Madeleines – curiosidades e receita

Acabo de retirar do forno uma forma de madeleines e aproveito para escrever enquanto elas esfriam um pouco. Essas pequenas maravilhas em forma de conchinha são um clássico da pâtisserie francesa. Sua receita sofreu modificações com o passar do tempo e ficou bem mais leve. Uma madeleine muitas vezes é bem o que a gente quer para completar o cafezinho passado na hora. Porque, honestamente, todo cafezinho deveria vir acompanhado de um pequeno mimo, como um chocolatinho, uma bolachinha ou uma delicada madeleine (ou duas ou três). 

Como geralmente acontece, a origem das receitas antigas se perdeu no tempo; a das madeleines não é exceção. São diversas as lendas em torno da sua invenção. No entanto, todas têm em comum o lugar de seu nascimento: a cidade francesa de Commercy, na região de Lorraine (Lorena). O que não se sabe é quem a pariu. São quatro as possibilidades mais aceitas. Aqui vão elas:

O mais antigo registro diz que as madeleines vêm lá da Idade Média. Eram pequenos brioches assados dentro de conchas de verdade. Dado o seu formato, alguns acreditam que eram destinadas aos peregrinos que passavam por ali a caminho de Santiago de Compostela. 

Outra versão afirma que quem criou essas delícias foi Madeleine Simoni, em 1661, quando esta era cozinheira de um importante cardeal da época(1). O alto dignatário da Igreja Católica adorava as guloseimas e deu-lhes o nome de madeleines. Muito apropriado!

Há quem fale que as madeleines aparecerem mais para a frente, em 1755, por causa de uma briga. Parece que um certo dia, um renomado duque de Lorena(2) ia oferecer um de seus banquetes habituais, só que, horas antes da festa, o pâtissier do duque aprontou um barraco na cozinha, arrancou o avental e saiu porta afora, pisando duro. Imaginou a cena? Por sorte, uma serviçal que ajudava na cozinha juntou alguns ingredientes às pressas e fez uns biscoitos que sua avó lhe havia ensinado. O nome da serviçal era Madeleine. Claro… (Mas, convenhamos, os biscoitos deveriam ter levado o nome da avó dela, concorda?)

Finalmente, há ainda a versão de que foi Jean Avice(3), um dos cozinheiros de uma outra notável figura da política francesa(4), que, num belo dia, resolveu misturar uns ingredientes assim, rapidinho, assar a massa em pequenos recipientes em formato de conchas e batizar as bolachas com o nome de sua amada, Madeleine. 

Fazer as madeleines é muito mais simples que tentar escolher qual a versão que convence mais. Leva cinco minutinhos para misturar os ingredientes e pouco mais de dez para assá-las. O tempo de fazer o cafezinho.  🙂

***Dando nome aos bois, isto é, às figuras históricas:

(1) Cardeal Jean-François-Paul de Gondi– para situar rapidamente o personagem na história, Gondi foi cardeal na época em que Anne da Áustria (viúva do rei francês Louis XIII) governou como regente de seu filho, Louis XIV, durante sua minoridade. Gondi foi um dos principais articuladores da rebelião chamada ‘as Frondas’, contra a rainha e seu conselheiro, o cardeal Marazin.

(2) Duque Charles-Maurice de Talleyrand-Périgord, político francês e diplomata (e grande gourmant!). Teve uma carreira bastante longeva e influente que transitou pela Revolução Francesa, pelos anos de Napoleão, e continuou ilesa durante a volta da monarquia, nos reinados de Louis XVIII e Louis-Philippe. Era amado por uns e odiado por outros, como é de se esperar, já que ele passou por esses regimes todos…

(3) Jean Avice, chef pâtissier da Bailly, a melhor pâtisserie parisiense de sua época (início do século XIX). Foi mestre do célebre Marie-Antoine Carême (mas esta é história para um outro post).

(4) Stanislaw I, rei deposto da Polônia. Teve de sair de seu país e veio parar na França, onde acabou virando duque da região de Lorena. O ex-rei, então duque, casou sua filha, Marie Leszczynska, com o rei Louis XV.

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E agora, vamos à receita?  

Obs.: Se não tiver uma forma própria para madeleinesne t’inquiète pas ! Use forminhas de empada. Mas encha com só um dedinho ou dois de massa para que elas não fiquem umas bolachonas!

Madeleines

Ingredientes:

½ xícara + 2 colheres (sopa) de açúcar

Raspas de um limão 

2 colheres (sopa) de suco de limão

7 colheres (sopa) de manteiga (100g) + um pouquinho para untar a forma

1 colher (sopa) de mel

2 ovos grandes

1 colher (chá) de baunilha

1 xícara de farinha

½ colher (chá) de fermento em pó (pó Royal)

Preparo

Pré-aqueça o forno a 180°graus (170°graus, se seu forno for ventilado). Unte uma assadeira própria para as madeleines (ou formas de empada) com um pouco de manteiga e reserve.

Coloque a manteiga e o mel numa panela pequena e leve ao fogo para derreter. Se preferir, derreta-os no micro-ondas (comece com 1 minuto e meio e, se necessário, repita por mais alguns segundos). Deixe esfriar.

Numa vasilha pequena, peneire a farinha e o fermento em pó. Reserve.

Na tigela da batedeira, misture o açúcar com as raspas de limão usando os dedos ou uma colher. 

Junte os ovos e a baunilha à mistura de açúcar e limão e bata por alguns minutos, até que fique um creme amarelado. Acrescente o suco de limão e bata por mais uns segundos. Adicione a manteiga derretida já fria (ou, no máximo, morninha – para não cozinhar os ovos!) e bata um pouco mais para que tudo fique bem incorporado. Em seguida, adicione a farinha aos poucos e misture gentilmente até que a massa esteja bem homogênea. Despeje-a nas forminhas.

Leve a assadeira ao forno e asse por cerca de 12-13 minutos ou até que estejam douradas. Se estiver usando formas de empadas, talvez precise deixar mais uns minutos. Retire do forno e deixe esfriar um pouco antes de desenformá-las. Se sobrou massa crua, retire as madeleines que estiverem prontas, unte a forma novamente, despeje o restante da massa e leve ao forno até que dourem. Rende cerca de 18 unidades. 

Fontes:

La Très Belle et Très Exquise Histoire des Gâteux et des Friandises, Maguelonne Toussaint-Samat

Dinner Chez Moi, Elisabeth Bard

Le Guide Culinaire, Auguste Escoffier

Wikipedia

Salada César – história e receitas

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A origem da Salada César é meio controversa, assim como a de tantas outras receitas. A versão mais aceita, de acordo com o jornal britânico ‘The Telegraph’ (22 de setembro de 2003), é a de que ela foi inventada por um milanês chamado Caesare Gandini. Parece que a coisa aconteceu assim: Caesare e seu irmão, Alessandro, imigraram para São Diego, nos EUA, logo depois do fim da Primeira Guerra Mundial. Como a gente já viu em tantos filmes americanos que retratam aquela época, nos anos 1920 estava em vigor no país a ‘Lei Seca’, lei que proibia a fabricação, venda e transporte de bebidas alcóolicas. Os irmãos italianos resolveram abrir um restaurante, mas decidiram fazê-lo a um passinho da fronteira americana, lá em Tijuana, no México. O estabelecimento logo virou um sucesso e andava sempre cheio de americanos que, para escapar da lei, davam um pulinho no país vizinho a fim de beber um copo. Era mesmo essa a intenção dos dois irmãos.

Um certo dia, o restaurante acabou tendo movimento maior do que o normal, e já não restava quase nada na cozinha. Caesare teve que improvisar uma salada com os poucos recursos que ainda havia: alface romana (aquela das folhas mais claras e firmes), gema crua, azeite, alho, queijo Parmesão e ‘Molho Inglês’. Deu certo e a invenção foi batizada com o nome de seu criador. Ou suposto criador… Dizem lá que a ideia pode ter sido do garçom que trabalhava ali e que Caesare se apropriou dela. Até Alessandro, o irmão, quis tirar uma lasquinha da fama da salada: botou anchovas no molho e croutons (versão que também acabou se tornando bastante popular) e saiu por aí chamando a salada de sua. Não importa. Hoje a Salada César é conhecida como um dos ícones da cozinha americana. Ora, ora…

Se você também é fã dessa salada, possivelmente já se frustrou alguma vez ao pedi-la num restaurante e se deparar com um prato sem graça. Não é raro a alface estar muito gelada e o molho sem sabor ou, ao contrário, com excesso de alho. Aqui vão duas versões que faço e que costumam dar certo. Uma é à base de maionese e a outra leva gema crua e anchovas. Para uma refeição mais completa, você pode acrescentar peito de frango grelhado bem temperadinho (ou camarão também grelhado, salmão assado…). Espero que goste! Mas não deixe de adaptá-la ao seu gosto (um bocadinho mais disso, um pouquinho menos daquilo…).

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Salada César 

 Ingredientes para a salada (server 2 pessoas):

 Folhas de alface romana cortadas grosseiramente, o suficiente

2 xícaras de croutons (cubinhos de pão torrado – ver receita abaixo)

2 peitos de frangos, grelhados e fatiados (opcional)

Para os ‘croutons’:

Ingredientes:

 5-6 fatias de pão do tipo italiano (ou qualquer outro que seja firme e tenha crosta), cortadas em cubos

3 colheres (sopa) de azeite (+ um pouco para untar a assadeira)

1 colher (sopa) de salsa ou outra erva (fresca ou desidratada) de sua preferência, picada

Sal a gosto

Preparo dos ‘croutons’:

Pré-aqueça o forno a 180 graus.

Misture os cubos de pão com os outros ingredientes e distribua em uma assadeira levemente untada.

Leve ao forno até ficarem dourados (cerca de 5 minutos).

Você pode fritar o pão na frigideira usando manteiga em vez de assá-lo com azeite, se preferir.

Molho à base de maionese (receita I)

Ingredientes: 

1 a 2 dentes de alhos pequenos, amassados (alho cru é muito forte! Comece com 1 dentinho, experimente e, se gostar, use mais)

1 a 2 colheres (sopa) de suco de limão (aqui também, comece com 1 colher!)

1 xícara de maionese

1/2 xícara de queijo Parmigiano-Reggiano, de preferência ralado na hora*

1 colher (chá) de molho Worcestershire (‘Molho Inglês’)

1 colher (chá) de mostarda Dijon

Sal (se achar necessário)

Pimenta preta moída na hora, a gosto

*Obs.: Se possível, evite queijo ralado de saquinho, que costuma ter gosto muito forte e ser ressecado. Se não puder usar Parmigiano-Reggiano, tente um queijo Parmesão nacional de boa qualidade.

Preparo:

Em uma tigela pequena, misture bem os ingredientes do molho. Verifique se necessita de sal.

Em uma tigela maior, arrume a alface e, em seguida, despeje o molho, mexendo delicadamente.

Por cima, arrume as fatias de frango (se estiver usando) e os croutons.

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 Molho à base de gema de ovo e anchovas (receita II)

Ingredientes: 

1 a 2 dentes de alho pequenos, amassados (como disse na receita acima, comece com 1 dentinho, experimente e, se gostar, use mais)

1 gema bem fresca

2 anchovas pequenas conservadas em óleo, escorridas e sem a espinha do meio

1 colher (sopa) de suco de limão

6 colheres (sopa) de azeite (um pouco mais, se necessário)

1/2 colher (chá) de mostarda Dijon

1/2 xícara de queijo Parmigiano-Reggiano (ver a observação da receita I)

Sal e pimenta preta moída na hora, a gosto

Preparo:

Em um pilão, amasse bem as anchovas com um garfo. Junte o alho e a mostarda e amasse mais, até obter uma pasta. Passe essa pasta para uma tigela maior, acrescente as gemas e o suco de limão e misture bem. Aos poucos, vá despejando o azeite, enquanto mexe rapidamente, até emulsificar. Se estiver muito grosso ou azedo, use mais azeite, até que fique com a consistência e sabor de sua escolha. Adicione o queijo, a pimenta, verifique o tempero e acrescente sal, se precisar.

Junte as folhas de alface e mexa delicadamente.

Por cima, arrume as fatias de frango (se estiver usando) e os croutons.

Obs.: Gemas cruas, azeite e suco de limão, quando emulsificados, viram… maionese. As anchovas da receita II entram no lugar do ‘Molho Inglês’ da receita I. No fundo, é tudo mais ou menos a mesma coisa. 🙂

 

 

 

Ricota caseira

 

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De vez em quando me vem de fazer ricota aqui em casa e pensei em compartilhar a receita que eu uso com vocês. Aí, achei bacana pesquisar sua história para contá-la. Para minha surpresa, descobri que a ricota é um produto secundário, isto é, ela é feita do soro que fica da produção de outros queijos, como o gorgonzola, o taleggio, o provolone, por exemplo. Daí seu nome: ricotta, que significa ‘cozido de novo’, em italiano. Pode ser feita com leite de vaca, ovelha, búfala ou mesmo uma mistura deles. Como tantas outras maravilhas da cucina povera italiana (que faz uso de sobras ou de ingredientes simples para criar pratos deliciosos), a ricota era basicamente consumida por pastores que a misturavam na polenta ou a passavam no pão. Bom, não?

Mas vamos lá para o início. Há quem diga que a ricota teve sua origem na Grécia Antiga e que logo foi levada a várias regiões da Itália, como a Lombardia, o Piemonte e Lácio (área onde fica Roma). Outros afirmam que foi pelos árabes que ela chegou à Sicília e, de lá, se espalhou por todos os lados. De qualquer forma, a ricota como conhecemos hoje é verdadeiramente italiana.

Como não podia deixar de ser quando se trata de um produto fantástico italiano, dois tipos de ricota levam o título ‘D.O.P.’ (Denominazione di Origine Protetta): a romana (feita de leite de ovelha e sem sal, e, portanto, muito usada em sobremesas) e a ricotta di bufala campana (fresca, branquinha e bastante cremosa).

Para se obter a ricota tradicional, ferve-se o soro do leite em grandes tachos de metal até que partículas da proteína se separem e subam até a superfície. Essa massa que se formou é retirada e colocada em cestos para que o excesso de água escorra. Pronto, está no ponto e já pode ser comercializada.

Além da tradicional, existem ainda a ricotta salata (salgada) e a ricotta affumicatta (defumada), entre outras. Sua consistência também pode variar de acordo com a região e ela vai de bem cremosa a mais firme.

Se você tiver acesso à ricota italiana, aproveite! Caso o que encontrar no supermercado seja uma cópia de pouca qualidade, mais vale fazê-la em casa. Tudo de que vai precisar são uns poucos ingredientes e um coador de pano com seu suporte. Tão fácil e rápido! Se puser na ponta do lápis, a ricota caseira sai ligeiramente mais cara do que sua versão industrializada, mas seu sabor é incomparável.

Obs.: como vimos, a ricota verdadeira é feita com soro. Para fazer em casa, ela deve levar leite e creme em razão da pouca quantidade e, vá lá, porque é mais simples assim. Eu gosto da minha salgada e azedinha, então, capricho no sal e no limão. Mas você pode omitir o sal se preferir usá-la em doces (na torrada, com mel ou geleia, fica uma delícia!)

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Ricota com mel e raspas de laranja

Ecco la ricetta:

Ingredientes

750 ml de leite integral

250 ml de creme de leite fresco (quanto mais espesso, melhor. Mas não pode usar o de lata!)

½ colher (chá) de raspas de limão (opcional)*

2 colheres (sopa) de suco de limão siciliano, coado

1 colher (chá) de flor de sal ou ½ colher (chá) de sal de cozinha

*Eu costumo temperar minha ricota com flor de sal que já vem com umas raspinhas de limão. Na falta, por que não acrescentar um pouquinho delas ao sal normal, então, não? Raspe o limão antes de espremê-lo.

Obs.: Você vai precisar de um coador de pano (e seu suporte). Use uma fralda de pano dobrada algumas vezes no lugar do coador, se preferir.

Preparo:

Leve o leite, o creme de leite e o sal para ferver em uma panela grande, mexendo sempre. Assim que  levantar fervura, abaixe o fogo, acrescente o suco de limão e continue mexendo por mais um a dois minutos. Retire do fogo e deixe descansar por cinco minutos. Verifique se está bem coalhado antes de despejar no coador. Se estiver muito líquido, volte ao fogo e deixe ferver de novo. Se necessário, acrescente mais um pouquinho de limão. Deixe descansar uns minutos novamente.

Despeje o leite coalhado no coador (com uma tigelinha embaixo para receber o soro) e deixe escorrer durante meia-hora ou o tempo necessário. Se precisar, esprema um pouco o coador. Quanto menos soro restar, mais cremosa e seca ficará a ricota.

Agora experimente uma colherada e imagine só isso no pão quentinho!

 

Fontes:

InNaturale – Conoscere per assaporare

Galbani France

Culture: the word on cheese

A manteiga e o caramelo

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A manteiga existe há vários milênios, mas até virar isso que passamos no pão nosso de cada dia, muita coisa aconteceu. Antes ela era feita de leite de cabra ou de ovelha. Foi só bem mais tarde, com a domesticação do gado, que se passou a confeccioná-la com leite de vaca. Aí, em alguma altura do campeonato, começaram a adicionar sal, um conservante natural, ao creme para que ela durasse mais. No início, manteiga era coisa de camponeses pobres; mais tarde, caiu nas graças da nobreza. A história é longa… Aqui na França, um rei lá da Idade Média* resolveu impor uma taxa alta sobre o preço do sal em quase todo o território francês. As pessoas tiveram de parar de botar os cristaizinhos na manteiga. Aliás, tiveram de parar de botá-los em muitas outras coisas: o sal tinha virado artigo de luxo. Só que a Bretanha era, na época, uma província governada como se fosse uma nação separada dentro do reino e acabou ficando isenta de pagar esse tal de imposto. Ainda por cima, a região produzia o próprio sal. Com acesso fácil ao produto, os bretões continuaram acrescentar sal a tudo, inclusive à manteiga. Desde então, a manteiga salgada bretã adquiriu excelência e fama. Não é de se admirar que o caramelo salgado (e é aqui que eu queria chegar) tenha sido inventado lá, séculos mais tarde. A data de sua origem é meio incerta, mas foi no final da década de 1970 que ele começou a se popularizar graças a um chocolatier** que, para se diferenciar de seus concorrentes, criou um bombom usando chocolate, amêndoas e caramelo feito com um pouquinho da manteiga salgada local. Foi sucesso absoluto. De uns anos para cá, o caramel au beurre salé virou moda no mundo todo e aparece em forma de balas, bombons e também em calda, como essa da foto acima, cuja receita – fácil, fácil – eu deixo aqui. Quem não conhece pode se assustar: caramelo salgado? Não, não: você sente um pouquinho do sal, sim, mas a calda continua sendo bem doce, não se preocupe. Fica ótimo por cima de frutas, sorvetes, pipocas, crepes ou panquecas, rabanadas e bolos, como o brownie, por exemplo.

*Rei Philippe VI de Valois, em 1343.

**Chocolatier Henri Le Roux, em Quiberon, na Bretanha.

 

Caramelo com manteiga salgada (Caramel au beurre salé)

Ingredientes:

½ xícara de açúcar

2 colheres (sopa) de manteiga com sal

200 ml de creme de leite integral e fresco (procure não usar creme de leite de latinha porque o sabor dele é intenso e o resultado será diferente)

Preparo:

Leve uma panela com o açúcar ao fogo baixo. Deixe caramelizar, sem mexer, até ficar com aquela corzinha bem dourada. Se necessário, gire a panela de vez em quando para que o açúcar derreta uniformemente. Cuidado para que não passe do ponto: a gente sabe que caramelo queimado é amargo!

Retire do fogo, junte a manteiga e mexa bem.

Acrescente o creme de leite, leve de volta ao fogo baixo e mexa constantemente, até que o caramelo esteja bem homogêneo. Sirva morno ou frio. Se o puser na geladeira, ele vai ficar cremoso: uma delícia para comer às (pequenas) colheradas!

Obs.: Empelotou? Sem problema: leve ao fogo bem baixinho de novo e mexa até derreter.

 

Roquefort & Gorgonzola

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Alguns dizem que o Roquefort é o rei dos queijos franceses. Outros, que ele pode até não ser o rei dos queijos, mas é o queijo dos reis. Ou era, já que não há mais reis na França há um bom tempo. De qualquer forma, são produzidas quinze mil toneladas de Roquefort por ano, e oitenta por cento dessa quantidade toda é destinada ao consumo interno. É mesmo um caso de amor entre os franceses e um queijo de cheiro peculiar e sabor intenso.

Parece que o queijo de veias azuladas foi criado por acaso. Reza a lenda que, lá pelo século XI, um jovem pastor descansava numa gruta quando viu uma moça passar a distância. Ela era linda, e ele adorava um rabo de saia. Encantado, ele largou para trás sua bolsa com o queijo que pretendia comer no almoço e foi atrás da jeune femme. Ao voltar à gruta, meses mais tarde, viu que seu queijo havia sofrido uma transformação graças à ação de um fungo local (Penicillium roqueforti). O jovem experimentou o queijo mofado e adorou seu sabor forte e salgadinho. Daí, virou o que virou.

Em 1979, o Roquefort recebeu o selo de A.O.C. (Appellation d’Origine Contrôllée), que, até então, era dado somente a vinhos. Em 1996, ganhou o selo de A.O.P. (Appellation d’Origine Protégée). Recebem esses selos produtos que seguem regras bem específicas e rigorosas. No caso do queijo, ele só pode ser chamado de Roquefort se for produzido com leite cru das ovelhas da raça Lacaune da cidade de Roquefort e região (uma área de cerca de 150 quilômetros ao redor da cidade, no sudoeste da França); três-quartos da alimentação dessas ovelhas devem vir do solo dessa mesma região e, por fim, o queijo deve ser maturado nas grutas de Roquefort-sur-Soulzon durante um período de três a nove meses. As veias azuladas são criadas pelo fungo e resultam da ação da umidade e temperatura que se mantêm constantes dentro dessas grutas.

O Roquefort tem vários primos estrangeiros, como o inglês Stilton e o dinamarquês Danish Blue. Mas, sem dúvida, seu parente mais famoso é o italiano Gorgonzola, que parece ter nascido lá pelo século IX, na cidadezinha de Gorgonzola, pertinho de Milão.

O queijo Gorgonzola é feito de leite de vaca pasteurizado. Ele também tem um selo de proteção, o D.O.P. (Denominazione d’Origine Protetta), porque tanto os franceses quanto os italianos adoram preservar seus produtos mais queridos de invencionices e modificações. Fazem muito bem.

O Gorgonzola Piccante é figura fácil nos supermercados do Brasil. Mas há também um outro tipo, menos conhecido pelos brasileiros, o Gorgonzola Dolce, que de doce não tem nada. Ele leva esse nome porque possui menos veias, é mais cremoso e bem mais suave que o outro.

A origem do Gorgonzola, dizem, também está ligada a um jovem que tomava conta de um rebanho e ajudava a fazer queijos. Certa vez, ele resolveu dar uma escapada: deixou o trabalho e foi passar a noite nos braços da amada. Voltou ao trabalho ao amanhecer e, para que sua escapulida não fosse descoberta, juntou o coalho do dia anterior, que já não estava lá grande coisa, ao daquela manhã. O resultado foi que, assim, acabou criando um queijo que continuava macio mesmo quando envelhecido. O jovem furou o queijo para ver se conseguia secá-lo, e os furos acabaram causando mofo. E così è nato e il Gorgonzola. Ou assim o dizem.

O fungo do Gorgonzola é introduzido no leite junto com o coalho. Dias depois, fura-se o queijo com varetas fininhas de cobre ou aço para que o fungo se prolifere. Se observarmos um pedaço do queijo, poderemos ver algumas riscas onde foram feitos os furinhos. O Gorgonzola é maturado por um período de 50 (Dolce) a 80 dias (Piccante). Para receber esse nome, ele deve ser produzido nas regiões da Lombardia ou do Piemonte.

Os italianos fazem mais de 4 milhões de formas de Gorgonzola anualmente, das quais 91% é do tipo Dolce. Cerca de 16 mil toneladas são exportadas. É bastante queijo!

A semelhança entre as lendas que contam a origem dos dois queijos é interessante. Fica difícil saber de verdade qual surgiu primeiro, como e quando. Mas quem se importa, não?

Mas uma coisa é certa, é melhor degustar o produto verdadeiro: substituí-lo por um queijo azul de baixa qualidade dificilmente vai proporcionar uma experiência prazerosa, já que quase certamente a imitação será forte ou salgada demais.

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Gorgonzola com Mascarpone. Genial!
 

 

E por falar em experiências prazerosas…

 

Os dois queijos podem ser saboreados como petisco, acompanhados de torradinhas, tiras de aipo, frutas ou compotas e um bom vinho… E também são excelentes no preparo de pratos. Aqui vão cinco sugestões de como usar um ou outro na culinária:

  1. Faça uma salada de folhas verdes variadas, acrescente nozes caramelizadas (basta derreter um pouco de açúcar junto com algumas nozes quebradas), um punhadinho de uvas-passas (ou, melhor ainda, cranberries desidratados!), e seu queijo azul preferido, em pedacinhos. Tempere com um belo vinagrete feito de vinagre balsâmico e azeite extra virgem. Misture delicadamente e sirva.

 

  1. Acrescente um pouco de Gorgonzola junto com o queijo parmesão de praxe no final do preparo de um risoto basiquinho.

 

  1. Numa frigideira com um fio de azeite, sele pequenos medalhões de filé mignon (de mais ou menos 100 g cada) dos dois lados. Não precisa fritá-los completamente porque irão ao forno. Tempere com sal e pimenta (pouco sal: o queijo já é salgado!). Cubra cada pedaço de carne com um pedacinho de Roquefort e um pouquinho de alecrim fresco. Embrulhe os medalhões em massa folhada, formando ‘pacotinhos’. Você vai precisar abrir a massa e cortar alguns retângulos para fazer os pacotinhos. Arrume cada medalhão numa metade de cada retângulo, cubra com a outra metade e aperte os dois lados para que fechem bem. Pincele a parte de cima com um ovo batido e leve ao forno pré-aquecido para acabar de assar a carne e dourar a massa folhada (siga as instruções da embalagem da massa).

 

  1. Aproveite o friozinho para fazer uma polenta bem molinha e servi-la como se faz em Bergamo, a terra da polenta: por cima de um pedaço de Gorgonzola Dolce.

 

  1. Derreta um pedaço de Roquefort ou Gorgonzola com um pouquinho de creme de leite fresco. Tempere com pimenta (e sal, se preferir) e sirva por cima do bife ou hambúrguer. Fácil, fácil.

 

Fontes:

academiabarilla.com

http://www.gorgonzola.com/il-formaggio-gorgonzola-le-origini/

http://www.saporinews.com/2014/04/dati-di-vendita-lo-confermanoil-formaggio-gongorzola-e-piu-forte-della-crisi/

https://fr.wikipedia.org/wiki/Roquefort_(fromage)

 

 

 

 

 

São Francisco, ícones e curiosidades

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Painel do Panama-Pacific International Exposition, de Young Museum (foto FPFA)

Do Terremoto à Feira Internacional

São Francisco era uma cidade jovem no início do século passado. Contava com 400 mil habitantes, escolas, hotéis, teatros, parques e museus. A cidade havia sofrido com enchentes, pragas, incêndios e governos corruptos, mas, ainda assim, já era um dos maiores centros urbanos americanos.

Na manhã de 18 de abril de 1906, um terremoto de magnitude 7,8 atingiu a cidade. Com o desmoronamento das casas e prédios, canos de gás estouraram e focos de incêndio se espalharam por todos os lados. O sistema de água se rompeu e a cidade ficou sem uma gota de água. Os bombeiros tentavam conter o fogo usando dinamite, o que, muitas vezes, ao contrário do que esperavam, aumentava o problema. As construções, quase todas de madeira e muito próximas umas das outras, arderam em chamas por vários dias. Cerca de 80% da cidade foi completamente destruída – foram 25 mil construções em 490 quarteirões. Estima-se que milhares de pessoas tenham morrido e que centenas de milhares tenham ficado desabrigadas. Muitas fugiram para Oakland e Berkeley.

Aos poucos, bastante gente retornou. Logo foram feitos planos de reconstrução. Todos queriam São Francisco de volta. Contra as previsões dos pessimistas e incrédulos, a cidade renasceu rapidamente e, nove anos mais tarde, foi palco da Panama-Pacific Exposition (PPIE), uma feira internacional que tinha como objetivo comemorar a abertura do Canal do Panamá e também mostrar ao mundo que São Francisco havia ressurgido maior e melhor que nunca. A feira durou dez meses e recebeu cerca de 19 milhões de visitantes vindos de 48 estados americanos e 21 países. Um número exorbitante, dadas as condições da época.

Para abrigar todas as obras de arte, shows e atividades diversas que faziam parte da feira, várias construções foram erguidas provisoriamente por toda a cidade. Quase todas foram demolidas depois, mas algumas restaram intactas, como o Palace of Fine Arts (hoje, vazio), na Marina.

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Palace of Fine Arts (foto FPFA)

 

Golden Gate Bridge: um ícone por acaso

Golden Gate é o nome da passagem entre a Baía de São Francisco e o Oceano Pacífico. A ponte foi construída ali em meio a muita controvérsia. Muitos acreditavam que ela estragaria a linda vista e que teria um impacto negativo no turismo. Em 1937, quando ficou pronta, resolveram de última hora que, em vez de pintá-la de cinza, a cor mais óbvia para pontes, iriam deixá-la da cor laranja-avermelhada, a cor da camada de tinta antiferrugem que havia sido usada para proteger suas partes, porque ela fazia um belo contraste com o verde das colinas e o azul do mar e do céu. Inserida numa paisagem incrível daquelas e daquela cor, quem poderia esquecê-la? A ponte acabou se transformando no mais importante símbolo da cidade.

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A ponte, vista do Presidio Park (foto FPFA)

 

Streetcars

Enquanto em muitos lugares eles pertencem a museus, em São Francisco os bondinhos ainda circulam nas ruas e fazem a linha F-Market & Wharves. Há bondinhos que datam dos anos 1930 e que vieram de várias cidades americanas, além de cidades europeias, como Milão e Lisboa. São um charme!

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Um dos charmosos bondinhos de São Francisco (foto FPFA)

 

Cable cars

Outro símbolo de São Francisco, os cable cars são bondinhos operados manualmente e que se locomovem através de cabos subterrâneos. Quase saíram de circulação completamente algumas décadas atrás, mas, por meio de um referendo, os apaixonados por eles conseguiram manter três linhas ativas – hoje usadas principalmente por turistas.

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Um cable car subindo a California Street (foto FPFA)

 

Transamerica Building

Com 48 andares, foi construído entre 1969 e 1972 e é o prédio mais alto de São Francisco. Sua construção também gerou protestos. Muitos diziam que o prédio alto em forma de pirâmide estragaria a visão do lindo céu da cidade. Hoje ele é outro ícone. Imponente, a gente o enxerga de onde a gente estiver.

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O Transamerica Building com a Bay Bridge por trás (foto FPFA)

 

Painted Ladies

Com a descoberta de ouro na região e o subsequente aumento da população de São Francisco, milhares de casas foram construídas nos estilos vitoriano e eduardiano entre os anos de 1849 e 1915. Eram todas bem coloridas. Depois, vieram a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais e ninguém mais tinha dinheiro para manter as casas ajeitadinhas. Muitas delas acabaram sendo pintadas de branco, porque tinta branca era muito barata, ou de cinza, com as sobras das tintas que haviam sido usadas para pintar os navios de guerra. Muito sem graça… Só lá pelos anos 1960 é que elas voltaram a ficar coloridas, graças a um artista que pintou a sua casa de azul e verde e, com isso, incentivou outros proprietários a fazerem o mesmo – e aos hippies (quem diria!), que pintaram suas casas em Haight-Ashbury de cores diversas. Os tons das casas variam de fortes a pastel.

O termo ‘Painted Ladies’ foi usado por dois escritores no título de seu livro sobre as casas vitorianas (Painted Ladies – San Francisco Resplendent Victorians, de Elizabeth Pomada e Michael Larsen, 1978) e passou a designar todas as casas daquele estilo. Mas, sem dúvida, as mais famosas são as da Steiner Street, em frente ao Alamo Square.

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As mais famosas ‘Painted Ladies’ contrastando com os prédios modernos atrás (foto FPFA)

 

Ilha de Alcatraz

Primeiro havia ali só um farol. Depois, construíram na ilha um forte e uma prisão militar. Mais para a frente, aquilo virou uma penitenciária federal que ficou famosa pelos criminosos que estiveram detidos lá, como Al Capone e Robert Franklin Stroud (conhecido como o ‘Birdman de Alcatraz’), entre outros. Hoje o lugar pertence ao National Park Service e está aberto ao público. A balsa chega rapidinho, já que a ilha fica a pouco mais de dois quilômetros de distância.

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Alcatraz (foto FPFA)

 

Calça Levi’s

Como tanta gente, Levi Strauss e Jacob Davis imigraram para a América ainda bem jovens. O primeiro era alemão e o segundo era russo. Ambos viveram em São Francisco até morrerem. Jacob era alfaiate e Levi era seu fornecedor de tecidos. Atendendo ao pedido da esposa de um lenhador que queria uma calça resistente para seu marido, Jacob criou um modelo que levava costuras duplas, tinha bolsos e, para fazê-lo, usou um tecido grosso e rústico (denim) que costumava comprar na Levi Strauss & Co. para fazer tendas e capas para cavalos, entre outras coisas. Nascia o blue jeans. A calça fez sucesso imediato. Jacob, com a ajuda financeira de Levi, patenteou o jeans em 1873. Levi abriu uma grande loja em São Francisco para vender a criação de Jacob, e o resto é história.

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(foto FPFA)

 

Televisão

Muitos estavam tentando, mas a primeira transmissão em televisão eletrônica foi feita por um garoto de vinte um anos chamado Philo Farnsworth. O feito aconteceu num laboratório na Green Street no dia 7 de setembro de 1927. Farnsworth transmitiu eletronicamente a figura de uma linha que se movia, usando seu ‘dissector de imagem’, de dentro de uma sala para um receptor numa outra sala. Parece pouco, mas veja só no que deu!

 

Sanduíche de sorvete

Alguém tinha de inventá-lo! E foi um cara chamado George Whitney, em 1928, que teve a ideia de botar sorvete de baunilha no meio de dois biscoitos de aveia. O nome da invenção? ‘It’s it’. Depois a fábrica se mudou de São Francisco para Burlingame, um pouquinho ao sul.

 

Cupid’s Span

Em 2002, os fundadores da Gap, Donald e Doris Fisher, encomendaram aos artistas Claes Odenburg e Coosje van Bruggen uma escultura enorme de um arco e flecha para expressar a ideia de que Cupido havia passado pela cidade. A escultura ficou pronta e foi montada durante a noite, causando espanto, admiração ou choque em todos os que passaram por ela na manhã seguinte. Ninguém ficou indiferente… Alguns a viram com ceticismo no início, mas ela acabou virando outro ícone da cidade e não vai sair de onde está tão cedo.

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O arco e flecha do Cupido, no Embarcadero (foto FPFA)

 

Algumas das empresas que adoramos e que nasceram ou têm sua sede em São Francisco

Instagram, Yelp, Uber, Lyft, Airbnb, Pinterest, Twitter, Open Table, Levi Strauss & Co., Gap Inc., Banana Republic e Old Navy, Lucasfilm… A lista continua, mas dá para se ter uma ideia.

São Francisco sempre foi inovadora. Lançou e continuará a lançar tendências. Ela acolhe a diversidade de bom grado e tem a mente no futuro, mas valoriza e protege seu passado. Embora tenha lá seus defeitos e seus problemas, suas qualidades são muitas e renderiam ainda incontáveis posts. Não tenho mais tempo, preciso ir embora. Paris me aguarda. Ah, mas qualquer hora eu volto…

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E por falar em São Francisco ainda só mais um pouquinho…

A banda Train, que é de São Francisco, fez o vídeo abaixo. A música é uma delícia e as imagens da cidade são lindas! Dá só uma olhadinha:

 

Em 1962, Tony Bennett gravou a canção ‘I left my heart in San Francisco’. Pode ser o maior clichê do mundo, mas quem vai embora de lá sempre deixa um bocadinho do coração para trás, não tem jeito. Aqui vai o vídeo:

 

 

Fontes:

 

San Francisco Chronicle

San Francisco 1015 – Panama-Pacific International Exposition DVD

Jewel City, Art from San Francisco’s PPIE, de Young Museum

This Bridge will not be Gray, by Dave Eggers

Wikipedia