Chinatown – Um breve passeio pelos bairros de São Francisco

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Chinatown de São Francisco é a comunidade chinesa mais antiga do país. Sua história se confunde com a da cidade, que teve início no final da primeira metade do século XIX. O que é hoje São Francisco não passava de um vilarejo no meio do qual alguém havia enfiado uma bandeira americana. Portsmouth Square se chamava a praça ao redor da qual havia algumas cabanas, uma ou outra construção de pedras ou tijolos, algum comércio precário e pouca coisa mais. Com a descoberta de ouro na Califórnia em 1848, a população do lugar cresceu de mil para mais de 25 mil habitantes em apenas um ano. Muitos desses recém-chegados eram chineses.

A notícia da descoberta de ouro nas terras distantes da ‘Golden Mountain’ (EUA) chegou à China quando o país estava muito mal. Os chineses haviam acabado de ser derrotados pelos britânicos na Primeira Guerra do Ópio e, ainda por cima, uma série de catástrofes naturais castigava a população. As consequências disso tudo foram devastadoras. Muitos chineses deixaram seu país em busca de melhores dias e vieram procurar trabalho nas minas e nas ferrovias do oeste americano. Foram recebidos com desconfiança. Nos anos seguintes, a construção das ferrovias terminou e, ao mesmo tempo, os EUA entraram em depressão econômica. Os chineses continuavam chegando aos montes e começaram a ser vistos com maus olhos porque competiam por trabalho com os americanos. Discriminados e submetidos a uma legislação para lá de repressora, eles passaram por maus pedaços… Sem trabalho e proibidos de atuar em vários setores, centenas de chineses se instalaram em cortiços de madeira nas proximidades de Portsmouth Square, que agora já era uma região com residências, hotéis, escritórios, restaurantes, bordéis e casas de jogos. Começaram a se dedicar à agricultura e à pecuária, a fazer serviços domésticos nas casas dos americanos e a trabalhar em restaurantes. Montaram muitas e muitas lavanderias. Aquela área logo ficou conhecida como “Little Canton” e, mais tarde, como “Chinatown”. O lugar ficou colorido e barulhento, cheio de lanternas típicas, placas em dialetos diversos, templos, herbários, um teatro, mercadinhos e muita gente.

Durante as décadas seguintes, a imigração de chineses foi controlada rigorosamente. Só entrava um número restrito de homens; mulheres e crianças voltavam para trás. As coisas começaram a mudar quando, com o ataque do Japão a Pearl Harbor em dezembro de 1941, os chineses se aliaram aos americanos e lutaram com eles lado a lado contra os japoneses, usando o mesmo uniforme e carregando a mesma bandeira. A partir daí, caíram nas graças dos americanos (bem, mais ou menos) e passaram a poder adquirir cidadania americana e a ter direitos antes negados, como trazer a família da China, trabalhar em diversos setores, votar, possuir propriedade fora de Chinatown, etc.

O tempo passou e muita coisa mudou desde então. Hoje Chinatown compreende uma área de pouco mais de vinte quarteirões em volta da mesma Portsmouth Square – uma praça feiosa onde frequentemente se veem idosos jogando xadrez chinês ou praticando Tai Chi. Fica no coração da cidade e faz fronteira com o bairro italiano North Beach e o Distrito Financeiro. Ali habitam mais de 80 mil chineses (descendentes e recém-chegados), muitos em condições precárias. É muita gente em pouco espaço. A maioria da população chinesa (e asiática, como um todo), no entanto, geralmente mais próspera, mora nos distritos de Richmond e Sunset.

Segundo o último Censo, um em cada cinco habitantes de São Francisco é chinês ou de descendência chinesa. Hoje, quem diria, o prefeito da cidade, Ed Lee, é sino-americano.

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E por falar em sino-americanos…

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Chop Suey, ao contrário do que se acredita, não é um prato chinês autêntico. Nasceu por acaso, em solo americano. Dizem que alguns marinheiros chegaram a Honolulu tarde da noite, famintos. Não encontraram nada aberto. Quando viram a luz ainda acesa em um pequeno restaurante, imploraram para o dono lhes dar qualquer coisa de comer. O proprietário, um senhor chinês, ficou com pena dos marinheiros e improvisou uma receita com as sobras do dia. O prato ficou uma delícia. Quando perguntaram o nome daquilo, o senhor respondeu: “chop suey”, que em cantonês quer dizer “coisas misturadas”.

Aqui vai uma receitinha bem simples e saborosa. Os ingredientes podem ser facilmente substituídos, se quiser.

Chop Suey

Ingredientes:

500g da carne de sua preferência (porco, vaca ou frango), em fatias finas

2 colheres (sopa) de óleo (um pouco mais, se necessário)

2 cenouras médias, cortadas em diagonal em fatias finas

1 talo de salsão, cortado em diagonal em fatias finas 2 xícaras de brotos de feijão (frescos ou enlatados)

1 xícara de cogumelos frescos fatiados 1 xícara de brotos de bambu (frescos ou enlatados)

3 cebolinhas, cortadas em diagonal em fatias grossas

3 xícaras de noodles ou arroz cozido

Para o molho:

½ xícara de caldo de galinha

3 colheres (sopa) de molho de soja (Shoyu)

4 colheres (chá) de amido de milho

1 colher (chá) de açúcar

Preparo:

Aqueça 1 colher de óleo em um wok ou uma frigideira grande. Frite as cenouras e o salsão em fogo algo, mexendo sempre, por cerca de dois minutos. Acrescente mais um pouco de óleo, se necessário, e adicione os brotos de feijão fresco (se estiver usando) e os cogumelos, os brotos de bambu e as cebolinhas. Frite, mexendo constantemente, por mais dois minutos ou até que os legumes estejam macios, porém ainda crocantes. Retire e reserve.

Aqueça a colher de óleo restante no wok ou frigideira e frite metade da carne. Mexa sempre até que esteja bem frita. Retire e reserve. Faça o mesmo com a outra metade da carne. Quando estiver frita, adicione o molho e mexa constantemente, até que ele ferva e engrosse. Junte os legumes e a carne que estavam reservados e os brotos de feijão enlatados (se estiver usando). Aqueça por um minuto e sirva sobre noodles ou arroz. Rende 4 porções.

Obs.: O segredo desse tipo de prato é cozinhar com pouco óleo,em fogo alto e rapidamente.

(Receita adaptada do livro: Wok Cuisine, Oriental to American – Better Homes and Gardens)

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P.S. A história da imigração chinesa é muito mais complexa e interessante do que poderia caber num post de blog. Aqui fica um resumo bem superficial, só para dar uma ideia. 🙂

Fontes:

San  Francisco Magazine – Special Issue: Culture, Politics, and the Rise of a Chinese-American Establishment

PBS – KQEDhttp://www.pbs.org/kqed/chinatown/resourceguide/story.html

Wikipedia

Comfort Food para todos os gostos

São Francisco é uma cidade de imigrantes e concentra inúmeras nacionalidades entre seus pouco mais de 850 milhões de habitantes. Essa diversidade toda naturalmente se reflete na culinária. Junte a isso o fato de que o país como um todo – e essa cidade em particular – é muito competitivo, e você tem uma quantidade enorme de bons a excelentes restaurantes das mais variadas partes do mundo (os ruinzinhos não sobrevivem por muito tempo – sites de opinião como Yelp e Zagat são implacáveis…).

Há poucos dias, fui com o Filho ao Westfield, um shopping center que fica no centro da cidade. Na hora que bateu a fome, fomos almoçar na praça da alimentação do shopping. Para nossa surpresa, recentemente abriram ali uma pequena churrascaria brasileira. Não dava para deixar escapar. Picanha aqui é coisa rara! Fizemos o pedido a dois funcionários que de brasileiros não tinham nada e que pareciam pouco familiarizados com aquilo que serviam (pedi umas gotinhas do óleo da pimenta e a mocinha me deu um copinho cheio de malaguetas). Já sentados, enquanto misturava o arroz com o feijão e a farinha, eu me peguei pensando em quão pouco atraente aquilo devia parecer aos olhos estrangeiros, e quão delicioso era. Será que esse pessoal aqui sabe como comer isso do jeito certo? Tinha que vir com instruções: misture tudo e bote umas gotinhas de pimenta por cima. Fica uma bagunça, mas é muito bom.

Comfort food é uma expressão traduzida normalmente como comida caseira. Mas é mais que isso, é a comida que nos leva de volta à infância, que nos traz aquele sentimento gostoso de que está tudo certo, de que tudo está bem. Vai além do sentido de comida caseira. Quando vi o Filho se deliciando com arroz, feijão e bife, foi nisso que pensei. Ele parecia ter voltado no tempo, à época em que eu ainda fazia arroz e feijão ou, então, à férias na casa da avó. No mesmo instante, um casal de coreanos se sentou do nosso lado. Eles mexiam com maestria os ingredientes das duas tigelas que haviam levado para a mesa. Eu não sabia o nome daquele prato coreano, muito menos o jeito certo de comê-lo, mas aquilo era evidentemente comfort food para eles. Na praça da alimentação do Westfield não há McDonald’s nem Pizza Hut. O que há é uma pequenina amostra da heterogeneidade que existe em São Francisco. Ali você encontra pouco mais de meia dúzia de restaurantes de diversas nacionalidades, mas, lá fora, as alternativas são incontáveis. A chance de agradar a um estrangeiro com saudades de casa é grande!

Obs.: Come-se bem em São Francisco hoje, assim como se come bem em Chicago, Nova Iorque e muitas outras cidades americanas. Mas nem sempre foi assim. A história da evolução da culinária no país é muito interessante e está contada no ótimo livro ‘An Economist gets Lunch’, de Tyler Cowen. O autor dá ainda grandes dicas de como encontrar boa comida (boa comida não é sinônimo de comida cara) e explica por que muitas vezes come-se melhor num restaurante ‘pé sujo’ do que num badalado. Isso vale para qualquer país! Se você lê em inglês e se interessa pelo assunto, fica aqui a sugestão.

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E por falar em comfort food…

Meatloaf é o exemplo perfeito de comfort food para os americanos. Parece com nosso bolo de carne, mas não é recheado. Os temperos também são diferentes dos que vão na versão brasileira. Aqui vai uma receita bem gostosa e fácil de fazer do site ‘simplyrecipes.com’ . Se quiser dar uma olhada na receita original é só visitá-lo. O site traz outros pratos deliciosos e fotos de dar água na boca.

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Tempo de preparo: 20 minutos; tempo de cozimento: 1 hora (+ 10 minutos)

Serve: 4 a 6

Ingredientes

2 colheres (sopa) de manteiga sem sal

1 xícara de cebola, bem picada

1 talo de aipo, bem picado

1 cenoura, bem picada

½ xícara de cebolinha, parte branca e verde, bem picada

3 dentes de alho, amassados

2 colheres (chá) de sal

½ colher (chá) de pimenta-do-reino

2 colheres (chá) de Molho Inglês (Worcestershire sauce)

2/3 xícara de Ketchup, divididos em 1/3 e 1/3

700g de carne moída

350g de linguiça italiana (apimentada ou sem pimenta) ou carne de porco moída*

1 xícara de farinha de pão (bata duas fatias de pão de forma até obter uma farinha grosseira)

2 ovos grandes, levemente batidos

1/3 xícara de salsinha, picada

* A linguiça italiana dá um gostinho especial à receita. Se preferir usar carne de porco moída ou mesmo linguiça de porco comum, acrescente ½ colher (chá) de sementes de erva-doce amassadas, ½ colher de ervas secas (como tomilho, orégano e/ou alecrim) e umas gotas de pimenta vermelha.

Preparo:

Aqueça o formo a 180°C.

Em uma panela grande, leve a manteiga ao fogo médio. Assim que derreter, acrescente a cebola, o aipo, a cenoura, a cebolinha e o alho e frite por cerca de 5 minutos. Cubra a panela e frite por mais alguns minutos, mexendo de vez em quando, até que os legumes estejam macios. Tempere com o sal e a pimenta e adicione o Molho Inglês e 1/3 xícara de Ketchup. Cozinhe por mais um minuto e retire do fogo.

Quando os legumes tiverem esfriado um pouco, coloque-os em uma tigela grande e junte a carne moída, a linguiça sem a pele, os ovos, a farinha de pão e a salsa. Mexa bem com as mãos até que tudo esteja bem misturado.

Unte uma assadeira de pão ou de bolo inglês (cerca de 25cm x 10cm, com 7cm de altura) e coloque ali a mistura da carne. Pressione até ficar uniforme. Se não tiver uma assadeira própria, molde o bolo de carne com as mãos e coloque-o em uma assadeira ou pirex. Espalhe o restante do Ketchup por cima da carne e cubra com papel alumínio.

Leve-o ao forno por cerca de uma hora ou até que esteja assado (retire o papel alumínio depois de 30 minutos). Deixe descansar por 10 minutos e sirva.

Se sobrar, o meatloaf fica ótimo em sanduíches no dia seguinte! É só conservá-lo na geladeira e esquentá-lo de novo quando for usar.

Panna cotta com frutas vermelhas

Ontem tivemos visitas aqui em casa. Alguns amigos americanos que conhecemos quando estávamos todos morando na Itália vieram passar umas horinhas conosco. Para comemorar o reencontro, preparei um jantar bem italiano. De sobremesa, fiz panna cotta.

Panna cotta significa creme de leite cozido e é uma sobremesa bem fácil de preparar. Não é muito doce e o que dá graça a ela é o caldo, ou coulis, que vai por cima. Há muitas variações de coulis, e aqui vai a receita de um muito tradicional:

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Ingredientes (8 pessoas):

Para a panna cotta:

600ml de creme de leite fresco integral (evite os de latinha)

100g de açúcar

1 fava de baunilha

3 folhas de gelatina

8 copos de plástico

Para o caldo de frutas vermelhas:

1 xícara de morangos

1 xícara de framboesa

1/2 colher (sopa) de suco de limão

2 colheres (sopa) de açúcar de confeiteiro

Preparo:

  • Amoleça a gelatina em uma tigela com água fria.
  • Em uma panela, misture o creme de leite, o açúcar e a fava de baunilha cortada no meio, no sentido de comprimento. Deixe ferver ligeiramente e desligue o fogo. Retire a fava de baunilha e raspe os grãos com a ponta de uma faca. Misture os grãos com o creme de leite e deixe repousar por cerca de 15 minutos, com a panela tampada.
  • Leve o creme de novo ao fogo e esquente-o ligeiramente. Desligue o fogo, Retire a gelatina da água e escorra bem. Acrescente a gelatina ao creme de leite e mexa bastante, até que ela esteja completamente dissolvida.
  •  Enxágue os copinhos de plástico em água fria. Retire o excesso de água, mas não os enxugue. Encha cerca de 1/3 de cada copinho com o creme e leve-os à geladeira por pelo menos 5 horas.*
  • Enquanto isso, faça o caldo. Bata 3/4 xícara de morangos e 3/4 xícara de framboesas, o suco de limão e o açúcar até obter um molho uniforme. Passe o molho por uma peneira grossa. Despeje o caldo em uma tigela, acrescente os morangos e as framboesas restantes e deixe marinar na geladeira por pelo menos duas horas.
  • Desenforme cuidadosamente a panna cotta e sirva acompanhada do caldo.

*Parece pouco, mas satisfaz. Acredite!

Se quiser dar um sabor mais tropical à panna cotta, faça um caldo de manga ou de maracujá da próxima vez. De goiabada com certeza ficará uma delícia também!

(Receita adaptada do livro Panna cotta, de Stéphanie Bulteau. Guido Tommasi Editore)

Gazpacho

Quase todas as culturas têm seu alimento básico, aquele com que seus habitantes contam como parte essencial de sua dieta. O ‘pão nosso de cada dia’ varia de país para país. Se no Brasil almoçamos e/ou jantamos arroz e feijão, na Itália é a massa – nos seus mais variados tamanhos e formatos – que aparece todos os dias na mesa das pessoas. Durante muito tempo, a batata foi a essência da alimentação irlandesa e, de certa forma, ainda é. Em muitos países asiáticos, o arroz ou os noodles fazem parte da refeição diária… E por aí vai.

E em Portugal, você sabe? Com certeza pensou em bacalhau! O peixe salgado pode ser o símbolo da cozinha portuguesa, mas o que entra em cena em pelo menos uma refeição diária na maioria dos lares lusitanos é… a sopa. Caldo Verde, Sopa da Pedra, Açorda Alentejana são apenas algumas das muitas variações existentes. Em Portugal, há até restaurantes que só servem sopa. Prática, nutritiva e deliciosa, ela é irresistível. Eu sei, com as temperaturas altíssimas no Brasil neste momento, ninguém está pensando em encarar um prato de caldo quente. Mas se ele for gelado, pode cair muito bem!

O Gazpacho é uma sopa fria bastante popular na Península Ibérica. A clássica sopa espanhola tem os seus ingredientes triturados, transformados em purê. Já na versão portuguesa, eles são apenas picados, e a receita ainda inclui orégano, azeitonas e, às vezes, ovos cozidos. Hoje, há muitas outros tipos de Gazpacho, até alguns que não levam seu ingrediente original, o tomate. Deixo aqui uma adaptação da receita andaluza, porque seu preparo é muito simples e não falha!

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Ingredientes:

5 tomates maduros grandes, sem pele e picados

2 fatias de pão de forma branco, sem casca

1 dente de alho, amassado

1 cebola pequena, picada

2-3 colheres (sopa) de azeite extra-virgem

2 colheres (sopa) de vinagre de vinho branco

2/3 xícara de suco de tomate

½ colher (chá) de páprica (opcional)

1 pitada de cominho em pó (opcional)

sal e pimenta-do-reino a gosto

 

Guarnição:

½ pimentão vermelho sem sementes, picado

½ pepino, sem casca e sem sementes, picado

pão frito, em cubinhos (croutons)

 

Preparo:

Coloque as fatias de pão em um prato fundo e cubra com um pouco de água fria. Deixe alguns minutos e, depois, desmanche-as com os dedos ou um garfo, retirando o excesso de água.

Em um liquidificador ou processador, bata os tomates, a cebola, o alho, o suco de tomate, o azeite, o vinagre, o pão e os temperos até conseguir a textura desejada (mais ou menos cremosa). Leve à geladeira por algumas horas.

Sirva o Gazpacho em tigelas ou pratos de sopas gelados. Enfeite com a guarnição e bom apetite! Rende quatro porções.

Obs.: O alho e a cebola crua dão um toque levemente picante à sopa. Ajuste-os ao seu gosto.

 

Roma

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Roma não foi amor à primeira vista. Eu tinha vinte e um anos a primeira vez que vi a cidade. Passei lá os últimos dias de uma viagem que fazia sozinha, com aquela coragem (ou seria imprudência?) que a gente ainda tem aos vinte e poucos anos. Assim como minha aventura, minha grana também estava no fim. Para completar, não entendia a língua, não conhecia ninguém ali, ainda precisava arranjar onde me alojar, e os hoteizinhos que cabiam no meu espremido orçamento pareciam estar todos lotados. A um certo ponto, cansada de tanto rodar em busca de uma pensione, resolvi parar a procura por um instante e tomar um sorvete para ver se o açúcar me reanimava. Entrei na sorveteria com minha mala, pedi em inglês o que eu queria, paguei e me sentei, pronta para repensar meus planos. Foi aí que o funcionário da sorveteria se aproximou e me disse: “Desculpe, signorina, mas sentada é mais caro.” Para não pagar a diferença, fui comer o meu sorvete na pracinha do lado e lá fiquei, tentando focar meus pensamentos no que me preocupava no momento, enquanto carros, vespas, táxis, ônibus de turistas, bicicletas e pedestres disputavam a rua da frente e a minha atenção. Definitivamente, não me apaixonei pela cidade de imediato.

Horas depois, consegui me instalar numa pensãozinha. Ao dar uma olhada no banheiro que teria que dividir com os outros hóspedes, decidi que passaria os próximos dias sem tomar banho, já que ele parecia mais sujo que eu. Deixei meus pertences no quarto e saí para explorar o lugar, com mapa e câmera nas mãos.

Nos dias seguintes, fiz todos os passeios que meu livro-guia indicava: visitei o Coliseu, o Pantheon, a Fontana di Trevi, o Fórum Romano, a Piazza Navona e até algumas catacumbas. Comi o primeiro Spaghetti alla Carbonara da minha vida, escolhido ao acaso, e gostei tanto que quis repetir no dia seguinte. E, no dia seguinte, como não entendia o que dizia o cardápio nem me lembrava como se chamava a massa deliciosa do dia anterior, pedi o único prato da lista que parecia levar ovos – e tomei um susto quando o garçom me trouxe uma sopa com um ovo pochê por cima. Mais uma frustração e mais um mico para contar para os amigos na volta.

Com muita convicção, ao passar pela Fontana di Trevi, não joguei uma moedinha. Soltei até um desaforo: “Aqui eu não volto de jeito nenhum!” Para minha sorte, o Netuno da ponte mais famosa do mundo fez ouvidos moucos, e eu voltei umas tantas vezes. Põe sorte nisso…

É aí que está a magia de Roma: depois de fazer todos aqueles programas obrigatórios (e maravilhosos) que todo turista que visita o lugar pela primeira vez precisa fazer, ficamos livres para explorar o restante da cidade, que é absurdamente caótica e absolutamente fantástica, e olhar para ela com olhos diferentes.

Roma é cheia de ruazinhas estreitas, de praças e fontes, de pequenos cafés e restaurantes meio escondidos, de igrejas lindas e menos conhecidas, de lojinhas únicas, como aquela que só vende papel de embrulhar presentes, ou aquela outra que só vende chapéus, ou aquela ainda que só vende luvas. É uma delícia se perder na cidade, andar muito e descobrir tesouros menos óbvios. Então a gente se esquece que aquilo ali é a Roma de Rômulo e Remo, dos Césares, a antiga capital do mundo. Até dobrarmos uma esquina e, inesperadamente, darmos de cara com o Coliseu.

Roma não foi amor à primeira vista. A cidade foi me conquistando aos poucos. No segundo encontro, ela me encantou. No terceiro, eu já estava fisgada. Aí, como já deu para adivinhar, não teve jeito: virou amor eterno.

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 E por falar em Roma…

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Um dos pratos mais típicos da cidade chama-se ‘Spaghetti Cacio e Pepe’ (espaguete com queijo e pimenta). Apesar de muito difundido em Roma, sua origem, na verdade, é antiga e incerta. Muitos dizem que ele nasceu na região do Lazio, onde fica Roma. Outros afirmam que ele surgiu na cidade de Nápoles ou mesmo na região de Abruzzo. Com somente três ingredientes, era a comida dos pastores, devido a seu baixo custo, sua praticidade e seu valor nutritivo. Os pastores saíam para trabalhar e levavam consigo um pedaço de Pecorino (queijo de ovelha), um punhado de espaguete e um bom tanto de pimenta preta triturada – que gerava calor e ajudava a suportar as noites frias de lá.

Tempos depois, apareceram variantes como o ‘Spaghetti alla Carbonara’, por exemplo, que leva ovos e pancetta ou guanciale (bacon feito com as bochechas do porco), entre outras.

Contudo, é justamente a simplicidade do ‘Spaghetti Cacio e Pepe’ que faz com que seu preparo seja cheio de cuidados: a massa deve estar al dente e o prato deve chegar à mesa quentíssimo. E, levando só três ingredientes, estes precisam ser da melhor qualidade.

Ingredientes (para 4 pessoas):

400g de espaguete

cerca de duas xícaras de queijo Pecorino Romano ralado na hora

Abundante pimenta preta ralada na hora

Preparo:

Leve uma panela com água e um pouco de sal ao fogo. Quando ferver, acrescente o espaguete e mexa durante os primeiros minutos para que não grude. Cozinhe-o de acordo com as instruções da embalagem, tomando cuidado para não cozinhar demais. Escorra a massa, reservando algumas conchas da água.

Leve o espaguete de volta à panela e acrescente um pouco da água reservada (comece com uma concha). Adicione mais ou menos 2/3 do queijo e mexa bastante, até que o queijo e a água tenham ficado com uma consistência cremosa. Se vir que há água no fundo, adicione queijo. Se, ao contrário, a massa estiver muito seca, coloque um pouco mais de água. Por fim, acrescente bastante pimenta. O processo deve ser bem rápido, para não esfriar a massa. Sirva em pratos aquecidos.

Observações:

  1. Na Itália, massa é servida como primo piatto, então as porções são pequenas. A quantidade acima pode não ser suficientes para quatro pessoas famintas, se for servida como prato único.
  2. Conseguir uma textura cremosa às vezes é mais complicado do que parece. Se não der na primeira vez, tente de novo outra hora: ne vale la pena!

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Facciamoci un aperitivo?

Dizem que o médico grego Hipócrates, há quase dois milênios e meio, prescrevia gotas de seu Vinum Hippocraticum aos pacientes que não tinham fome. Uma espécie de vinho branco misturado com losna e arruda, a poção era bastante amarga. Podemos imaginála sendo engolida de uma só vez e provocando uma grande careta…

Mais tarde, os romanos acrescentaram ervas aromáticas à mistura com o intuito de torná-la mais prazerosa. Sua função continuava a mesma: a de abrir o apetite, e ela passou, então, a ser conhecida como ‘aperitivo’, que vem do latim aperire (abrir).

Com o tempo e a influência de outros povos, a bebida continuou se transformando e se popularizando.

Muitos séculos depois, em Turim, foi criado o Vermouth. Tendo objetivo semelhante, mas paladar bem mais agradável, a novidade caiu nas graças do rei Vittorio Emanuele II e virou o aperitivo oficial da corte. E, assim, a combinação de vinho, ervas e especiarias que prepara o estômago antes das refeições virou mania em toda a Itália e é bastante apreciada especialmente no norte do país. O conceito ampliou-se ao longo dos anos e hoje inclui diversas outras bebidas alcoólicas e não alcoólicas que vão desde vinho, cerveja e coquetéis, como o Negroni e o Bellini, até sucos de frutas e refrigerantes.

O hábito delicioso de ir ao bar com amigos antes do jantar não deve ser confundido com nosso happy hour: os aperitivos na Itália não ficam mais baratos por causa do horário. Ao contrário, geralmente os preços aumentam consideravelmente entre as 18h e as 21h. O que os torna tão atraentes (e mais caros) é que os bares e restaurantes servem antepastos com a bebida. Pelo preço dela, você come e bebe. As comidinhas vão desde simples batatinhas e azeitonas, até elaboradas pizzette, bruschette, focacce e grissini, massas, verduras grelhadas ou mesmo fatias de queijo, salame e presunto cru. Os antepastos variam bastante de região para região. Vale a pena pesquisar quais são os bares mais populares entre os italianos e evitar os muito turísticos.

Muitas vezes, as porções são trazidas até a mesa; se quiser mais uma porção, terá que pedir mais uma bebida. Outras vezes, há um bufê do qual você se serve. Você pode voltar ao bufê várias vezes, mas é sempre bom usar o bom senso: se pretende continuar comendo, é melhor pedir mais uma bebida. A ideia original, no entanto, deve continuar valendo: a de preparar o estômago e não a de substituir a refeição.

Os italianos fazem um aperitivo no bar e depois ou vão jantar em casa ou seguem com os amigos para algum restaurante onde, invariavelmente, o assunto girará em volta daquilo que estiverem comendo. É um prazer que leva a outro, mas tudo em doses moderadas. Dificilmente veremos alguém se excedendo na bebida ou na comida. Não parece que eles sabem muito bem o que fazem?

(Fontes: Bar Business; http://www.bergamoparty.it)

 E por falar em aperitivos…

  De cor alaranjada e sabor levemente amargo, o Aperol é uma bebida originária de Pádua e lembra um pouco o Campari (ambos são feitos pelo Gruppo Campari). Porém, tem teor alcoólico bem menor que seu primo de cor vermelha (11% contra os mais de 20% do Campari). Com ele é feito um dos aperitivos mais queridos da Itália. Ecco la ricetta:

Aperol Spritz

Em um copo do tipo americano ou uma taça de vinho, colocar bastante gelo e acrescentar:

3 partes de Prosecco ou outro vinho branco espumante

2 partes de Aperol

1 parte de Club soda ou água com gás

1 fatia fina de laranja (opcional)

Cin cin!

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Mensagem para você

Uma de minhas resoluções para 2014 é ir à academia com regularidade. É uma resolução que se renova a cada ano que começa, mas que não costuma chegar ao final do primeiro bimestre. “Esse ano vai ser diferente”, é a ladainha de sempre. Mas esse ano vai ser diferente!

Na segunda-feira amarrei o tênis com convicção. A academia, muito convenientemente, fica bem perto da minha casa. Não tenho mesmo desculpas.

Entrei com passos decididos e ares de quem sabe o que está fazendo e não tem tempo a perder. Escolhi uma esteira e me preparei para passar os três-quartos de hora seguintes da forma menos sofrida possível: assistindo a alguma coisa na TV portátil do aparelho. Por coincidência, naquela hora estava começando o filme ‘Mensagem para Você’, com o Tom Hanks e a Meg Ryan. Quase troquei de canal para ver o noticiário, porém lembrei que o filme é uma graça e resolvi ficar por ali mesmo. Não iria vê-lo inteiro, mas tudo bem, eu já o havia visto algumas vezes e conhecia o final.

Como todos nos lembramos, a história começa com um homem e uma mulher que, apesar de não se conhecerem pessoalmente, trocam mensagens por e-mail. Um espera ansiosamente as mensagens do outro. Depois eles acabam se encontrando, é claro. Foi divertido observar como tantas coisas mudaram desde que o filme foi lançado. E-mails, naquela época, eram o que havia de mais avançado e a forma mais ágil de se comunicar por escrito com alguém. O pai do personagem principal até faz uma alusão ao tempo em que as cartas iam por correio, dentro de um envelope selado. Pouco mais de uma década mais tarde, e-mails estão quase obsoletos, dando vez às mensagens mais velozes nos telefones ou nas redes sociais, que dispensam introduções cordiais e vão direto ao assunto. Quem tem tempo a perder com lengalengas? Quando entra uma mensagem no nosso smartphone, tablet ou qualquer que seja nosso aparato eletrônico, um sinal sonoro nos avisa. Com o reflexo já condicionado, na mesma hora pegamos o aparelho para checar o que chegou ali. E, não raramente, a pessoa que nos mandou a mensagem espera que a gente a responda assim também: na mesma hora. Não responder as mensagens rapidamente virou indelicadeza. Os tempos mudam e muda com eles o manual das boas maneiras. Recentemente, ouvi na TV alguém falando sobre etiqueta moderna e aconselhando-nos a não deixar mensagens em caixa postal, caso a pessoa com quem queremos falar não atenda o telefone. Tanto a ligação não atendida quanto nosso número estarão lá, e a pessoa retornará a chamada assim que puder. ‘Ninguém quer ouvir seus recados!’- disse a entrevistada, sorrindo para a câmera. Vejam a diferença: falar ao telefone requer mais tempo, portanto o prazo de tolerância para o retorno da chamada é maior. Mensagens escritas são mais rápidas e, supõe-se, qualquer um pode parar seja lá o que estiver fazendo para digitar o equivalente a vários minutos de conversa usando apenas umas míseras abreviaturas. Se der para responder usando só um emoticon, melhor ainda! Eu me pergunto se a facilidade de comunicação não está criando um imediatismo neurótico em todo mundo…

Voltei minha atenção novamente para o filme, que já havia avançou e agora mostrava a ótima cena em que Joe Fox (Tom Hanks) entra em um Starbucks e diz, enquanto escolhe seu café, que o Starbucks e similares foram criados para pessoas inseguras e indecisas. Segundo Fox, em tais lugares, essas pessoas têm uma ótima oportunidade de treinarem, já que precisam tomar cerca de seis decisões para conseguir fazer seu pedido: têm de escolher se querem um café grande ou pequeno, normal ou descafeinado, com leite integral ou desnatado. Feitas as escolhas, elas saem de lá com a autoestima elevada. Ah, mas assim era naquela época… Desde então, o Starbucks mudou. Segundo a própria empresa, hoje estão disponíveis mais de 87 mil combinações de bebidas à base de espresso. Prefiro acreditar a fazer os cálculos! Há grãos de várias procedências e tipos de torra, muitas alternativas de leite, até leite que não é bem leite, como o de soja, entre tantas outras opções. Pedidos do tipo “I’ll have a for here, tall, skinny, decaf mocha, with just one shot of coffee and extra syrup but no cream” são atendidos pelo barista sem que  ele pestaneje. A ideia por trás é que a pessoa se sinta especial, já que pode personalizar seus pedidos. Na Itália, berço do cappuccino que conhecemos hoje (o feito com café espresso, leite e espuma de leite), há somente duas variações possíveis: “con cacao” e “decaffeinato”. E ele é o mesmo sempre, em qualquer cafeteria do país: simples e maravilhoso. A gente não deveria jamais mexer no que é perfeito…

Assim, sem que eu percebesse, passaram-se os meus quarenta e cinco minutos de esteira. Até que isso não é tão mau! Desliguei o aparelho com pena de interromper o filme. Ainda bem que posso achá-lo de novo no Netflix. Com o astral elevado devido à serotonina e à história gostosa, saí da academia e fui depressa tomar um Frappuccino. O Starbucks, muito convenientemente, também fica bem perto da minha casa. Não tenho mesmo como resistir.

E por falar em café…

 Marocchino

Parente do cappuccino, o marocchino não é muito conhecido fora da Itália, o que é uma pena porque ele é uma delícia. É do tamanho certo para aquela hora quando queremos uma bebida à base de café que não seja tão forte quanto um espresso puro nem tão grande quanto um cappuccino. O marocchino é quase um mini-cappuccino. A diferença é que não leva leite (só espuma bem espessa) e leva um monte de chocolate. Não é tentador? Como fazê-lo:

Faça espuma de leite utilizando o vaporizador da máquina de espresso caseira, um mix ou uma cremeira. Se for utilizar um mix ou uma cremeira, esquente o leite primeiro. Polvilhe uma xícara pequena (aqueles copinhos para shots são ótimos) com bastante chocolate amargo em pó. Prepare um café espresso e despeje-o na xícara polvilhada. Complete-a com a espuma de leite quente e densa e, por cima, acrescente mais um pouco de chocolate em pó. Adoce ao seu gosto.

Uma de suas variações: unte a xícara com uma calda de chocolate grossa no lugar de polvilhá-la com o pó. Se a calda for doce, dispense o açúcar ou use-o em menor quantidade.

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 Onde encontrar

Brasil: na Kopenhagen. O cappuccino pequeno (de 60ml) deles se assemelha um pouco ao marocchino. Leva chocolate ao leite, portanto é mais doce. Maravilhoso!

Itália: em qualquer bar (= cafeteria).

São Francisco: no Caffè Greco, em North Beach (o bairro italiano da cidade).