mesmo providenciar um fedora bem bonitinho e fazer a transição aos poucos. Espero chegar lá! E espero que com saúde. Espero também que, anos à frente, minhas amigas e eu possamos nos reunir de vez em quando em volta de uma grande mesa num restaurante bacaninha para compartilharmos nossas histórias. Bebericando um bom vinho, sem dúvida. E, se der para esticar os anos ainda um pouco mais, que eu tenha alguém querido a quem dar o braço na hora de passear – para que o mais forte de nós dê um upa-lá-lá ao outro, se precisar.

E por falar em amigas…

Deixo aqui um grande beijo a todas as minhas, que estão espalhadas pelos quatro cantos.

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