São Francisco, ícones e curiosidades

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Painel do Panama-Pacific International Exposition, de Young Museum (foto FPFA)

Do Terremoto à Feira Internacional

São Francisco era uma cidade jovem no início do século passado. Contava com 400 mil habitantes, escolas, hotéis, teatros, parques e museus. A cidade havia sofrido com enchentes, pragas, incêndios e governos corruptos, mas, ainda assim, já era um dos maiores centros urbanos americanos.

Na manhã de 18 de abril de 1906, um terremoto de magnitude 7,8 atingiu a cidade. Com o desmoronamento das casas e prédios, canos de gás estouraram e focos de incêndio se espalharam por todos os lados. O sistema de água se rompeu e a cidade ficou sem uma gota de água. Os bombeiros tentavam conter o fogo usando dinamite, o que, muitas vezes, ao contrário do que esperavam, aumentava o problema. As construções, quase todas de madeira e muito próximas umas das outras, arderam em chamas por vários dias. Cerca de 80% da cidade foi completamente destruída – foram 25 mil construções em 490 quarteirões. Estima-se que milhares de pessoas tenham morrido e que centenas de milhares tenham ficado desabrigadas. Muitas fugiram para Oakland e Berkeley.

Aos poucos, bastante gente retornou. Logo foram feitos planos de reconstrução. Todos queriam São Francisco de volta. Contra as previsões dos pessimistas e incrédulos, a cidade renasceu rapidamente e, nove anos mais tarde, foi palco da Panama-Pacific Exposition (PPIE), uma feira internacional que tinha como objetivo comemorar a abertura do Canal do Panamá e também mostrar ao mundo que São Francisco havia ressurgido maior e melhor que nunca. A feira durou dez meses e recebeu cerca de 19 milhões de visitantes vindos de 48 estados americanos e 21 países. Um número exorbitante, dadas as condições da época.

Para abrigar todas as obras de arte, shows e atividades diversas que faziam parte da feira, várias construções foram erguidas provisoriamente por toda a cidade. Quase todas foram demolidas depois, mas algumas restaram intactas, como o Palace of Fine Arts (hoje, vazio), na Marina.

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Palace of Fine Arts (foto FPFA)

 

Golden Gate Bridge: um ícone por acaso

Golden Gate é o nome da passagem entre a Baía de São Francisco e o Oceano Pacífico. A ponte foi construída ali em meio a muita controvérsia. Muitos acreditavam que ela estragaria a linda vista e que teria um impacto negativo no turismo. Em 1937, quando ficou pronta, resolveram de última hora que, em vez de pintá-la de cinza, a cor mais óbvia para pontes, iriam deixá-la da cor laranja-avermelhada, a cor da camada de tinta antiferrugem que havia sido usada para proteger suas partes, porque ela fazia um belo contraste com o verde das colinas e o azul do mar e do céu. Inserida numa paisagem incrível daquelas e daquela cor, quem poderia esquecê-la? A ponte acabou se transformando no mais importante símbolo da cidade.

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A ponte, vista do Presidio Park (foto FPFA)

 

Streetcars

Enquanto em muitos lugares eles pertencem a museus, em São Francisco os bondinhos ainda circulam nas ruas e fazem a linha F-Market & Wharves. Há bondinhos que datam dos anos 1930 e que vieram de várias cidades americanas, além de cidades europeias, como Milão e Lisboa. São um charme!

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Um dos charmosos bondinhos de São Francisco (foto FPFA)

 

Cable cars

Outro símbolo de São Francisco, os cable cars são bondinhos operados manualmente e que se locomovem através de cabos subterrâneos. Quase saíram de circulação completamente algumas décadas atrás, mas, por meio de um referendo, os apaixonados por eles conseguiram manter três linhas ativas – hoje usadas principalmente por turistas.

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Um cable car subindo a California Street (foto FPFA)

 

Transamerica Building

Com 48 andares, foi construído entre 1969 e 1972 e é o prédio mais alto de São Francisco. Sua construção também gerou protestos. Muitos diziam que o prédio alto em forma de pirâmide estragaria a visão do lindo céu da cidade. Hoje ele é outro ícone. Imponente, a gente o enxerga de onde a gente estiver.

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O Transamerica Building com a Bay Bridge por trás (foto FPFA)

 

Painted Ladies

Com a descoberta de ouro na região e o subsequente aumento da população de São Francisco, milhares de casas foram construídas nos estilos vitoriano e eduardiano entre os anos de 1849 e 1915. Eram todas bem coloridas. Depois, vieram a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais e ninguém mais tinha dinheiro para manter as casas ajeitadinhas. Muitas delas acabaram sendo pintadas de branco, porque tinta branca era muito barata, ou de cinza, com as sobras das tintas que haviam sido usadas para pintar os navios de guerra. Muito sem graça… Só lá pelos anos 1960 é que elas voltaram a ficar coloridas, graças a um artista que pintou a sua casa de azul e verde e, com isso, incentivou outros proprietários a fazerem o mesmo – e aos hippies (quem diria!), que pintaram suas casas em Haight-Ashbury de cores diversas. Os tons das casas variam de fortes a pastel.

O termo ‘Painted Ladies’ foi usado por dois escritores no título de seu livro sobre as casas vitorianas (Painted Ladies – San Francisco Resplendent Victorians, de Elizabeth Pomada e Michael Larsen, 1978) e passou a designar todas as casas daquele estilo. Mas, sem dúvida, as mais famosas são as da Steiner Street, em frente ao Alamo Square.

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As mais famosas ‘Painted Ladies’ contrastando com os prédios modernos atrás (foto FPFA)

 

Ilha de Alcatraz

Primeiro havia ali só um farol. Depois, construíram na ilha um forte e uma prisão militar. Mais para a frente, aquilo virou uma penitenciária federal que ficou famosa pelos criminosos que estiveram detidos lá, como Al Capone e Robert Franklin Stroud (conhecido como o ‘Birdman de Alcatraz’), entre outros. Hoje o lugar pertence ao National Park Service e está aberto ao público. A balsa chega rapidinho, já que a ilha fica a pouco mais de dois quilômetros de distância.

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Alcatraz (foto FPFA)

 

Calça Levi’s

Como tanta gente, Levi Strauss e Jacob Davis imigraram para a América ainda bem jovens. O primeiro era alemão e o segundo era russo. Ambos viveram em São Francisco até morrerem. Jacob era alfaiate e Levi era seu fornecedor de tecidos. Atendendo ao pedido da esposa de um lenhador que queria uma calça resistente para seu marido, Jacob criou um modelo que levava costuras duplas, tinha bolsos e, para fazê-lo, usou um tecido grosso e rústico (denim) que costumava comprar na Levi Strauss & Co. para fazer tendas e capas para cavalos, entre outras coisas. Nascia o blue jeans. A calça fez sucesso imediato. Jacob, com a ajuda financeira de Levi, patenteou o jeans em 1873. Levi abriu uma grande loja em São Francisco para vender a criação de Jacob, e o resto é história.

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(foto FPFA)

 

Televisão

Muitos estavam tentando, mas a primeira transmissão em televisão eletrônica foi feita por um garoto de vinte um anos chamado Philo Farnsworth. O feito aconteceu num laboratório na Green Street no dia 7 de setembro de 1927. Farnsworth transmitiu eletronicamente a figura de uma linha que se movia, usando seu ‘dissector de imagem’, de dentro de uma sala para um receptor numa outra sala. Parece pouco, mas veja só no que deu!

 

Sanduíche de sorvete

Alguém tinha de inventá-lo! E foi um cara chamado George Whitney, em 1928, que teve a ideia de botar sorvete de baunilha no meio de dois biscoitos de aveia. O nome da invenção? ‘It’s it’. Depois a fábrica se mudou de São Francisco para Burlingame, um pouquinho ao sul.

 

Cupid’s Span

Em 2002, os fundadores da Gap, Donald e Doris Fisher, encomendaram aos artistas Claes Odenburg e Coosje van Bruggen uma escultura enorme de um arco e flecha para expressar a ideia de que Cupido havia passado pela cidade. A escultura ficou pronta e foi montada durante a noite, causando espanto, admiração ou choque em todos os que passaram por ela na manhã seguinte. Ninguém ficou indiferente… Alguns a viram com ceticismo no início, mas ela acabou virando outro ícone da cidade e não vai sair de onde está tão cedo.

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O arco e flecha do Cupido, no Embarcadero (foto FPFA)

 

Algumas das empresas que adoramos e que nasceram ou têm sua sede em São Francisco

Instagram, Yelp, Uber, Lyft, Airbnb, Pinterest, Twitter, Open Table, Levi Strauss & Co., Gap Inc., Banana Republic e Old Navy, Lucasfilm… A lista continua, mas dá para se ter uma ideia.

São Francisco sempre foi inovadora. Lançou e continuará a lançar tendências. Ela acolhe a diversidade de bom grado e tem a mente no futuro, mas valoriza e protege seu passado. Embora tenha lá seus defeitos e seus problemas, suas qualidades são muitas e renderiam ainda incontáveis posts. Não tenho mais tempo, preciso ir embora. Paris me aguarda. Ah, mas qualquer hora eu volto…

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E por falar em São Francisco ainda só mais um pouquinho…

A banda Train, que é de São Francisco, fez o vídeo abaixo. A música é uma delícia e as imagens da cidade são lindas! Dá só uma olhadinha:

 

Em 1962, Tony Bennett gravou a canção ‘I left my heart in San Francisco’. Pode ser o maior clichê do mundo, mas quem vai embora de lá sempre deixa um bocadinho do coração para trás, não tem jeito. Aqui vai o vídeo:

 

 

Fontes:

 

San Francisco Chronicle

San Francisco 1015 – Panama-Pacific International Exposition DVD

Jewel City, Art from San Francisco’s PPIE, de Young Museum

This Bridge will not be Gray, by Dave Eggers

Wikipedia

2 comentários sobre “São Francisco, ícones e curiosidades

  1. Sheila, como sempre os seus textos são ótimos. muito bom ter feito este resumo da cidade. Vai ser muito interessante quando lá for. Pena não ter ido consigo lá, teria uma cicerone de excelência. Bj Gabriela

    Curtido por 1 pessoa

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