Sobre excessos, carências e chocolates

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Paris tem “chocolateries” fantásticas, e algumas delas ainda fazem tudo “Maison”, da torrefação ao produto final. Visitá-las é um agrado a vários dos nossos sentidos. Hoje entrei numa e saí com um saquinho contendo pequeninos chocolates que eu trouxe para casa. Eles não são baratos. Mas isso é porque utilizam os melhores ingredientes, são feitos meticulosamente e exigem cuidados no armazenamento, já que chocolate não gosta de frio nem de calor. Normalmente esses quadradinhos ou bolinhas têm uma casquinha por fora que protege seu recheio. Quanto mais fina for essa casquinha, melhor é a sua qualidade. Os chocolates artesanais daqui parecem obras de arte em miniatura. Devem ser tratados com respeito. Nem se os preços não fossem proibitivos nós os deveríamos tratar com menos reverência. Não se devora um chocolatinho desses: a gente aprecia cada minúscula mordida da pequena maravilha. Há quem prefira enfiá-los inteiros na boca e saborear a explosão de sensações de uma vez. Também é válido, desde que se ponha atenção no que se está fazendo. A gente não come um chocolatinho desses assim, às pressas, vendo uma cena de suspense na TV ou andando da cozinha para a sala… Eles não são muito doces, por isso, podem não agradar a quem prefere barras e bombons mais açucarados. Costumam ser ou intensos ou delicados. Às vezes, são intensos e delicados ao mesmo tempo, por mais que essas qualidades pareçam incompatíveis. Portanto, não é só pelo preço que não os comemos aos montes. É que basta um mesmo. Ou dois…

A gente não precisa de muita coisa para ser feliz. E isso, embora verdade, é um danado de um clichê. Então, vou colocar de outro jeito: nada em excesso faz bem. Nem mesmo as coisas boas. Bem, essa é a minha opinião… O que varia, acho eu, é o que a gente considera excesso. Cada um tem um limite diferente. Veja bem, a terceira (ou quarta, ou quinta… quantifique como preferir) latinha de cerveja ou taça de vinho possivelmente vai resultar em enxaqueca ou ressaca – física ou moral -, e aquela xícara extra de café pode atrapalhar o sono dos mais sensíveis à cafeína. Acompanhar o que está acontecendo no mundo é essencial, mas assistir a noticiários indiscriminadamente deprime.  Um pouco de raiva pode ser positivo, porque nos impulsiona a fazer alguma coisa. No entanto, muita raiva causa estragos às vezes irremediáveis, a gente sabe. Até amor em demasia faz mal, já que o amor que a gente sente não costuma ter lá muito de sublime, não? Ele geralmente vem temperado de egoísmo, ciúmes, superproteção, sentimento de posse, controle… Vai dizer que muito disso é bom?

E tem outra, será que porque a gente pode, a gente deve? Aquela coisa que é tão sensacional, se feita, consumida, usada, comprada (preencha aqui com o verbo que quiser) com muita frequência, vai acabar virando banal e perdendo a graça. É uma pena quando o encanto acaba. Por isso, não quero comer esses chocolatinhos especiais todos os dias. Também não quero tomar banho de banheira todos os dias (o meio ambiente agradece), mesmo tendo a grande sorte de ter uma banheira no meu apartamento alugado. Um banho de banheira, quando a gente mora num país onde faz muito frio, equivale a um banho de piscina ou de mar no verão brasileiro. É uma bênção! Olha só, não quero nem papear com minhas amigas todos os dias. Espera, que explico: quero vê-las com muita frequência, claro, mas não todos os dias. Porque é uma delícia sentir um pouquinho de saudade e ter o que contar quando a gente se encontra. A espera também é um prazer porque a gente já curte por antecedência o que vai vir. A gente curte duas vezes.

É claro que o oposto de excesso também não é nada legal. Carência é péssimo, privação é chato. Quem é que adora um regime ou quando acaba a água? Gostaria de estar com meus pais e irmãos mais vezes, porque os visito muito pouco. Isso me faz muita falta. Meu filho adolescente logo vai para a universidade e vai morar bem longe. Queria poder continuar a vê-lo todos os dias, mesmo que só por alguns minutos. Mas o que para mim é uma necessidade básica para ele certamente é exagero. É aquela história que eu disse acima, de cada um ter um limite diferente.

Acho que o negócio é não pecar por um lado nem por outro. O melhor mesmo é a gente aproveitar os pequenos prazeres, cuidando para que continuem a ser pequenos prazeres. Hoje vou me deliciar com meus chocolatinhos da “chocolaterie” bacana e já sei que vai ser assim, porque sempre é: o primeiro que eu provar vai ser divino, o segundo vai ser bom e, se eu não parar, o terceiro não vai me dar, nem de longe, tanta satisfação quanto o primeiro. Melhor deixá-lo para amanhã. Isso vale para um monte de outras coisas. Ou será que estou enganada?

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Os miseráveis de Paris

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Há muitos necessitados em Paris. Nós os vemos por todos os lados. Necessitados é um termo muito vago que poderia ser substituído por mendigos, pedintes, desafortunados, pessoas em situação de rua, até mesmo miseráveis – na sua primeira definição, a de excessivamente pobres. Seja qual for o termo que eu escolher, a ideia vai ficar incompleta e a conotação vai ser negativa. Dar esmola é outro termo que acho terrível. Soa pequeno, insuficiente, condescendente. Mas vou usá-lo aqui também, porque não vou conseguir fugir dele.

Cotidianamente vejo os mesmos necessitados pelas ruas por onde passo. Tenho minha rotina, faço os mesmos caminhos, eles também. Pego o metrô no mesmo horário todas as manhãs e entro no último vagão. Quando o trem para na estação Franklin Roosevelt, de onde estou, vejo uma senhora sentada num dos bancos da plataforma, dormindo de braços cruzados e com a cabeça caída para a frente. Nunca vejo seu rosto. Ela está sempre com a mesma roupa, que, com o passar do tempo (eu a vejo há meses), tem ficado mais rota. As portas do trem se fecham e eu sigo viagem. Vejo a senhora por poucos segundos, mas a cena é igual todas as vezes.

Todos os dias vejo um senhor sentado num degrau de uma rua perto de casa, acompanhado de seu cachorro. No chão, há um papelão com a mensagem nous avons faim (temos fome). Ele está sempre de olhos baixos, fazendo palavras-cruzadas. Tem um jeito muito distinto e não parece estar pedindo dinheiro. Bem-vestido, não fosse por aquele papelão, ninguém o tomaria por mendigo.

Muitos desses necessitados espalhados pela cidade são franceses, mas há inúmeros refugiados também, como a família sentada no chão do Trocadéro: o pai numa ponta, os dois filhos no meio e a mãe na outra ponta. Ou o casalzinho jovem aqui da esquina, ou o rapaz da rua da frente. São alguns poucos exemplos, entre tantos outros casos.

Recentemente, vi uma mulher que, pelas roupas, parecia ser do norte europeu. Ela carregava um bebezinho dormindo no colo. Na mesma hora, lembrei de um artigo de revista que havia lido anos antes sobre essas mulheres pedintes que trazem sempre um bebê dormindo. Os bebês não são seus filhos e estão drogados, dizia a revista. Dormindo, eles passam um ar de anjinhos e comovem as pessoas. O artigo era taxativo: não dê esmola para essas mulheres!

Mas foi há poucos dias que vi uma cena mais perturbadora: outra dessas mulheres sentada no chão, com uma criança bem grande no colo. O menino devia ter sete ou oito anos. Ele dormia profundamente, e ela parecia mal aguentar segurá-lo. A mulher virou para mim com olhar de súplica. Desviei os olhos, pensando em como uma criança daquela idade podia estar dormindo tão pesadamente àquela hora da tarde, e fiquei cheia de revolta. Olhei de novo. O semblante dela se abriu, provavelmente porque ficou esperançosa, achando que eu havia me sensibilizado e que lhe daria alguma coisa. Não dei. Eu estava era indignada. Se eu falasse bem francês, se conhecesse as regras locais, com certeza teria procurado um policial e avisado, pensei. Não sei se teria tido coragem, na verdade, mas quis acreditar que eu teria tomado alguma providência.

Naquela noite, perdi o sono. Aquela cena não saía da minha cabeça. Eu me perguntava para onde aquele menino teria sido levado quando saíram dali. Teria sofrido violência física ou psicológica? A mulher também? Onde se alojavam? Como eu pude não ter ajudado? Como pude arbitrar sem ter conhecimento dos fatos? Que direito eu tive, ou melhor, tenho, de presumir qualquer coisa sobre quem quer que seja, se não estou sentindo na pele o que a pessoa está? Absolutamente nenhum. Não conheço a história dessas pessoas, não sei por que estão na situação em que estão. Então, não posso julgá-las. Mesmo se fosse possível conhecer sua história, eu não saberia o que se passa no seu íntimo. Então, não poderia julgá-las. Mesmo se fosse possível conhecer o que se passa no seu íntimo, eu as estaria julgando conforme meu íntimo, minhas vivências, meus valores. Então, não poderia julgá-las. A única pessoa que posso julgar sou eu mesma.

Mas e aí, diante da miséria alheia, como agir? Há pessoas que não se abalam com isso e não dão esmolas (eis o termo que acho terrível). É uma escolha válida. Se não existe um conflito interno, está tudo bem. Bom para elas. Por outro lado, há aquelas que se engajam, arregaçam as mangas, dedicam-se a aliviar o sofrimento dos outros. Eu as admiro e respeito profundamente. Não faço parte do primeiro grupo nem do segundo. O que faço é dar uns trocados aleatoriamente (como se alguns trocados fizessem alguma diferença) ou, pior ainda, escolhendo aqueles que parecem precisar mais ou merecer mais. Que critério mais absurdo é esse? Não é uma piada? Que prepotência a minha! Quem eu penso que sou?

Por que, afinal, dou esmolas? Não é para me sentir bem, para poder comer um éclair de cinco euros sem sentir culpa? Ora, dar esmolas é um ato egoísta ou de compaixão? Faço isso por eles ou por mim? E importa? Para quem recebe, possivelmente não. Para quem dá, acho que sim. Será que o que nos move (o que me move) não é uma noção religiosa – e distorcida – de que se não o fizermos seremos julgados por Deus? Deus, ando pensando, não tem nada com isso. Não o Deus em que acredito, que não julga nem castiga. Deixemos Deus fora disso. A coisa é entre mim e mim (num português capenga): o que aquela situação provoca em mim, que sentimentos ela gera e como eu reajo a eles, o que faço a partir daí. Só que, na maior parte das vezes, esqueço de pensar assim e me deixo mover, sim, pela culpa. Faço pouco e me culpo muito. Combinação desastrosa.

O outono chegou trazendo o frio de volta à cidade. Daqui para a frente, esfriará mais e mais. As estações de metrô se encherão de desabrigados à noite. Muitos dormem lá para se proteger das temperaturas baixas e das chuvas, que, no inverno, são quase diárias. Vou continuar a vê-los de manhã quando pegar o trem. Vou continuar a olhar para eles quando andar pelas ruas, achar alguma moeda no fundo do bolso, brincar de juíza e escolher para quem dá-la, mas logo, distraída, desviar o olhar para as vitrines lindas das lojas de Paris.

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A miséria sempre me chamou atenção em todos os lugares onde morei: São Paulo, Rio, Londres, São Francisco… Ela pode ter causas distintas e ser expressa de formas diferentes, a gente sabe. E, obviamente, há vários níveis de pobreza. Mas fome é sempre fome, frio é sempre frio, desabrigo é sempre desabrigo, desespero é sempre desespero. Falei dos miseráveis de Paris porque é o onde estou no momento.

Vida de expatriados

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Muda-se de país por inúmeras razões. A nossa é o trabalho do Marido. Já passamos por isso diversas vezes e, nesta altura, sabemos mais ou menos o que esperar. Ajuda, embora nunca fique fácil… Tenho uma lista enorme de providências a tomar para a mudança que sairá daqui a dois meses. Mas, em vez de providências, vou é tomar um café… e escrever sobre como é essa coisa de pular de galho em galho. Vamos lá:

Mudanças são uma ótima oportunidade para a gente se desfazer de coisas, doando-as, vendendo-as ou até mesmo jogando-as fora. Então, separamos  aparelhos domésticos – que não funcionarão no novo destino por causa da voltagem diferente -, utensílios, brinquedos, papelada, revistas… A lista é longa e a trabalheira é enorme. Desfazer-se do que não é útil, bonito ou tem valor sentimental é algo que deveríamos fazer sempre, dizem os gurus da organização, mas a gente às vezes se esquece. Ao mudarmos de casa, ainda mais quando vamos para um outro continente, não há como evitá-lo. E lá se vão os potinhos de ervas aromáticas para o lixo e o vinho do Porto para o ralo. A gente tenta aproveitar tudo o que há na despensa para evitar desperdícios, e  se pergunta o que fazer com os pacotes abertos contendo restinhos de macarrão, de arroz, de farinha… Quem vai herdar a planta da sala? Mudar é um exercício de desapego.

Quando o caminhão de mudança vai embora com tudo aquilo que, até então, era nosso lar, é hora de fechar a porta pela última vez e partir para o novo destino. Se esse destino for um lugar desconhecido ou pouco conhecido, como tem acontecido conosco durante duas décadas, a gente vai recomeçar do zero, que é tão excitante quanto assustador.

A gente chega e reza para que ninguém fique doente antes de conseguirmos referências de médicos e dentistas. A gente enche a geladeira e os armários da nova casa com produtos de marcas estranhas, escolhidos no supermercado na base do mamãe-mandou – e adora quando encontra a pasta de dente da marca multinacional. A gente vai ao cabeleireiro pela primeira vez e prende a respiração, morrendo de medo de que ele faça um estrago devido a falhas na comunicação. E a calça recém-comprada vai ficar sem bainha por um bom tempo…

Chegar de mudança é  introduzir um elemento de fora numa história que já vem acontecendo há muito tempo, com seus personagens entrelaçados e vivendo suas vidas muito bem, obrigada. Chegamos. Não conhecemos ninguém. Precisamos absolutamente conhecer pessoas. As amizades não ocorrem tão naturalmente, elas são praticamente impostas pelo nosso instinto de sobrevivência. Entramos na vida das pessoas que sempre estiveram ali e causamos algum rebuliço. Elas, que já têm suas rotinas estruturadas, abrem espaço para a novidade: nós. E, aos poucos, vamos nos conquistando mutuamente ou nos distanciando. As afinidades acabarão fazendo a seleção com naturalidade e, certamente, depois de um tempo, teremos feito alguns grandes amigos.

Desbravar o bairro, explorar as ruas vizinhas, achar caminhos, descobrir onde ficam o banco, a farmácia, a padaria (será que há padarias?)… tudo isso pode ser delicioso ou, então, um pesadelo. Vai depender da nossa atitude. Comparar um lugar com outro, o que tínhamos antes com o que temos agora, o que era e já não é, costumes ou seja lá o que for é a receita perfeita para a frustração e o sofrimento. Quer ser feliz? Não compare. Quando a gente aceita cada realidade como ela é, nossas chances de adaptação são muito maiores. Se nos abrimos para o novo, para o diferente, só temos a ganhar: perdemos preconceitos, ampliamos horizontes, revemos valores e aprendemos muito.

Não demora e começamos a nos envolver com a cultura, a história e os costumes do lugar. O que sabíamos dele até então era o que tínhamos lido em livros e jornais ou visto na TV. Era tudo abstrato. A realidade é muito mais rica e complexa, claro. Passamos a acompanhar questões políticas e econômicas com mais interesse, seguimos seriados locais na TV, ouvimos as músicas que tocam frequentemente no rádio e já sabemos o nome de quem as canta.

Depois de algum tempo, já temos nossa cafeteria preferida, conhecemos atalhos para o trabalho e a escola, e a moça da lavanderia nos cumprimenta pelo nome. Já fazemos parte. E é quando tudo está assim, encaixadinho e confortável de novo, que normalmente a gente tem de mudar outra vez… Aí, largamos tudo para trás. As amizades a gente tenta manter. Graças às facilidades da tecnologia, trocamos mensagens recheadas de beijos, abraços e promessas de sempre manter contato. Mas a gente já sabe que não vai mais fazer parte do dia a dia daquelas pessoas. Deixaremos de ter acesso aos novos hits dos cantores de quem aprendemos a gostar, não saberemos que fim vai levar aquele último escândalo político e nem como vai terminar a novela.

Haja coração para lidar com tudo isso! Ajuda pensar que no próximo destino há pessoas fantásticas que ainda não conhecemos, mas que, em breve, vão se tornar queridas, que vamos nos deslumbrar muitas vezes com um monte de coisas incríveis que veremos e viveremos, e que, se os perrengues são inevitáveis (e há sempre muitos perrengues), no mínimo, eles nos ensinarão alguma coisa. Então, vale a pena? Eu acho que sim, vale muito!

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Feito Peixe Fora d’Água vai se mudar de São Francisco para Paris

~ O  ~

Essa é a perspectiva de um terço da minha família. 🙂 O Marido, com as responsabilidades do cargo recém-iniciado, e o Filho, com a nova escola, precisam administrar ainda muitas outras emoções.

** Seja lá onde a gente estiver, a saudade da família que ficou para trás é constante. Mas isso eu nem preciso dizer, não?

*** Quando somos expatriados porque o trabalho nos transfere, temos uma rede de apoio por trás, o que facilita muito a experiência toda. Mas conheço várias pessoas que saíram do Brasil só com a cara e muita coragem, atrás de um sonho ou de melhores condições de vida. O que lhes faltava em estrutura e recursos lhes sobrava em determinação e garra. A todas elas, deixo minha grande admiração.

 

Un sombrero rojo, pero no mucho

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“Será que este vai funcionar?”, pensei de manhã, ao lambuzar o rosto com o mais recente creme antirrugas que promete resultados em três meses. Mas daqui a três meses não vou estar três meses mais velha? Isso tem jeito de batalha perdida… É melhor ir à luta, por via das dúvidas, e usar todas as armas disponíveis: sérum com tensor, creme para a região dos olhos, creme para a região do pescoço, protetor solar… O arsenal conta ainda com preenchedor instantâneo de rugas (cujo efeito, posso quase jurar, também desaparece instantaneamente), base corretiva, e por aí vai. Complicada essa faixa dos quarenta e tantos anos…

Enquanto observo minha imagem e vejo as mudanças que os anos têm trazido, penso naquelas que não são visíveis, mas que são ainda mais importantes. A juventude nos dá todas as possibilidades ou, pelo menos, a ilusão de que temos todas as possibilidades. O tempo passa e realiza algumas delas; outras, não. Às vezes, muda o rumo completamente. O que não quer dizer que seja para pior. A sociedade nos cobra algumas coisas, mas as cobranças que nos aporrinham mais são as internas. Tenho me dado conta de que tá aí uma coisa boa que a idade traz: a gente começa a fazer ouvidos moucos a essas cobranças, venham de fora ou de dentro. Aliás, na minha opinião (e opinião, por definição, é uma coisa muito pessoal), envelhecer é libertador, pelo menos quando aceitamos que estamos envelhecendo e que o processo não tem volta. A gente passa a ‘não ter que’ mais nada. Aleluia! Que leveza!

Minha mãe sempre diz que cada idade tem sua beleza. Minha mãe é uma otimista, mas ela tem razão. Foi ela que me mandou, tempos atrás, aquela bonita mensagem chamada ‘El sombrero rojo’. A mensagem descreve o olhar feminino diante do espelho: aos dois anos, a menina vê uma rainha; aos oito, uma princesa; aos vinte, ela se acha gordinha e feiosa… e assim vai. Aos setenta anos, a senhora não se importa tanto com o que vê e, aos oitenta, nem olha mais para o espelho: veste um chapéu vermelho e sai para se divertir. Que maravilha deve ser não dar muita bola para o espelho nem para o que pensa a patota!

A mensagem ‘El sombrero rojo’ me lembra dois grupos bem diversos de mulheres que vi num restaurante outro dia. O primeiro era formado por cerca de quinze jovens que deviam ter pouco menos de trinta anos. Estavam todas produzidíssimas, maquiadíssimas, de salto altíssimo. Tudo assim, no superlativo, como a idade permite. Vira e mexe, ajeitavam o cabelo ou puxavam a saia curtíssima para baixo. O segundo grupo também era numeroso. Dele faziam parte várias mulheres de sessenta e poucos anos. Estavam todas bem arrumadas, mas sem exageros. As senhoras pareciam entretidas com o cardápio e se empenhavam em escolher um belo vinho e conversar com as amigas do lado e da frente. Os interesses e as prioridades mudam com o passar dos anos, disso ninguém tem dúvida. Mas, de qualquer jeito, ambos os grupos pareciam estar se divertindo, cada um à sua maneira. Enquanto as jovens transmitiam muita vitalidade e energia, as senhoras deixavam transparecer uma tranquilidade e uma segurança encantadoras de quem se sente muito bem na própria pele, mesmo essa não sendo mais lisinha. Admirei os dois grupos e me senti meio no limbo. É estranho, não, quando a gente não tá lá nem cá, quando não temos mais o frescor e as aspirações da juventude nem temos ainda a serenidade e a sabedoria que a maturidade (espera-se) traz. É claro que serenidade e sabedoria não chegam do nada. Vêm de muitas coisas vividas, um bom tanto delas tristes, difíceis e desagradáveis. Acho que deve ser assim que a gente passa a escolher em que deve realmente usar nossa energia, já que a temos em menor quantidade que antes. Vai ficando mais claro com o que vale a pena a gente se importar.

E como o cérebro da gente trabalha por associações, acabo de me lembrar de um outro episódio. Não faz muito tempo, numa cafeteria que costumo frequentar aqui em São Francisco, vi entrar um casal de idade bastante avançada, de braços dados. O senhor, bem curvadinho e de cabelo bem branquinho, apoiou sua bengala na parede e se sentou enquanto a senhora foi ao balcão fazer o pedido. Tomaram seu café e ficaram ali um pouco. Na hora de irem embora, a senhora se levantou, se pôs na frente do companheiro e lhe estendeu as mãos. O senhor as segurou e tentou se levantar. Foram três tentativas até conseguir. Sentada na mesa ao lado deles, eu me peguei dizendo em pensamento: upa-lá-lá. O senhor pegou sua bengala, eles se deram os braços e saíram, caminhando devagarinho.

E assim a vida passa, com suas belezas e seus perrengues. Eu não sei até onde vou chegar. Mas quero fazer um pacto com a idade, supondo que eu siga vivendo ainda uns bons anos: eu a aceito, e ela chega gentilmente. Vou passar todos os creminhos de última geração que eu conseguir – e vou agradecer aos céus se minhas preocupações forem as rugas, porque, na escala do que é de fato relevante, que importância elas têm, não? Vou procurar aprender tudo o que eu puder e tentar nunca tomar nada por garantido. Espero não perder a capacidade de me surpreender nem de me encantar. Deus me livre de ficar muito ranzinza e cheia de manias! E, embora a gente vá perdendo um pouco as ilusões, se não for pedir muito, gostaria de sempre ter com que sonhar (a vida fica muito sem graça sem um mínimo de ilusão).

Como ainda não estou pronta para vestir um chapéu vermelho, vou agora mesmo providenciar um fedora bem bonitinho e fazer a transição aos poucos. Espero chegar lá! E espero que com saúde. Espero também que, anos à frente, minhas amigas e eu possamos nos reunir de vez em quando em volta de uma grande mesa num restaurante bacaninha para compartilharmos nossas histórias. Bebericando um bom vinho, sem dúvida. E, se der para esticar os anos ainda um pouco mais, que eu tenha alguém querido a quem dar o braço na hora de passear – para que o mais forte de nós dê um upa-lá-lá ao outro, se precisar.

E por falar em amigas…

Deixo aqui um grande beijo a todas as minhas, que estão espalhadas pelos quatro cantos.

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Amália e sua fiel ajudante

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Esta manhã, pus meu iPod para tocar aleatoriamente e ele selecionou um fado. Adicionei a música à minha lista depois de visitar a Casa Museu Amália Rodrigues no verão europeu passado – passeio que fazia parte do plano que duas amigas e eu tínhamos de explorar Lisboa como se fôssemos turistas. Como as músicas têm o poder de fazer a gente voltar no tempo e no espaço, hoje de manhã fui parar de novo na conhecida Rua de São Bento, dentro do casarão em que a fadista viveu seus últimos 40 anos.

A Casa Museu é fácil de identificar: a gente chega e já vê um grande rosto da Amália pintado na fachada. Amália morreu em 1999 e, desde então, o casarão passou por algumas remodelações para se tornar um museu, mas pouca coisa mudou de fato.

O museu oferece visitas guiadas. Naquela tarde, esperamos alguns minutos no hall de entrada até que o pequeno grupo que havia chegado antes de nós saísse. Então, foi nossa vez de conhecer os andares seguintes da casa. Nossa guia, uma senhora já de uma certa idade, deixou escapar um suspiro enquanto subia lentamente os antigos degraus. Perguntei-lhe se ela subia e descia aquela escada muitas vezes por dia. Ela me disse que sim e sorriu, acrescentando, com ar resignado, “Estou acostumada!”

Chegamos no primeiro andar. Ali ficam uma grande sala de estar e uma sala de jantar. Tudo continua mobiliado e decorado como na época em que Amália ali morava. Na sala principal, encontram-se uma guitarra do século XIX, um piano, muitas condecorações e medalhas diversas. A mesa da sala de jantar está posta como se a cantora estivesse para receber amigos ou convidados ilustres. Nossa guia apontava para objetos e contava algumas histórias. De lá, fomos ao segundo andar, onde ficam uma outra sala, uma saleta cheia de roupas, dois quartos e um banheiro. A senhora continuava a contar histórias, chamando nossa atenção para os diversos quadros nas paredes e para vestidos e bijuterias que Amália usava em seus espetáculos e que agora permanecem expostos nos aposentos.

Nossa guia parecia seguir um script decorado que, de tanto ser repetido, já não trazia nenhum traço de emoção. Foi então que minha amiga resolveu lhe perguntar se ela havia conhecido a cantora pessoalmente. “Se eu conheci a Amália? Ah, sim!”, disse ela. Então, contou-nos que, quando fez dezoito anos, pediu de presente ao pai permissão para viajar a Lisboa. Era seu sonho conhecer a grande estrela Amália Rodrigues. Seu pai consentiu e ela partiu de Angola, sua terra Natal, para Portugal sem imaginar o que encontraria pela frente. Contou-nos que chegou no país estranho e que, durante dias e dias, tentou em vão falar com Amália. De tanto insistir, a própria fadista abriu a porta de seu casarão para ela e a convidou a entrar. “Entrei”, disse ela, “e não saí mais”. Amália ofereceu-lhe um emprego, e a jovem se tornou sua companheira fiel por quase quarenta anos. Disse-nos que havia dedicado sua vida à cantora enquanto esta era viva e que continuava a fazê-lo agora, como guia da Casa Museu.

Íamos ouvindo curiosidades sobre os costumes de Amália, sobre o que acontecia nos palcos e detrás deles, sobre as visitas que a artista recebia e as viagens que fazia. Descobrimos que a senhora a acompanhava por todos os lados, que conhecia bem os amores e os desamores da diva, suas alegrias e suas depressões.

Entre um relato e outro, a guia ia, aos poucos, revelando-nos também um pouco de sua própria história. Disse-nos que havia se casado e tido filhos. Contou-nos que foi ela que encontrou Amália morta, numa manhã, ao chegar para trabalhar. Fui me dando conta de que aquela senhora não havia tido somente um papel coadjuvante na vida de uma pessoa ilustre como Amália. A senhora era, sim, protagonista de uma existência interessantíssima. Quantas coisas mais teria para contar? Quantas dificuldades e desafios teria vencido? Que pena que não escreveu um livro ou não registrou de alguma outra forma tudo aquilo que vivenciou e continua vivenciando, começando pela sua infância em Angola, sua paixão por uma artista portuguesa, sua determinação em conhecê-la e sua coragem de, ainda tão jovem, sair de seu país, sem imaginar que o estava abandonando. Isso há mais de cinquenta anos!

Nossa visita guiada chegou ao fim. Saí do museu encantada com as histórias da Amália e com a trajetória daquela senhora e com vontade de saber mais sobre as duas. Não fosse eu tão tímida nem a guia tão ocupada, talvez a tivesse convidado para um café e um dedo de prosa. Mas eu sou tão tímida e ela estava tão ocupada…

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E por falar em fado…

– Sua história é complexa e muito rica. Quem quiser saber um pouco mais sobre o assunto não pode deixar de visitar o Museu do Fado, no Lg. do Chafariz de Dentro, 1, em Santa Apolônia. Tel.: 21 882 3470 ( www.museudofado.pt )

A Casa Museu Amália Rodrigues fica na Rua São Bento, 193. Tel.: 21 397 1896

– Nos meses de julho, agosto e setembro geralmente acontecem as ‘Visitas Cantadas’ em Alfama e na Mouraria, dois bairros típicos da cidade. As visitas se dão no final da tarde, duas vezes por semana. Basta chegar no ponto de encontro e se juntar ao grupo. As visitas são guiadas e o grupo caminha por ruas importantes da trajetória do fado, ouvindo histórias e músicas. Para maiores detalhes, visite o http://www.museudofado.pt . É bom ligar antes para se certificar que vai haver.

Em tempo: um programa imperdível na Mouraria, ao terminar a visita cantada, é subir até o terraço do Hotel Mundial, pedir uma bebidinha e apreciar o pôr do sol. A vista da cidade é linda! O hotel fica na Praça Martim Moniz, 2.

– Há várias casas de fado em Lisboa. Normalmente o programa inclui o jantar, que é caro e nem sempre é bom. Mas é possível chegar mais tarde só para assistir ao show. Aqui vão duas opções:

Clube do Fado: Rua São João da Praça, 86-94, Sé. Tel.: 21 885 2704

Senhor Vinho: Rua do Meio à Lapa, 18. Tel.: 21 397 2681

– Engana-se quem pensa que fado é coisa do passado. O estilo musical tem encontrado novo vigor com nomes fortes como Mariza, Kátia Guerreira, Carminho e Ana Moura, entre tantos outros.

– Em 2011, o fado foi declarado Patrimônio Imaterial da Humanidade, pela UNESCO.

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Mural de autoria desconhecida, Mouraria
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Mural de autoria desconhecida, Mouraria

As francófilas e suas yoga pants

Uma vez Carrie Bradshaw disse, num episódio de Sex and the City, que era fácil reconhecer quem não era de Nova Iorque só de olhar para a pessoa. A maneira como estavam vestidos delatava os forasteiros. Carrie passou todas as temporadas do seriado usando roupas e sapatos fabulosos, quando não um pouco excêntricos, e, embora eu duvide que todas as nova-iorquinas se vistam como Carrie se vestia, algumas devem fazê-lo, e a exuberância possivelmente passará despercebida nas ruas de Manhattan.

Aqui na costa oeste dos EUA, as coisas são bem diferentes. As californianas se vestem com muito mais descontração. Na Califórnia há uma predileção por calças legging. Sim, aquelas de fazer ginástica, aqui chamadas de yoga pants. Não fiz uma pesquisa, mas poderia apostar que em nenhum outro lugar do mundo usam-se tantas leggings como aqui. Elas são o que se vê nas ruas da cidade, nos cafés, nos supermercados, nos cinemas, nos aeroportos. As americanas daqui parecem estar sempre prontas para dar uma corridinha ou entrar numa academia, mesmo se na verdade estiverem indo pegar um caffè latte no Starbucks ou buscar o filho na escola. Calças legging estão para as californianas assim como calças jeans estão para o resto do mundo. E elas as vestem impecavelmente, tenham certeza, já que não se vê uma só celulite ou gordurinha fora do lugar. Elas podem.

Meio que na contramão do que disse acima, uma boa parte das americanas se intitula Francophile (francófilas), o que quer dizer que amam de paixão tudo aquilo que é francês. Daí a abundância de livros sobre o país e, em especial, sobre Paris e as parisienses. Há inúmeras autoras ensinando as americanas a serem mais francesas. “As francesas isso, as francesas aquilo, as francesas sempre, as francesas jamais…” Os livros tratam do que as francesas comem, de como se portam e, sobretudo, de como se vestem. Ironicamente, suas autoras não são francesas. Com raras exceções, são americanas que passaram algum tempo em Paris e resolveram escrever sobre a parcela das francesas que corresponde ao ideal que se fez delas pelo mundo afora: as despojadamente elegantes e charmosas.

Não entendo muito do assunto, mas depois de morar em alguns países e de visitar uns tantos outros, é claro para mim que moda é uma coisa muito particular de cada cultura. Apesar de sermos bombardeados pela mídia com as tendências de cada estação, a forma como cada cultura vê e usa essas tendências varia muito. As espanholas têm uma maneira particular de se vestir, as italianas também. O que funciona em Portugal – sei por experiência própria – não funciona necessariamente no Brasil ou nos Estados Unidos… Como Carrie Bradshaw já havia notado, até dentro de um mesmo país existem diferenças. É só observar como as cariocas, as paulistanas e as mineiras se vestem. Apesar de bom gosto ser bom gosto em qualquer canto e de um desastre fashion ser sempre um desastre fashion, cada lugar tem suas cores locais e seus encantos. Tentar recriar aqui o que dá certo acolá nem sempre resulta bem. Mas há uma aura ao redor das francesas que todo mundo, em especial as americanas, parece querer imitar.

Não faz muito tempo, uma famosa ex-modelo francesa escreveu um guia de estilo parisiense. Com olho no grande mercado americano, o livro logo foi traduzido para o inglês, e ela se juntou, assim, ao time das autoras americanas que vêm lucrando com o tema há tempos. A ex-modelo inicia o livro dizendo que você não precisa ter nascido em Paris para ter o estilo das moçoilas de lá. Se ela, que nasceu em Saint-Tropez, pode se vestir a la Parisienne (imaginem!), por que você, que nasceu do outro lugar do mundo, não poderia? Não preciso dizer que o livro tem vendido aqui como cerveja em dia de Super Bowl.

E a coisa continua. Basta fazer uma breve pesquisa no Amazon.com e aparecerão dezenas de outros livros mais recentes sobre o assunto.

Paris provoca essa paixão nas americanas. Não é de se estranhar, já que aquela cidade é maravilhosa, e as parisienses, sensualíssimas. Mas nem a paixão nem todos os livros vendidos parecem modificar de fato o comportamentos das americanas. Pelo menos não na costa oeste. Aqui, apesar de tais livros venderem muito, as yoga pants vendem muito mais e reinam absolutamente. Agora, uma francesa saboreando um pain au chocolat de leggings num café de Paris parece bastante improvável, non?

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E por falar em yoga pants…

Aproveitando a onda, nomes como Michael Kors, Alexander Wang, Rebecca Taylor, Seven for All Mankind, entre outros, já estão criando suas versões da peça, usando tecidos mais sofisticados e cobrando bastante por elas. A ideia é vestir a mulher contemporânea – aquela que está sempre em movimento entre o trabalho, a academia, o barzinho, etc., com conforto e alguma elegância. Na falta de um termo dicionarizado, inventou-se até um nome esquisito para a tendência: athleisure, ou seja, uma mistura de atletismo com lazer. Dizem que o jeans está com seus dias contados. Ai, ai, o que será de mim?…

Viajando leve (bem, nem tanto…)

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Acabo de ler a newsletter do meu amigo americano Jonathan. Ele escreve um blog sobre as viagens que faz com sua esposa todos os anos. Suas viagens são longas, normalmente duram de sete a oito semanas. Em sua newsletter, Jonathan dá dicas de como viajar com o mínimo de coisas possível. Ele e sua esposa costumam levar apenas uma mala de mão cada um e, portanto, evitam ter que pagar tarifas para despachá-las (que algumas companhias aéreas cobram), não precisam ficar esperando a bagagem chegar na esteira e não correm o risco de que elas sejam extraviadas. Viajante experiente, Jonathan descreve em pormenores tudo o que leva nos bolsos do casaco e na pequena mala, especificando quantidades, pesos e dimensões. Assim, com poucas roupas, meu amigo e sua esposa passeiam dois meses pela Europa, Ásia ou pelas Américas. Não são jovens mochileiros, longe disso. Ele é aposentado e ela trabalha com eventos em Hollywood. Apesar da ótima posição financeira, alojam-se em hotéis simples, confortáveis e bem localizados, mas jamais luxuosos. Frequentam galerias e museus, descobrem as atrações locais, comem e bebem muito bem e tiram o máximo proveito da cultura do lugar onde estiverem. Tudo isso com dois pares de sapatos, meia dúzia de camisas, três calças, uma câmera, um laptop e pouca coisa mais. Não viajam para fazer compras. Compram apenas livros que, depois de lerem, deixam nos hotéis para os próximos hóspedes. Depois voltam para casa com muitas fotos e muitas histórias para contar, e com as malas do mesmo tamanho de antes.

Vamos combinar, não temos chegar a esse ponto! Principalmente nós, mulheres. Afinal, só as nécessaires que levamos já pesam bastante, e sem elas fica mais difícil a gente ser feliz. Diminuir seu tamanho é inegociável. Precisamos de todos os nossos cremes, blushes e batons. E, sim, primer é um produto indispensável, basta ver a raiz da palavra: prim = primeira necessidade.

Esclarecidas as prioridades, vamos também admitir que certamente dá para simplificar bastante nossa vida quando viajamos. Será que precisamos mesmo levar uma roupa para cada dia e sapatos e bolsas para combinar com cada uma delas? Vamos com as malas cheias e voltamos ainda mais carregadas, depois das comprinhas que adoramos fazer, principalmente no exterior. Com certeza, muitas vezes os preços compensam e os artigos são únicos ou de melhor qualidade. Às vezes, a viagem tem mesmo esse objetivo. É válido. Mas será que temos que associar toda e qualquer viagem a compras?

Com o passar do tempo, venho aprendendo uma coisinha ou outra quanto ao que levar na bagagem e ao que trazer de volta… Meio no “quem não vai pelo amor vai pela dor…” Minhas viagens em família incluem sempre muitos e muitos quilômetros de caminhadas. Saímos de manhã e voltamos à noite, seja com frio, calor, chuva ou neve. Assim, os saltos e as sandalinhas delicadas, blusinhas e casacos lindos, mas inúteis não viajam mais comigo. Aprendi a duras penas, depois de repetidos episódios de dolorosas bolhas nos pés e das tantas vezes que vi o Marido, viajante também tarimbadíssimo, balançar a cabeça (tsk, tsk, tsk) e dizer: “Para que levar isso? Não é esse tipo de viagem…”. Devagarinho fui trocando a vaidade pelo conforto. Mas sem exageros: tudo tem limite!

Turista estrangeiro tem cara de turista estrangeiro. É fato. A gente se arruma toda e vai ao restaurante bacana do local, e lá estão aqueles americanos ou europeus na mesa do lado, absolutamente tranquilos com suas calças cargo (cruzes!) e sandálias Birkenstock, felizes, deliciando-se com algum prato maravilhoso e apreciando um bom vinho. E o melhor de tudo: ninguém liga! Com exceção de uns poucos restaurantes muito sofisticados (normalmente mais formais – o tipo que não me atrai), hoje tudo está bem mais tranquilo. Você vai do jeito que está, sem problemas. Ótimo! Então, deixo o capricho na produção para quando voltar para casa. A não ser que eu esteja em Portugal. Ah, aí é diferente…

Acabo de voltar de Portugal. Fui passar lá dois meses. Para ir, fiz e refiz minha mala diversas vezes, tirando e botando de volta isso e aquilo, até chegar a um consenso. Mesmo assim, ela ficou bastante grande, maior do que eu gostaria. Ao ler a newsletter do meu amigo Jonathan, não deu para não comparar a bagagem dele com a minha. Mas afinal de contas, Portugal é esse tipo de viagem. Minha casa foi lá durante alguns anos e, de certa forma, continua sendo. Lá eu vou às compras, porque tem sempre lugar para mais um livro, um galinho de Barcelos ou uma sardinha de cerâmica na minha coleção. É lá que eu revejo pessoas queridas, saio para almoçar com uma amiga, vou ao cinema com outra, tomo um aperitivo no final da tarde com outra ainda… Em Portugal eu cometo todos os meus excessos. E vou de rasteirinhas, apesar de saber que inevitavelmente vou tropeçar nas calçadas portuguesas (as pedrinhas são lindas, mas perigosas…). Mas é só lá. Para os outros tipos de viagens também tenho minhas Birkenstock. Agora, calça cargo, não! Como disse, tudo tem limite…

(As dicas do Jonhathan você encontra aqui: http://wp.me/p2G6y6-1hR)

E por falar em compridas…

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Não sei dizer se foi a crise (mãe da criatividade) ou se foi uma nova geração de portugueses que resolveu retomar e valorizar a esquecida arte nacional, mas o fato é que o país está cheio de artesanato lindíssimo. Os temas são bem característicos: sardinhas, andorinhas, Santo Antônio, fado, entre outros. Os galinhos de Barcelo nunca saíram de cena, na verdade. Mas o restante é coisa bastante recente. Irresistível! Seja lá o que deu origem a isso, o importante é que  está funcionando muito bem.

Lisboa tem muitas lojinhas bacanas. Não deixe de comparar preços, porque eles variam muito de uma para outra. Duas lojas excelentes onde você vai achar lembrancinhas para todo mundo são:

  • A Vida Portuguesa 

Rua Anchieta, 11 (no Chiado)

www.avidaportuguesa.com

  • Lisbon Shop

 Rua do Arsenal, 15 – Pátio da Galé (na Praça do Comércio) 

E por falar em sardinhas…

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Elas agora são gourmet! Numa sacada de mestre, alguém resolveu transformá-las em algo mais requintado. Deu certíssimo também! Diversas marcas investiram no peixe mais popular que existe e o transformaram em manjar dos deuses. As latas estão lindas e há muitas variações de molhos (de azeite, tomate, suco de limão…). Uma latinha + pão crocante + um copinho de vinho branco bem gelado e a felicidade está garantida.

Você encontra as latinhas em muitos lugares, mas aqui vai uma loja especial:

  • Loja das Conservas

  Rua do Arsenal, 130 (Lisboa)

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