Un sombrero rojo, pero no mucho

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“Será que este vai funcionar?”, pensei de manhã, ao lambuzar o rosto com o mais recente creme antirrugas que promete resultados em três meses. Mas daqui a três meses não vou estar três meses mais velha? Isso tem jeito de batalha perdida… É melhor ir à luta, por via das dúvidas, e usar todas as armas disponíveis: sérum com tensor, creme para a região dos olhos, creme para a região do pescoço, protetor solar… O arsenal conta ainda com preenchedor instantâneo de rugas (cujo efeito, posso quase jurar, também desaparece instantaneamente), base corretiva, e por aí vai. Complicada essa faixa dos quarenta e tantos anos…

Enquanto observo minha imagem e vejo as mudanças que os anos têm trazido, penso naquelas que não são visíveis, mas que são ainda mais importantes. A juventude nos dá todas as possibilidades ou, pelo menos, a ilusão de que temos todas as possibilidades. O tempo passa e realiza algumas delas; outras, não. Às vezes, muda o rumo completamente. O que não quer dizer que seja para pior. A sociedade nos cobra algumas coisas, mas as cobranças que nos aporrinham mais são as internas. Tenho me dado conta de que tá aí uma coisa boa que a idade traz: a gente começa a fazer ouvidos moucos a essas cobranças, venham de fora ou de dentro. Aliás, na minha opinião (e opinião, por definição, é uma coisa muito pessoal), envelhecer é libertador, pelo menos quando aceitamos que estamos envelhecendo e que o processo não tem volta. A gente passa a ‘não ter que’ mais nada. Aleluia! Que leveza!

Minha mãe sempre diz que cada idade tem sua beleza. Minha mãe é uma otimista, mas ela tem razão. Foi ela que me mandou, tempos atrás, aquela bonita mensagem chamada ‘El sombrero rojo’. A mensagem descreve o olhar feminino diante do espelho: aos dois anos, a menina vê uma rainha; aos oito, uma princesa; aos vinte, ela se acha gordinha e feiosa… e assim vai. Aos setenta anos, a senhora não se importa tanto com o que vê e, aos oitenta, nem olha mais para o espelho: veste um chapéu vermelho e sai para se divertir. Que maravilha deve ser não dar muita bola para o espelho nem para o que pensa a patota!

A mensagem ‘El sombrero rojo’ me lembra dois grupos bem diversos de mulheres que vi num restaurante outro dia. O primeiro era formado por cerca de quinze jovens que deviam ter pouco menos de trinta anos. Estavam todas produzidíssimas, maquiadíssimas, de salto altíssimo. Tudo assim, no superlativo, como a idade permite. Vira e mexe, ajeitavam o cabelo ou puxavam a saia curtíssima para baixo. O segundo grupo também era numeroso. Dele faziam parte várias mulheres de sessenta e poucos anos. Estavam todas bem arrumadas, mas sem exageros. As senhoras pareciam entretidas com o cardápio e se empenhavam em escolher um belo vinho e conversar com as amigas do lado e da frente. Os interesses e as prioridades mudam com o passar dos anos, disso ninguém tem dúvida. Mas, de qualquer jeito, ambos os grupos pareciam estar se divertindo, cada um à sua maneira. Enquanto as jovens transmitiam muita vitalidade e energia, as senhoras deixavam transparecer uma tranquilidade e uma segurança encantadoras de quem se sente muito bem na própria pele, mesmo essa não sendo mais lisinha. Admirei os dois grupos e me senti meio no limbo. É estranho, não, quando a gente não tá lá nem cá, quando não temos mais o frescor e as aspirações da juventude nem temos ainda a serenidade e a sabedoria que a maturidade (espera-se) traz. É claro que serenidade e sabedoria não chegam do nada. Vêm de muitas coisas vividas, um bom tanto delas tristes, difíceis e desagradáveis. Acho que deve ser assim que a gente passa a escolher em que deve realmente usar nossa energia, já que a temos em menor quantidade que antes. Vai ficando mais claro com o que vale a pena a gente se importar.

E como o cérebro da gente trabalha por associações, acabo de me lembrar de um outro episódio. Não faz muito tempo, numa cafeteria que costumo frequentar aqui em São Francisco, vi entrar um casal de idade bastante avançada, de braços dados. O senhor, bem curvadinho e de cabelo bem branquinho, apoiou sua bengala na parede e se sentou enquanto a senhora foi ao balcão fazer o pedido. Tomaram seu café e ficaram ali um pouco. Na hora de irem embora, a senhora se levantou, se pôs na frente do companheiro e lhe estendeu as mãos. O senhor as segurou e tentou se levantar. Foram três tentativas até conseguir. Sentada na mesa ao lado deles, eu me peguei dizendo em pensamento: upa-lá-lá. O senhor pegou sua bengala, eles se deram os braços e saíram, caminhando devagarinho.

E assim a vida passa, com suas belezas e seus perrengues. Eu não sei até onde vou chegar. Mas quero fazer um pacto com a idade, supondo que eu siga vivendo ainda uns bons anos: eu a aceito, e ela chega gentilmente. Vou passar todos os creminhos de última geração que eu conseguir – e vou agradecer aos céus se minhas preocupações forem as rugas, porque, na escala do que é de fato relevante, que importância elas têm, não? Vou procurar aprender tudo o que eu puder e tentar nunca tomar nada por garantido. Espero não perder a capacidade de me surpreender nem de me encantar. Deus me livre de ficar muito ranzinza e cheia de manias! E, embora a gente vá perdendo um pouco as ilusões, se não for pedir muito, gostaria de sempre ter com que sonhar (a vida fica muito sem graça sem um mínimo de ilusão).

Como ainda não estou pronta para vestir um chapéu vermelho, vou agora mesmo providenciar um fedora bem bonitinho e fazer a transição aos poucos. Espero chegar lá! E espero que com saúde. Espero também que, anos à frente, minhas amigas e eu possamos nos reunir de vez em quando em volta de uma grande mesa num restaurante bacaninha para compartilharmos nossas histórias. Bebericando um bom vinho, sem dúvida. E, se der para esticar os anos ainda um pouco mais, que eu tenha alguém querido a quem dar o braço na hora de passear – para que o mais forte de nós dê um upa-lá-lá ao outro, se precisar.

E por falar em amigas…

Deixo aqui um grande beijo a todas as minhas, que estão espalhadas pelos quatro cantos.

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15 comentários sobre “Un sombrero rojo, pero no mucho

  1. Ah que delícia de texto !
    Há dias estou de olho nele, sim …, gosto de guardar textos ou final de um livro para determinados momentos , onde posso curtí-los como se degusta um bom vinho ou uma ótima companhia.
    Com ou sem sombrero , a idade só lhe acrescentou mais beleza . Digo não só ao que o creme favorece , mas aquela que vc compartilha e nos faz privilegiados.
    Bjos , saudades.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Adorei. Você é muito rica, pois ainda tem o frescor das que têm quase trinta e muito da sabedoria das que têm mais de sessenta. A sua é também uma linda fase. Use seu lindo chapéu e desfrute a vida.
    Beijos

    Curtido por 1 pessoa

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