Vida de expatriados

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Muda-se de país por inúmeras razões. A nossa é o trabalho do Marido. Já passamos por isso diversas vezes e, nesta altura, sabemos mais ou menos o que esperar. Ajuda, embora nunca fique fácil… Tenho uma lista enorme de providências a tomar para a mudança que sairá daqui a dois meses. Mas, em vez de providências, vou é tomar um café… e escrever sobre como é essa coisa de pular de galho em galho. Vamos lá:

Mudanças são uma ótima oportunidade para a gente se desfazer de coisas, doando-as, vendendo-as ou até mesmo jogando-as fora. Então, separamos  aparelhos domésticos – que não funcionarão no novo destino por causa da voltagem diferente -, utensílios, brinquedos, papelada, revistas… A lista é longa e a trabalheira é enorme. Desfazer-se do que não é útil, bonito ou tem valor sentimental é algo que deveríamos fazer sempre, dizem os gurus da organização, mas a gente às vezes se esquece. Ao mudarmos de casa, ainda mais quando vamos para um outro continente, não há como evitá-lo. E lá se vão os potinhos de ervas aromáticas para o lixo e o vinho do Porto para o ralo. A gente tenta aproveitar tudo o que há na despensa para evitar desperdícios, e  se pergunta o que fazer com os pacotes abertos contendo restinhos de macarrão, de arroz, de farinha… Quem vai herdar a planta da sala? Mudar é um exercício de desapego.

Quando o caminhão de mudança vai embora com tudo aquilo que, até então, era nosso lar, é hora de fechar a porta pela última vez e partir para o novo destino. Se esse destino for um lugar desconhecido ou pouco conhecido, como tem acontecido conosco durante duas décadas, a gente vai recomeçar do zero, que é tão excitante quanto assustador.

A gente chega e reza para que ninguém fique doente antes de conseguirmos referências de médicos e dentistas. A gente enche a geladeira e os armários da nova casa com produtos de marcas estranhas, escolhidos no supermercado na base do mamãe-mandou – e adora quando encontra a pasta de dente da marca multinacional. A gente vai ao cabeleireiro pela primeira vez e prende a respiração, morrendo de medo de que ele faça um estrago devido a falhas na comunicação. E a calça recém-comprada vai ficar sem bainha por um bom tempo…

Chegar de mudança é  introduzir um elemento de fora numa história que já vem acontecendo há muito tempo, com seus personagens entrelaçados e vivendo suas vidas muito bem, obrigada. Chegamos. Não conhecemos ninguém. Precisamos absolutamente conhecer pessoas. As amizades não ocorrem tão naturalmente, elas são praticamente impostas pelo nosso instinto de sobrevivência. Entramos na vida das pessoas que sempre estiveram ali e causamos algum rebuliço. Elas, que já têm suas rotinas estruturadas, abrem espaço para a novidade: nós. E, aos poucos, vamos nos conquistando mutuamente ou nos distanciando. As afinidades acabarão fazendo a seleção com naturalidade e, certamente, depois de um tempo, teremos feito alguns grandes amigos.

Desbravar o bairro, explorar as ruas vizinhas, achar caminhos, descobrir onde ficam o banco, a farmácia, a padaria (será que há padarias?)… tudo isso pode ser delicioso ou, então, um pesadelo. Vai depender da nossa atitude. Comparar um lugar com outro, o que tínhamos antes com o que temos agora, o que era e já não é, costumes ou seja lá o que for é a receita perfeita para a frustração e o sofrimento. Quer ser feliz? Não compare. Quando a gente aceita cada realidade como ela é, nossas chances de adaptação são muito maiores. Se nos abrimos para o novo, para o diferente, só temos a ganhar: perdemos preconceitos, ampliamos horizontes, revemos valores e aprendemos muito.

Não demora e começamos a nos envolver com a cultura, a história e os costumes do lugar. O que sabíamos dele até então era o que tínhamos lido em livros e jornais ou visto na TV. Era tudo abstrato. A realidade é muito mais rica e complexa, claro. Passamos a acompanhar questões políticas e econômicas com mais interesse, seguimos seriados locais na TV, ouvimos as músicas que tocam frequentemente no rádio e já sabemos o nome de quem as canta.

Depois de algum tempo, já temos nossa cafeteria preferida, conhecemos atalhos para o trabalho e a escola, e a moça da lavanderia nos cumprimenta pelo nome. Já fazemos parte. E é quando tudo está assim, encaixadinho e confortável de novo, que normalmente a gente tem de mudar outra vez… Aí, largamos tudo para trás. As amizades a gente tenta manter. Graças às facilidades da tecnologia, trocamos mensagens recheadas de beijos, abraços e promessas de sempre manter contato. Mas a gente já sabe que não vai mais fazer parte do dia a dia daquelas pessoas. Deixaremos de ter acesso aos novos hits dos cantores de quem aprendemos a gostar, não saberemos que fim vai levar aquele último escândalo político e nem como vai terminar a novela.

Haja coração para lidar com tudo isso! Ajuda pensar que no próximo destino há pessoas fantásticas que ainda não conhecemos, mas que, em breve, vão se tornar queridas, que vamos nos deslumbrar muitas vezes com um monte de coisas incríveis que veremos e viveremos, e que, se os perrengues são inevitáveis (e há sempre muitos perrengues), no mínimo, eles nos ensinarão alguma coisa. Então, vale a pena? Eu acho que sim, vale muito!

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Feito Peixe Fora d’Água vai se mudar de São Francisco para Paris

~ O  ~

Essa é a perspectiva de um terço da minha família. 🙂 O Marido, com as responsabilidades do cargo recém-iniciado, e o Filho, com a nova escola, precisam administrar ainda muitas outras emoções.

** Seja lá onde a gente estiver, a saudade da família que ficou para trás é constante. Mas isso eu nem preciso dizer, não?

*** Quando somos expatriados porque o trabalho nos transfere, temos uma rede de apoio por trás, o que facilita muito a experiência toda. Mas conheço várias pessoas que saíram do Brasil só com a cara e muita coragem, atrás de um sonho ou de melhores condições de vida. O que lhes faltava em estrutura e recursos lhes sobrava em determinação e garra. A todas elas, deixo minha grande admiração.

 

2 comentários sobre “Vida de expatriados

  1. Sheila vc vai se tornar na “guru” da mudança . Não tenho dúvidas. Escreva um livro” 12 passos para uma mudança descomplicada”vc tem a chave nas mãos . Pense nisto. No fim rd da certo, se não der , é porque não chegou no fim! 💋

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