Dicas para assar bolos mais fofos

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No meu post anterior, prometi compartilhar com vocês minhas receitas de bolos preferidas*. Antes de mais nada, achei que seria bacana passar algumas dicas para que eles cresçam bem fofinhos e sem embatumar. Se você é boleira ou boleiro tarimbado, já sabe de tudo isso! Senão, aqui vão elas:

-Use sempre ingredientes em temperatura ambiente. Num dia de calor, basta tirar os ovos, a manteiga e o leite (se for usar) da geladeira cerca de 30 minutos antes de começar. No inverno, tire-os com algumas horas de antecedência. Quando a manteiga estiver bem macia, é sinal de que está no ponto.

-A não ser que a receita diga algo diferente, peneire os ingredientes secos numa mesma tigela, como a farinha, o fermento em pó, o sal, o chocolate em pó (se for o caso). Isso ajuda a evitar que empelotem e, mais importante, areja-os.

-Se a receita pede manteiga, normalmente você vai batê-la junto com o açúcar até obter um creme. Nesta etapa, é bom bater vigorosamente. A batedeira é uma mão na roda aqui porque ajuda a massa a ficar bem homogênea e a criar as minúsculas partículas de ar que vão ajudar o bolo a crescer.

-Quando for acrescentar os ovos, inclua um a um, batendo bem entre uma adição e outra.

-É hora de juntar a farinha com o fermento? Então, desligue a batedeira e mexa com uma espátula, delicadamente. Vá ‘dobrando’ a massa de fora para dentro, até que os ingredientes estejam bem misturados. Mexer demais, nesta fase, é arriscado: o bolo pode ficar pesado.

-Se a receita levar um líquido (como leite, por exemplo), alterne-o com a farinha. Isto é, despeje um pouco de farinha no creme de ovos e açúcar, adicione um pouco do líquido, mexa. Repita algumas vezes até que tudo esteja incorporado. Não junte toda a farinha e todo o líquido de uma vez, senão, você vai precisar mexer muito e é isso que a gente quer evitar.

-A temperatura ideal do forno é a de 180 graus. Mas, se seu forno for ventilado, diminua para 170 graus. Se a receita for pequena, aqueça o forno a 170 graus (160 graus, se o forno for ventilado).

-Se possível, coloque a assadeira na grelha do meio. Assim, o ar circula por todo o bolo e ele assa por igual.

-Deixe sempre o bolo esfriar antes de tentar desenformá-lo.

-Se você acha que vai assar bolos com uma certa frequência, vale a pena investir numa balança de cozinha. Há muitas bem simples e acessíveis. Nas receitas que eu compartilhar, vou procurar colocar as medidas em gramas e em xícaras e/ou colheres, mas a balança é sempre mais precisa.

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Uma observação: não há muito como escapar: bolos levam açúcar, farinha e alguma espécie de gordura (geralmente óleo ou manteiga), três ingredientes considerados vilões da culinária (ainda bem que o ovo foi absolvido!). Obviamente, existem bolos que não pedem farinha, e há como adoçá-los com mel, xarope de ácer ou bordo (maple syrup), tâmaras, açúcar mascavo… Às vezes também podemos substituir a farinha branca por uma integral ou de coco, etc. Mas não é tão simples assim fazer substituições. A gente pode mudar uma coisinha ou outra sem alterar o resultado (é o que tenho feito), mas é preciso cautela. Para fazer o bolo de chocolate cuja receita postei aqui, resolvi trocar o óleo vegetal por óleo de coco, mas precisei adaptar a quantidade para que ficasse equivalente. Resumindo, quero comer bolos mais saudáveis também, mas, enquanto não encontro uns que me convençam, vou continuar a assar bolos como os que minha mãe e minha avó faziam – e a apreciá-los com moderação. Você vem comigo nessa?

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*As receitas que eu compartilho no blogue são de domínio comum, sua autoria se perdeu no tempo. Ou, então, eu as adaptei. No caso de alguma receita original, citarei a autoria.

Sobre excessos, carências e chocolates

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Paris tem “chocolateries” fantásticas, e algumas delas ainda fazem tudo “Maison”, da torrefação ao produto final. Visitá-las é um agrado a vários dos nossos sentidos. Hoje entrei numa e saí com um saquinho contendo pequeninos chocolates que eu trouxe para casa. Eles não são baratos. Mas isso é porque utilizam os melhores ingredientes, são feitos meticulosamente e exigem cuidados no armazenamento, já que chocolate não gosta de frio nem de calor. Normalmente esses quadradinhos ou bolinhas têm uma casquinha por fora que protege seu recheio. Quanto mais fina for essa casquinha, melhor é a sua qualidade. Os chocolates artesanais daqui parecem obras de arte em miniatura. Devem ser tratados com respeito. Nem se os preços não fossem proibitivos nós os deveríamos tratar com menos reverência. Não se devora um chocolatinho desses: a gente aprecia cada minúscula mordida da pequena maravilha. Há quem prefira enfiá-los inteiros na boca e saborear a explosão de sensações de uma vez. Também é válido, desde que se ponha atenção no que se está fazendo. A gente não come um chocolatinho desses assim, às pressas, vendo uma cena de suspense na TV ou andando da cozinha para a sala… Eles não são muito doces, por isso, podem não agradar a quem prefere barras e bombons mais açucarados. Costumam ser ou intensos ou delicados. Às vezes, são intensos e delicados ao mesmo tempo, por mais que essas qualidades pareçam incompatíveis. Portanto, não é só pelo preço que não os comemos aos montes. É que basta um mesmo. Ou dois…

A gente não precisa de muita coisa para ser feliz. E isso, embora verdade, é um danado de um clichê. Então, vou colocar de outro jeito: nada em excesso faz bem. Nem mesmo as coisas boas. Bem, essa é a minha opinião… O que varia, acho eu, é o que a gente considera excesso. Cada um tem um limite diferente. Veja bem, a terceira (ou quarta, ou quinta… quantifique como preferir) latinha de cerveja ou taça de vinho possivelmente vai resultar em enxaqueca ou ressaca – física ou moral -, e aquela xícara extra de café pode atrapalhar o sono dos mais sensíveis à cafeína. Acompanhar o que está acontecendo no mundo é essencial, mas assistir a noticiários indiscriminadamente deprime.  Um pouco de raiva pode ser positivo, porque nos impulsiona a fazer alguma coisa. No entanto, muita raiva causa estragos às vezes irremediáveis, a gente sabe. Até amor em demasia faz mal, já que o amor que a gente sente não costuma ter lá muito de sublime, não? Ele geralmente vem temperado de egoísmo, ciúmes, superproteção, sentimento de posse, controle… Vai dizer que muito disso é bom?

E tem outra, será que porque a gente pode, a gente deve? Aquela coisa que é tão sensacional, se feita, consumida, usada, comprada (preencha aqui com o verbo que quiser) com muita frequência, vai acabar virando banal e perdendo a graça. É uma pena quando o encanto acaba. Por isso, não quero comer esses chocolatinhos especiais todos os dias. Também não quero tomar banho de banheira todos os dias (o meio ambiente agradece), mesmo tendo a grande sorte de ter uma banheira no meu apartamento alugado. Um banho de banheira, quando a gente mora num país onde faz muito frio, equivale a um banho de piscina ou de mar no verão brasileiro. É uma bênção! Olha só, não quero nem papear com minhas amigas todos os dias. Espera, que explico: quero vê-las com muita frequência, claro, mas não todos os dias. Porque é uma delícia sentir um pouquinho de saudade e ter o que contar quando a gente se encontra. A espera também é um prazer porque a gente já curte por antecedência o que vai vir. A gente curte duas vezes.

É claro que o oposto de excesso também não é nada legal. Carência é péssimo, privação é chato. Quem é que adora um regime ou quando acaba a água? Gostaria de estar com meus pais e irmãos mais vezes, porque os visito muito pouco. Isso me faz muita falta. Meu filho adolescente logo vai para a universidade e vai morar bem longe. Queria poder continuar a vê-lo todos os dias, mesmo que só por alguns minutos. Mas o que para mim é uma necessidade básica para ele certamente é exagero. É aquela história que eu disse acima, de cada um ter um limite diferente.

Acho que o negócio é não pecar por um lado nem por outro. O melhor mesmo é a gente aproveitar os pequenos prazeres, cuidando para que continuem a ser pequenos prazeres. Hoje vou me deliciar com meus chocolatinhos da “chocolaterie” bacana e já sei que vai ser assim, porque sempre é: o primeiro que eu provar vai ser divino, o segundo vai ser bom e, se eu não parar, o terceiro não vai me dar, nem de longe, tanta satisfação quanto o primeiro. Melhor deixá-lo para amanhã. Isso vale para um monte de outras coisas. Ou será que estou enganada?

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Un sombrero rojo, pero no mucho

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“Será que este vai funcionar?”, pensei de manhã, ao lambuzar o rosto com o mais recente creme antirrugas que promete resultados em três meses. Mas daqui a três meses não vou estar três meses mais velha? Isso tem jeito de batalha perdida… É melhor ir à luta, por via das dúvidas, e usar todas as armas disponíveis: sérum com tensor, creme para a região dos olhos, creme para a região do pescoço, protetor solar… O arsenal conta ainda com preenchedor instantâneo de rugas (cujo efeito, posso quase jurar, também desaparece instantaneamente), base corretiva, e por aí vai. Complicada essa faixa dos quarenta e tantos anos…

Enquanto observo minha imagem e vejo as mudanças que os anos têm trazido, penso naquelas que não são visíveis, mas que são ainda mais importantes. A juventude nos dá todas as possibilidades ou, pelo menos, a ilusão de que temos todas as possibilidades. O tempo passa e realiza algumas delas; outras, não. Às vezes, muda o rumo completamente. O que não quer dizer que seja para pior. A sociedade nos cobra algumas coisas, mas as cobranças que nos aporrinham mais são as internas. Tenho me dado conta de que tá aí uma coisa boa que a idade traz: a gente começa a fazer ouvidos moucos a essas cobranças, venham de fora ou de dentro. Aliás, na minha opinião (e opinião, por definição, é uma coisa muito pessoal), envelhecer é libertador, pelo menos quando aceitamos que estamos envelhecendo e que o processo não tem volta. A gente passa a ‘não ter que’ mais nada. Aleluia! Que leveza!

Minha mãe sempre diz que cada idade tem sua beleza. Minha mãe é uma otimista, mas ela tem razão. Foi ela que me mandou, tempos atrás, aquela bonita mensagem chamada ‘El sombrero rojo’. A mensagem descreve o olhar feminino diante do espelho: aos dois anos, a menina vê uma rainha; aos oito, uma princesa; aos vinte, ela se acha gordinha e feiosa… e assim vai. Aos setenta anos, a senhora não se importa tanto com o que vê e, aos oitenta, nem olha mais para o espelho: veste um chapéu vermelho e sai para se divertir. Que maravilha deve ser não dar muita bola para o espelho nem para o que pensa a patota!

A mensagem ‘El sombrero rojo’ me lembra dois grupos bem diversos de mulheres que vi num restaurante outro dia. O primeiro era formado por cerca de quinze jovens que deviam ter pouco menos de trinta anos. Estavam todas produzidíssimas, maquiadíssimas, de salto altíssimo. Tudo assim, no superlativo, como a idade permite. Vira e mexe, ajeitavam o cabelo ou puxavam a saia curtíssima para baixo. O segundo grupo também era numeroso. Dele faziam parte várias mulheres de sessenta e poucos anos. Estavam todas bem arrumadas, mas sem exageros. As senhoras pareciam entretidas com o cardápio e se empenhavam em escolher um belo vinho e conversar com as amigas do lado e da frente. Os interesses e as prioridades mudam com o passar dos anos, disso ninguém tem dúvida. Mas, de qualquer jeito, ambos os grupos pareciam estar se divertindo, cada um à sua maneira. Enquanto as jovens transmitiam muita vitalidade e energia, as senhoras deixavam transparecer uma tranquilidade e uma segurança encantadoras de quem se sente muito bem na própria pele, mesmo essa não sendo mais lisinha. Admirei os dois grupos e me senti meio no limbo. É estranho, não, quando a gente não tá lá nem cá, quando não temos mais o frescor e as aspirações da juventude nem temos ainda a serenidade e a sabedoria que a maturidade (espera-se) traz. É claro que serenidade e sabedoria não chegam do nada. Vêm de muitas coisas vividas, um bom tanto delas tristes, difíceis e desagradáveis. Acho que deve ser assim que a gente passa a escolher em que deve realmente usar nossa energia, já que a temos em menor quantidade que antes. Vai ficando mais claro com o que vale a pena a gente se importar.

E como o cérebro da gente trabalha por associações, acabo de me lembrar de um outro episódio. Não faz muito tempo, numa cafeteria que costumo frequentar aqui em São Francisco, vi entrar um casal de idade bastante avançada, de braços dados. O senhor, bem curvadinho e de cabelo bem branquinho, apoiou sua bengala na parede e se sentou enquanto a senhora foi ao balcão fazer o pedido. Tomaram seu café e ficaram ali um pouco. Na hora de irem embora, a senhora se levantou, se pôs na frente do companheiro e lhe estendeu as mãos. O senhor as segurou e tentou se levantar. Foram três tentativas até conseguir. Sentada na mesa ao lado deles, eu me peguei dizendo em pensamento: upa-lá-lá. O senhor pegou sua bengala, eles se deram os braços e saíram, caminhando devagarinho.

E assim a vida passa, com suas belezas e seus perrengues. Eu não sei até onde vou chegar. Mas quero fazer um pacto com a idade, supondo que eu siga vivendo ainda uns bons anos: eu a aceito, e ela chega gentilmente. Vou passar todos os creminhos de última geração que eu conseguir – e vou agradecer aos céus se minhas preocupações forem as rugas, porque, na escala do que é de fato relevante, que importância elas têm, não? Vou procurar aprender tudo o que eu puder e tentar nunca tomar nada por garantido. Espero não perder a capacidade de me surpreender nem de me encantar. Deus me livre de ficar muito ranzinza e cheia de manias! E, embora a gente vá perdendo um pouco as ilusões, se não for pedir muito, gostaria de sempre ter com que sonhar (a vida fica muito sem graça sem um mínimo de ilusão).

Como ainda não estou pronta para vestir um chapéu vermelho, vou agora mesmo providenciar um fedora bem bonitinho e fazer a transição aos poucos. Espero chegar lá! E espero que com saúde. Espero também que, anos à frente, minhas amigas e eu possamos nos reunir de vez em quando em volta de uma grande mesa num restaurante bacaninha para compartilharmos nossas histórias. Bebericando um bom vinho, sem dúvida. E, se der para esticar os anos ainda um pouco mais, que eu tenha alguém querido a quem dar o braço na hora de passear – para que o mais forte de nós dê um upa-lá-lá ao outro, se precisar.

E por falar em amigas…

Deixo aqui um grande beijo a todas as minhas, que estão espalhadas pelos quatro cantos.

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