Meu filho e os bolos que quero fazer

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Quando penso na minha infância, uma das imagens recorrentes que me vêm é a da geladeira da casa dos meus pais. Costumava abri-la com frequência para ver o que havia de bom para lambiscar. Sempre encontrava algum doce. Na minha infância também nunca faltaram bolos. Minha mãe sempre fez pratos deliciosos, doces e salgados. Muitos deles são receitas que eu nunca experimentei – nunca ousei – fazer. Meu repertório culinário é bem diferente do dela. Eu nunca conseguiria fazer igual. Comida de mãe é comida de mãe. Outro dia estava pensando em como as lembranças que meu filho, hoje adolescente, vai ter serão diferentes das minhas. Entrei em crise, quis recuperar algumas coisas, fazer para ele o que traz reconforto para mim. Depois acabei me dando conta de que isso é impossível. Memória afetiva não se transfere. Meu filho se lembrará de outras coisas. Das recordações que ele terá não farão parte os doces ou bolos que fazem parte das minhas. Nem os lanches da tarde em volta da mesa da minha avó ou das minhas tias com café passado na hora, queijo fresco, bolachas e pães, muitas vezes, feitos em casa. De qualquer forma, espero que ele encontre aconchego quando, adulto, pensar na sua infância e adolescência. Aí, resolvi começar a fazer bolos com mais frequência (os que eu fazia eram bastante esporádicos…). Sei que essa é uma corrida contra o tempo, mas gostaria que me filho se lembrasse sempre de como é gostoso chegar em casa e sentir o cheirinho de bolo assando no forno. Porque, sério, isso é mesmo bom, não? Bolo simples, sem recheios ou coberturas complicadas. Aconchego não precisa de sofisticação. É bem possível que as recordações que ele terá nem incluirão comidas. Talvez eu esteja tentando plantar as memórias que eu quero ter. Deve ser isso mesmo, sou eu que quero me lembrar que assei bolos para meu filho antes de ele bater asas e voar para longe, coisa que vai acontecer daqui a não muito tempo. Mas torço muito para ele curtir os bolos de verdade!

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Já que resolvi virar boleira amadora, vou compartilhar com você as receitas que eu fizer e que derem certo. O tipo de bolo que escolhi é o pound cake. Já explico o que é:

Pound cake não tem uma bola tradução para o português. Esse bolo surgiu em algum lugar do norte da Europa no início do século dezoito. Bem impreciso, eu sei… Mas não há muitos registros que contem sua história direitinho. O que se sabe de fato é que ele recebeu esse nome porque, originalmente, sua receita levava a mesma medida (‘one pound’, isto é, uma libra – cerca de 450 gramas) de cada um desses quatro ingredientes: farinha, ovos, açúcar e manteiga. E só. O bolo de três séculos atrás pesava quase dois quilos e alimentava uma porção de gente. Com o tempo, pound cake passou a designar qualquer bolo cujos ingredientes tivessem o mesmo peso, qualquer que fosse esse peso. E o bolo continuou se transformando. Hoje em dia, pound cake é sinônimo de bolo simples, normalmente feito em assadeira do tipo daquelas usadas para fazer pão ou bolo inglês. Lembra-se do bolo Pullman de muitos anos atrás? É isso. Receitas maiores costumam ser feitas em assadeiras redondas, de furo, ou do tipo Bundt (uma assadeira redonda toda trabalhada, que deixa o bolo lindo!).

O bacana do pound cake é que ele pode ser servido assim, sem nada, ou, então, com um pouquinho de açúcar de confeiteiro peneirado por cima, com algum glacê ou com cobertura de chocolate, por exemplo. Sua simplicidade permite que ele seja acompanhado de manteiga, geleia, doce caseiro, pasta de amêndoa… E o melhor: ele combina com tudo: café, chá (quente no inverno, gelado no verão), chocolate quente, leite frio, suco… É uma felicidade!

(Especula-se que o pound cake seja originário da França, onde, até hoje, ele conserva o nome de quatre-quarts (quatro-quartos), referindo-se às partes iguais dos quatro ingredientes.)

Então, que tal começarmos fazendo um bolo que costuma agradar a todo mundo?

 

 Bolo de Chocolate – Chocolate Pound Cake

 

Esta receita é grande. Você vai precisar de uma assadeira de um bom tamanho. Como em casa somos só dois que comem bolo, em vez de usar uma assadeira grande, costumo dividir a massa entre duas assadeiras daquelas de pães (as minhas são pequenas). Assim, um bolo fica para consumo imediato e o outro eu congelo. Não é genial?

Ingredientes :

 3 xícaras de farinha (mais cerca de 1 colher de sopa, para polvilhar a assadeira)

½ xícara de chocolate em pó*

½ colher (chá) de fermento em pó

½ colher (chá) de sal

1 xícara (225 g) de manteiga sem sal, na temperatura ambiente (mais um pouquinho para untar a assadeira)

5 ovos, na temperatura ambiente

3 xícaras de açúcar

1 colheres (sopa) de extrato de baunilha

6 colheres (sopa) de óleo de coco (90 ml)**

1 xícara de leite, na temperatura ambiente

Açúcar de confeiteiro para polvilhar (opcional)

*Não vale usar achocolatado! Nada de Nescau, Nesquick, Toddy… Todos contêm muito açúcar e pouco cacau. Dê preferência, se possível, a chocolate em pó 100% puro ou o mais próximo disso.

** A receita da qual adaptei esta aqui levava gordura vegetal. Usando óleo de coco no lugar, o bolo fica com um aroma delicioso. Use uma colher de sopa padrão (de 15 ml) como medida.

Preparo:

Unte uma assadeira, redonda ou retangular, com manteiga e polvilhe com cerca de 1 colher de farinha. Reserve.

Pré-aqueça o forno a 170 graus enquanto prepara a receita.

Em uma tigela, peneire a farinha, o chocolate em pó, o fermento e o sal. Misture e reserve.

Bata a manteiga, o óleo de coco e o açúcar na batedeira por vários minutos, até que a mistura esteja bem macia e leve. Acrescente a baunilha e bata um pouquinho mais. Use uma espátula para raspar os lados da tigela da batedeira.

Adicione um ovo de cada vez e bata por vários segundos entre um ovo e o outro, raspado os lados de vez em quando.

Despeje um pouco de leite, bata e acrescente um pouco da mistura da farinha. Continue assim, alternando o leite e a farinha até que estejam bem incorporados e a massa esteja homogênea e leve. Tome cuidado para não bater demais nesta etapa.

Despeje a massa na assadeira e leve ao forno por cerca de uma hora. Aqui vai depender um pouco do forno que você tem. A melhor maneira de saber se o bolo está completamente assado continua sendo o teste do palitinho de dente! Deixe esfriar uns minutos, depois retire da assadeira e deixe esfriar mais um pouco. Se quiser, polvilhe com açúcar de confeiteiro.

Voilà ! Este bolo não precisa de mais nada, mas se quiser deixá-lo incrível, sirva com um pouquinho de creme de amêndoas feito em casa (receita facílima a seguir). É puro prazer!

(Versão do bolo adaptada da receita original de Trisha Yearwood – Trisha’s Southern Kitchen – para Food Network)

 

Creme de amêndoas

Pré-aqueça o forno a 180 graus.

Distribua cerca de 1 xícara de amêndoas em uma assadeira. Você pode escolher se quer usar amêndoas com pele ou sem. A pele não altera o sabor, só deixa o creme mais escurinho.

Leve ao forno por cerca de 5 a 10 minutos.

Retire as amêndoas e despeje em um processador. Bata ou pulse por vários minutos. A princípio, as amêndoas vão virar pó. Continue batendo, raspando os lados do processador com uma faca ou espátula, e verá a mágica acontecer: o pó começará a virar uma pasta. Continue batendo um pouco mais, até atingir uma consistência bem macia e cremosa. O processo todo leva em torno de 10 minutos.

Obs.: O creme de amêndoas não é doce, já que amêndoas são o único ingrediente. Ele fica uma delícia assim, mas, se preferir, acrescente um pouco de mel ou de xarope de bordo (maple syrop) depois que o creme estiver pronto. Basta bater um pouco mais. Você pode acrescentar um pouquinho de baunilha também. Agora, sério, não há necessidade de nada disso!

 

 

A manteiga e o caramelo

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A manteiga existe há vários milênios, mas até virar isso que passamos no pão nosso de cada dia, muita coisa aconteceu. Antes ela era feita de leite de cabra ou de ovelha. Foi só bem mais tarde, com a domesticação do gado, que se passou a confeccioná-la com leite de vaca. Aí, em alguma altura do campeonato, começaram a adicionar sal, um conservante natural, ao creme para que ela durasse mais. No início, manteiga era coisa de camponeses pobres; mais tarde, caiu nas graças da nobreza. A história é longa… Aqui na França, um rei lá da Idade Média* resolveu impor uma taxa alta sobre o preço do sal em quase todo o território francês. As pessoas tiveram de parar de botar os cristaizinhos na manteiga. Aliás, tiveram de parar de botá-los em muitas outras coisas: o sal tinha virado artigo de luxo. Só que a Bretanha era, na época, uma província governada como se fosse uma nação separada dentro do reino e acabou ficando isenta de pagar esse tal de imposto. Ainda por cima, a região produzia o próprio sal. Com acesso fácil ao produto, os bretões continuaram acrescentar sal a tudo, inclusive à manteiga. Desde então, a manteiga salgada bretã adquiriu excelência e fama. Não é de se admirar que o caramelo salgado (e é aqui que eu queria chegar) tenha sido inventado lá, séculos mais tarde. A data de sua origem é meio incerta, mas foi no final da década de 1970 que ele começou a se popularizar graças a um chocolatier** que, para se diferenciar de seus concorrentes, criou um bombom usando chocolate, amêndoas e caramelo feito com um pouquinho da manteiga salgada local. Foi sucesso absoluto. De uns anos para cá, o caramel au beurre salé virou moda no mundo todo e aparece em forma de balas, bombons e também em calda, como essa da foto acima, cuja receita – fácil, fácil – eu deixo aqui. Quem não conhece pode se assustar: caramelo salgado? Não, não: você sente um pouquinho do sal, sim, mas a calda continua sendo bem doce, não se preocupe. Fica ótimo por cima de frutas, sorvetes, pipocas, crepes ou panquecas, rabanadas e bolos, como o brownie, por exemplo.

*Rei Philippe VI de Valois, em 1343.

**Chocolatier Henri Le Roux, em Quiberon, na Bretanha.

 

Caramelo com manteiga salgada (Caramel au beurre salé)

Ingredientes:

½ xícara de açúcar

2 colheres (sopa) de manteiga com sal

200 ml de creme de leite integral e fresco (procure não usar creme de leite de latinha porque o sabor dele é intenso e o resultado será diferente)

Preparo:

Leve uma panela com o açúcar ao fogo baixo. Deixe caramelizar, sem mexer, até ficar com aquela corzinha bem dourada. Se necessário, gire a panela de vez em quando para que o açúcar derreta uniformemente. Cuidado para que não passe do ponto: a gente sabe que caramelo queimado é amargo!

Retire do fogo, junte a manteiga e mexa bem.

Acrescente o creme de leite, leve de volta ao fogo baixo e mexa constantemente, até que o caramelo esteja bem homogêneo. Sirva morno ou frio. Se o puser na geladeira, ele vai ficar cremoso: uma delícia para comer às (pequenas) colheradas!

Obs.: Empelotou? Sem problema: leve ao fogo bem baixinho de novo e mexa até derreter.

 

Roquefort & Gorgonzola

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Alguns dizem que o Roquefort é o rei dos queijos franceses. Outros, que ele pode até não ser o rei dos queijos, mas é o queijo dos reis. Ou era, já que não há mais reis na França há um bom tempo. De qualquer forma, são produzidas quinze mil toneladas de Roquefort por ano, e oitenta por cento dessa quantidade toda é destinada ao consumo interno. É mesmo um caso de amor entre os franceses e um queijo de cheiro peculiar e sabor intenso.

Parece que o queijo de veias azuladas foi criado por acaso. Reza a lenda que, lá pelo século XI, um jovem pastor descansava numa gruta quando viu uma moça passar a distância. Ela era linda, e ele adorava um rabo de saia. Encantado, ele largou para trás sua bolsa com o queijo que pretendia comer no almoço e foi atrás da jeune femme. Ao voltar à gruta, meses mais tarde, viu que seu queijo havia sofrido uma transformação graças à ação de um fungo local (Penicillium roqueforti). O jovem experimentou o queijo mofado e adorou seu sabor forte e salgadinho. Daí, virou o que virou.

Em 1979, o Roquefort recebeu o selo de A.O.C. (Appellation d’Origine Contrôllée), que, até então, era dado somente a vinhos. Em 1996, ganhou o selo de A.O.P. (Appellation d’Origine Protégée). Recebem esses selos produtos que seguem regras bem específicas e rigorosas. No caso do queijo, ele só pode ser chamado de Roquefort se for produzido com leite cru das ovelhas da raça Lacaune da cidade de Roquefort e região (uma área de cerca de 150 quilômetros ao redor da cidade, no sudoeste da França); três-quartos da alimentação dessas ovelhas devem vir do solo dessa mesma região e, por fim, o queijo deve ser maturado nas grutas de Roquefort-sur-Soulzon durante um período de três a nove meses. As veias azuladas são criadas pelo fungo e resultam da ação da umidade e temperatura que se mantêm constantes dentro dessas grutas.

O Roquefort tem vários primos estrangeiros, como o inglês Stilton e o dinamarquês Danish Blue. Mas, sem dúvida, seu parente mais famoso é o italiano Gorgonzola, que parece ter nascido lá pelo século IX, na cidadezinha de Gorgonzola, pertinho de Milão.

O queijo Gorgonzola é feito de leite de vaca pasteurizado. Ele também tem um selo de proteção, o D.O.P. (Denominazione d’Origine Protetta), porque tanto os franceses quanto os italianos adoram preservar seus produtos mais queridos de invencionices e modificações. Fazem muito bem.

O Gorgonzola Piccante é figura fácil nos supermercados do Brasil. Mas há também um outro tipo, menos conhecido pelos brasileiros, o Gorgonzola Dolce, que de doce não tem nada. Ele leva esse nome porque possui menos veias, é mais cremoso e bem mais suave que o outro.

A origem do Gorgonzola, dizem, também está ligada a um jovem que tomava conta de um rebanho e ajudava a fazer queijos. Certa vez, ele resolveu dar uma escapada: deixou o trabalho e foi passar a noite nos braços da amada. Voltou ao trabalho ao amanhecer e, para que sua escapulida não fosse descoberta, juntou o coalho do dia anterior, que já não estava lá grande coisa, ao daquela manhã. O resultado foi que, assim, acabou criando um queijo que continuava macio mesmo quando envelhecido. O jovem furou o queijo para ver se conseguia secá-lo, e os furos acabaram causando mofo. E così è nato e il Gorgonzola. Ou assim o dizem.

O fungo do Gorgonzola é introduzido no leite junto com o coalho. Dias depois, fura-se o queijo com varetas fininhas de cobre ou aço para que o fungo se prolifere. Se observarmos um pedaço do queijo, poderemos ver algumas riscas onde foram feitos os furinhos. O Gorgonzola é maturado por um período de 50 (Dolce) a 80 dias (Piccante). Para receber esse nome, ele deve ser produzido nas regiões da Lombardia ou do Piemonte.

Os italianos fazem mais de 4 milhões de formas de Gorgonzola anualmente, das quais 91% é do tipo Dolce. Cerca de 16 mil toneladas são exportadas. É bastante queijo!

A semelhança entre as lendas que contam a origem dos dois queijos é interessante. Fica difícil saber de verdade qual surgiu primeiro, como e quando. Mas quem se importa, não?

Mas uma coisa é certa, é melhor degustar o produto verdadeiro: substituí-lo por um queijo azul de baixa qualidade dificilmente vai proporcionar uma experiência prazerosa, já que quase certamente a imitação será forte ou salgada demais.

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Gorgonzola com Mascarpone. Genial!

 

E por falar em experiências prazerosas…

 

Os dois queijos podem ser saboreados como petisco, acompanhados de torradinhas, tiras de aipo, frutas ou compotas e um bom vinho… E também são excelentes no preparo de pratos. Aqui vão cinco sugestões de como usar um ou outro na culinária:

  1. Faça uma salada de folhas verdes variadas, acrescente nozes caramelizadas (basta derreter um pouco de açúcar junto com algumas nozes quebradas), um punhadinho de uvas-passas (ou, melhor ainda, cranberries desidratados!), e seu queijo azul preferido, em pedacinhos. Tempere com um belo vinagrete feito de vinagre balsâmico e azeite extra virgem. Misture delicadamente e sirva.

 

  1. Acrescente um pouco de Gorgonzola junto com o queijo parmesão de praxe no final do preparo de um risoto basiquinho.

 

  1. Numa frigideira com um fio de azeite, sele pequenos medalhões de filé mignon (de mais ou menos 100 g cada) dos dois lados. Não precisa fritá-los completamente porque irão ao forno. Tempere com sal e pimenta (pouco sal: o queijo já é salgado!). Cubra cada pedaço de carne com um pedacinho de Roquefort e um pouquinho de alecrim fresco. Embrulhe os medalhões em massa folhada, formando ‘pacotinhos’. Você vai precisar abrir a massa e cortar alguns retângulos para fazer os pacotinhos. Arrume cada medalhão numa metade de cada retângulo, cubra com a outra metade e aperte os dois lados para que fechem bem. Pincele a parte de cima com um ovo batido e leve ao forno pré-aquecido para acabar de assar a carne e dourar a massa folhada (siga as instruções da embalagem da massa).

 

  1. Aproveite o friozinho para fazer uma polenta bem molinha e servi-la como se faz em Bergamo, a terra da polenta: por cima de um pedaço de Gorgonzola Dolce.

 

  1. Derreta um pedaço de Roquefort ou Gorgonzola com um pouquinho de creme de leite fresco. Tempere com pimenta (e sal, se preferir) e sirva por cima do bife ou hambúrguer. Fácil, fácil.

 

Fontes:

academiabarilla.com

http://www.gorgonzola.com/il-formaggio-gorgonzola-le-origini/

http://www.saporinews.com/2014/04/dati-di-vendita-lo-confermanoil-formaggio-gongorzola-e-piu-forte-della-crisi/

https://fr.wikipedia.org/wiki/Roquefort_(fromage)

 

 

 

 

 

Affogato al Caffè

Está preparando um jantarzinho para amigos, mas não vai ter tempo para fazer a sobremesa? Servir um Affogato al Caffè pode ser a solução. É doce, mas não doce demais e leva só o tempo de preparar o café. Mais fácil, impossível! Olha como se faz:

Faça café suficiente para o número de convidados (use uma xícara das de café como medida para cada um) e adoce-o, se quiser. Vale até café descafeinado, se preferir.

Em um copo ou taça, coloque de duas a três bolas de sorvete de baunilha, fior di latte ou creme e despeje o café por cima (verifique se a taça aguenta o choque de temperaturas!). Repita de acordo com o número de pessoas.

Para deixar a sobremesa mais interessante, você pode lambuzar o fundo da taça com Nutella ou calda de chocolate e/ou polvilhar o sorvete com raspas de chocolate. Muitos restaurantes italianos servem o sorvete com panna montata (creme de leite fresco batido) por cima. Mas, aí, já começa a complicar, não?

Pois é, isso é só sorvete com café… Mas se a chamarmos de Affogato al Caffè, a sobremesa muda de nível, concorda?

(Affogato al Caffè. Feito Peixe Fora d'Água)
(Affogato al Caffè. Feito Peixe Fora d’Água)

Nova Orleans: o jazz, a culinária e o French Quarter

(Foto de Feito Peixe Fora d'Água, em set/98)
(Foto de Feito Peixe Fora d’Água)

O jazz

O jazz surgiu no final do século XIX, depois do blues e do ragtime, e seu aparecimento não está bem registrado. As primeiras gravações foram feitas quando a tecnologia era ainda bastante limitada. Há também controvérsia quanto ao seu berço. Mas não há como negar que o gênero musical foi fortemente influenciado pela cultura Creole de Nova Orleans.

Muitos músicos negros Creoles pertenciam à classe alta de Nova Orleans e frequentemente eram educados em Paris. Voltavam com um conhecimento amplo e formal de música e tocavam com técnicas precisas. Mesmo os que não iam até a Europa costumavam aprender a tocar instrumentos europeus.

Em contraste, do outro lado da cidade habitavam escravos recém-libertados. Os ex-escravos tocavam blues e música gospel de ouvido e com muita improvisação. Os negros ricos e os ex-escravos viviam em dois mundos à parte… até que veio uma lei segregatória que obrigou os negros livres Creoles a se mudarem para o outro lado da cidade, aquele onde viviam os ex-escravos. Do encontro dessas duas culturas distintas nasceu o traditional New Orleans jazz.

(Nos clubes, nas casas de shows, nas ruas... o jazz está em todos os lados de Nova Orleans. fpfd)
(Nos clubes, nas casas de shows, nas ruas… o jazz está em todos os lados de Nova Orleans. FPFD)

A história do jazz é bem longa e tem muitas ramificações. Com o tempo, surgiram variações como o gypsy jazz, o cool jazz,, smooth jazz… Aqui vai só uma pincelada bem superficial. Para saber mais, dê uma olhada nas fontes no final do post.

Curiosidades:

-Louis Armstrong, um dos mais importantes e conhecidos intérpretes do jazz, nasceu em Nova Orleans em 4 de agosto de 1901.

-Jazz costumava ser tocado em funerais de pessoas ilustres da cidade.

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A culinária

(Foto de Feito Peixe Fora d'Água)
(Foto de Feito Peixe Fora d’Água)

Tanto Creole quanto Cajun são termos largamente empregados para designar a culinária de Nova Orleans. Essas são duas culturas diversas e, portanto, seus estilos são diferentes, apesar de ambas usarem condimentos fortes e ingredientes parecidos. Para quem é de fora, não é tão fácil assim distingui-las.

Originalmente, a cozinha Creole era mais aristocrata e urbana. Era preparada por escravos de membros da sociedade e usava grande abundância de ingredientes. Os primeiros Cajuns*, no entanto, viviam em zonas rurais. Sem acesso a nenhum tipo de refrigeração ou a outras modernidades da cidade, tinham que se virar com o os recursos que conseguiam, e o faziam com muito talento. Da necessidade de não desperdiçar nada surgiram linguiças e salsichas como Boudin e Andouille, por exemplo.

(Foto de Feito Peixe Fora d'Água)
(Foto de Feito Peixe Fora d’Água)

Gumbo, Jambalaya, Crawfish Étouffée, Shrimp Creole, Po-Boy, Red Beans’n’Rice e Beignets estão entre os pratos locais mais conhecidos. Mas a variedade é imensa! E deliciosa! Pelas ruas do French Quarter se sente também o cheirinho tentador das Pralines vindo das diversas lojas que fazem o doce de açúcar derretido e amêndoas diariamente.

*No post anterior, há um pouquinho da história dessas duas culturas. Para lê-lo, clique aqui.

(Beignets com café au lait. FPFD)
(Beignets com café au lait. FPFD)

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O French Quarter

(Varanda típica do French Quarter. FPFD)
(Varanda típica do French Quarter. FPFD)

O French Quarter é o bairro mais antigo – e vibrante – de Nova Orleans. Como fica numa região um pouco mais elevada que o restante da cidade, acabou sendo bem mais poupado da destruição causada pelo Katrina, em agosto de 2005, que outras regiões da cidade. Com a força do furacão, barragens inadequadas que protegiam a cidade das águas do Rio Mississippi e do Lago Pontchartrain partiram, e 80% da cidade ficou semanas inundada. Mas o French Quarter teve sorte.

(Foto de Feito Peixe Fora d'Água)
(Foto de Feito Peixe Fora d’Água)

A arquitetura do French Quarter é uma mistura de estilos francês, espanhol, americano e Creole – singular, linda e icônica.

É ali que fica a famosa Bourbon Street. E é no French Quarter que você provavelmente vai querer se hospedar, se for a Nova Orleans. O que não falta é diversão: restaurantes, lojas, casas de música, pequenos museus e casarões históricos, e muito mais.

(Foto de Feito Peixe Fora d'Água)
(Foto de Feito Peixe Fora d’Água)

Aqui vão algumas das atrações preferidas do local:

Museus:

-National World War II Museum: (um pouco afastado do French Quarter. Vá de táxi.)  para quem se interessa pelo assunto, este é um dos maiores museus sobre a Segunda Guerra Mundial que existem. O museu tem várias exposições e, em destaque, uma bastante detalhada sobre a invasão da Normandia pelos aliados,  além de um filme narrado por Tom Hanks. O filme, ‘Beyond All Frontiers’, apresenta uma perspectiva ampla da Guerra e é excelente. Imperdível. Único possível problema: como costuma acontecer nos museus americanos, tudo é só em inglês. Mas não deixe de visitá-lo mesmo assim.
945 Magazine Street, no ‘Historic Warehouse District’ (www.ddaymuseum.org)

-The Presbytère: o museu era dedicado originalmente ao Mardi Gras* de Nova Orleans. Mas, depois que a cidade se recuperou o suficiente da devastação causada pelo Katrina, o lugar passou a usar parte do seu espaço para registrar o desastre, contando o que aconteceu e mostrando relatos de pessoas envolvidas. O museu é para quem quer saber um pouco mais sobre uma das maiores catástrofes que o país já sofreu. Depois, é só prosseguir e levantar o ânimo com a exposição dedicada aos montes e montes de fantasias de Mardi Gras.
751 Chartres Street, Jackson Square

*Mardi Gras é o carnaval de Nova Orleans. Bem diferente do brasileiro…

(Foto de Feito Peixe Fora d'Água)
(Foto de Feito Peixe Fora d’Água)

Southern Food and Beverage Museum and Museum of the American Cocktail: um museu dedicado à comida e à bebida que conta a história de como os diferentes grupos étnicos contribuíram para que a culinária da cidade seja o que é. É também um passeio pela história de 200 anos de coquetéis no país. Muito instrutivo e divertido. Atenção: fecha às terças.
1 Poydras Street, no ‘Riverwalk Marketplace Mall’ (www.museumofthearicancocktail.org e www.southernfood.org)

Atrações:

(Foto de Feito Peixe Fora d'Água)
(Foto de Feito Peixe Fora d’Água)

-Preservation Hall: fundada com a finalidade de preservar o jazz tradicional de Nova Orleans, essa instituição é formada por uma banda de músicos que toca sem finalidade lucrativa. O lugar é minúsculo, escuro e meio caindo aos pedaços. Não há ar condicionado (aquilo fica um forno no verão) nem lugares confortáveis para se sentar. Em algum momento você vai se perguntar o que é que você está fazendo ali… Até aqueles senhores começarem a tocar e cantar. Ah, aí, tudo fica claro! Experiência única e inesquecível. Há três shows por noite, de cerca de 50 minutos cada. A fila na porta é sempre grande e nem todos conseguem lugar. Compre ingressos com antecedência pela internet e evite a fila e a decepção.
726 Street, Peter Street (http://preservationhall.com/hall/)

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(Prédio onde fica o ‘Preservation Hall’. FPFD)

Onde comer:

Há inúmeros restaurantes fantásticos. Aqui vão só algumas sugestões:

-Café du Monde: Paraíso dos beignets (massinha frita e passada no açúcar, meio que um ‘doughnut’ francês) com café au lait – o café aqui é feito à moda do sul: com um pouco de chicória. Não torça o nariz e experimente!
800 Decatur (www.cafedumonde.com)

-Johnny’s Po-Boys: as toalhas das mesas são de plástico, assim como os pratos e talheres. O lugar tem cara de pé sujo, mas é autêntico e muito bom no que se propõe a fazer. Lá eles servem vários exemplos da culinária local, inclusive, obviamente, o Po-Boy: sanduíches típicos de camarão, frango, linguiça, etc.

511 St. Louis Street (http://johnnyspoboys.com)

-Muriel’s Jackson Square: este é  bem diferente da lanchonete acima. Fica no coração do French Quarter e é um dos melhores restaurantes da cidade. Excelente cozinha, decoração aconchegante e elegante sem ser em nada pretensioso. Se tiver que escolher um só lugar para jantar, é ele.

801 Chartress Street (http://www.muriels.com/index.html)

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Há muito, muito mais. Faça uma pesquisa ou explore o lugar na hora e você certamente vai descobrir maravilhas. Divirta-se!

Para mais fotos e dicas, dê uma olhada na página do Feito Peixe Fora d’Água do Facebook e no Instagram.

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Fontes:

redhotjazz.com

louisianatravel.com

neworleanscvb.com

neworleansonline.com

nola.com

wikipedia.com

Frommer’s USA 2011

Sete estados em três semanas

O Marido, o Filho e eu resolvemos fazer um ‘road trip’ pela costa leste dos EUA, começando na Louisiana e indo até a Pennsylvania. A ideia é fazer sete estados em três semanas. Passaremos pelo berço do jazz, do blues, do rock’n’roll e da música country. Quer vir com a gente? Então corre, que o avião para Nova Orleans está saindo!!Screen Shot 2015-07-21 at 16.57.39

Dicas e fotos no Facebook e Instagram.

Pesto Genovese

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O molho pesto que conhecemos hoje nasceu lá pelos lados de Gênova, na região italiana da Ligúria. No entanto, os romanos antigos já comiam uma pasta feita de queijo, alho e ervas séculos antes. Vindo do Oriente Médio, o manjericão apareceu mais tarde, tanto na Ligúria quanto na Provença, e substituiu as outras ervas. O pesto italiano e o pistou francês são parentes próximos, mas não são idênticos.

Tradicionalmente, o pesto leva apenas sete ingredientes, que devem ser da melhor qualidade: manjericão, azeite extravirgem, alho, queijo Parmesão, queijo Pecorino, pinoli e sal. Segundo os puristas, o tamanho das folhas de manjericão é importante: precisam ser novas e, portanto, pequenas (tem a ver com a quantidade de óleos essenciais que influenciam o sabor).  Eles ainda especificam a origem da erva, assim como a do azeite (devem ser da Ligúria).

Mas como não poderia deixar de ser, o molho tem variações. Dizem até que cada família na Ligúria tem sua ‘receita secreta’ (difícil imaginar tantas alternativas, não?). Algumas receitas levam salsa, rúcula, creme, ricota, nozes em vez de pinoli, etc. Ah, mas aí já não é mais Pesto Genovese e, sim, Pesto alla Genovese. Para os puristas, a diferença é muito importante! Então, para assegurar a proteção da receita original, criou-se Il Consorzio del Pesto Genovese, que é reconhecido pelo Ministério da Agricultura e que tem um estatuto com 15 artigos. Rigorosíssimo! Pois é…

A receita tradicional pede que os ingredientes sejam amassados num pilão, com movimentos rotatórios. Quem não tem nem tempo nem paciência pode usar um processador ou liquidificador. Nesse caso, para garantir que o molho não fique escuro (devido à oxigenação), recomenda-se deixar a lâmina e o copo do processador ou liquidificador na geladeira por um tempo antes de utilizá-los. Outra coisa que ajuda o molho a não escurecer é enxugar bem as folhas de manjericão depois de lavá-las. Parece que gotinhas de água e alta temperatura são inimigas do pesto verdinho.

Feito o pesto, basta cozinhar a pasta, a batata e a vagem. Como é que é? Batata e vagem?! Explico: um bel piato di pasta al pesto normalmente é servido com batatas em cubinhos e vagens cortadas, que são cozidas na mesma panela com a massa.  Ao escorrer a massa, reserve um pouco da água e, quando tudo estiver cozido, misture o pesto e algumas colheres da água reservada. O amido tanto da massa quanto da batata ajuda a dar cremosidade ao molho. Acha estranho servir batata e massa num mesmo prato? Funciona, prometo.

Aqui vai uma receita genovesa quase oficial (sejamos maleáveis!)

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Ingredientes para o molho pesto

1 maço de manjericão de cerca de 50g (procure folhas não muito grandes)

2 dentes de alho

70g (6 colheres de sopa) de queijo Parmigiano Reggiano, ralado (se não achar o queijo italiano, um Parmesão nacional de ótima qualidade faz as vezes)

30g (cerca de 2 colheres de sopa) de queijo Pecorino, ralado (não tem? Use mais Parmesão)

100ml de azeite de oliva extravirgem

15g (cerca de 1 colher de sopa) de pinoli (pine nuts) ou nozes.

1 pitada de sal

Ingredientes para a massa

250g de batatas (cerca de duas batatas médias), cortada em cubinhos

200g de vagem, cortadas em três

350g de trofie, penne ou outra massa de sua preferência

Preparo

Em um processador ou liquidificador recém-tirado da geladeira, junte todos os ingredientes, menos o azeite. Pulse e desligue algumas vezes, adicionando um pouco de azeite por vez, até obter um creme (não precisa ficar muito homogêneo).

Coloque a massa e os cubinhos de batata para cozinhar em uma panela grande com bastante água e um pouco de sal. Mexa durante os primeiros minutos. Siga as instruções da embalagem da massa quanto ao tempo de cozimento. Cerca de cinco minutos antes de a massa estar pronta, acrescente a vagem. Quando tudo estiver cozido, escorra, reservando algumas colheres da água. A massa deve estar al dente e as batatas, macias. Se não tiver certeza de que acertará o tempo de cozimento usando uma panela só para as três coisas, cozinhe os ingredientes separadamente.

Coloque a massa, a batata e a vagem em uma vasilha grande, despeje o molho pesto e um pouquinho da água reservada. Misture bem, polvilhe um pouco de queijo Parmesão por cima e sirva em seguida. Buon appetito!  (Rende de 3 a 4 porções.)

Obs. O pesto congela bem. Se quiser, faça o dobro da receita e congele a metade. Ele também descongela com facilidade.

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E por falar em Itália…

Para entrar ainda mais no clima, que tal abrir um vinho e ver filminho italiano? Aqui vão algumas sugestões:

E outros dois deliciosos, que não são italianos, mas se passam na Itália:

Fontes:

Mangiare in Liguria

Giallo Zafferano