Amália e sua fiel ajudante

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Esta manhã, pus meu iPod para tocar aleatoriamente e ele selecionou um fado. Adicionei a música à minha lista depois de visitar a Casa Museu Amália Rodrigues no verão europeu passado – passeio que fazia parte do plano que duas amigas e eu tínhamos de explorar Lisboa como se fôssemos turistas. Como as músicas têm o poder de fazer a gente voltar no tempo e no espaço, hoje de manhã fui parar de novo na conhecida Rua de São Bento, dentro do casarão em que a fadista viveu seus últimos 40 anos.

A Casa Museu é fácil de identificar: a gente chega e já vê um grande rosto da Amália pintado na fachada. Amália morreu em 1999 e, desde então, o casarão passou por algumas remodelações para se tornar um museu, mas pouca coisa mudou de fato.

O museu oferece visitas guiadas. Naquela tarde, esperamos alguns minutos no hall de entrada até que o pequeno grupo que havia chegado antes de nós saísse. Então, foi nossa vez de conhecer os andares seguintes da casa. Nossa guia, uma senhora já de uma certa idade, deixou escapar um suspiro enquanto subia lentamente os antigos degraus. Perguntei-lhe se ela subia e descia aquela escada muitas vezes por dia. Ela me disse que sim e sorriu, acrescentando, com ar resignado, “Estou acostumada!”

Chegamos no primeiro andar. Ali ficam uma grande sala de estar e uma sala de jantar. Tudo continua mobiliado e decorado como na época em que Amália ali morava. Na sala principal, encontram-se uma guitarra do século XIX, um piano, muitas condecorações e medalhas diversas. A mesa da sala de jantar está posta como se a cantora estivesse para receber amigos ou convidados ilustres. Nossa guia apontava para objetos e contava algumas histórias. De lá, fomos ao segundo andar, onde ficam uma outra sala, uma saleta cheia de roupas, dois quartos e um banheiro. A senhora continuava a contar histórias, chamando nossa atenção para os diversos quadros nas paredes e para vestidos e bijuterias que Amália usava em seus espetáculos e que agora permanecem expostos nos aposentos.

Nossa guia parecia seguir um script decorado que, de tanto ser repetido, já não trazia nenhum traço de emoção. Foi então que minha amiga resolveu lhe perguntar se ela havia conhecido a cantora pessoalmente. “Se eu conheci a Amália? Ah, sim!”, disse ela. Então, contou-nos que, quando fez dezoito anos, pediu de presente ao pai permissão para viajar a Lisboa. Era seu sonho conhecer a grande estrela Amália Rodrigues. Seu pai consentiu e ela partiu de Angola, sua terra Natal, para Portugal sem imaginar o que encontraria pela frente. Contou-nos que chegou no país estranho e que, durante dias e dias, tentou em vão falar com Amália. De tanto insistir, a própria fadista abriu a porta de seu casarão para ela e a convidou a entrar. “Entrei”, disse ela, “e não saí mais”. Amália ofereceu-lhe um emprego, e a jovem se tornou sua companheira fiel por quase quarenta anos. Disse-nos que havia dedicado sua vida à cantora enquanto esta era viva e que continuava a fazê-lo agora, como guia da Casa Museu.

Íamos ouvindo curiosidades sobre os costumes de Amália, sobre o que acontecia nos palcos e detrás deles, sobre as visitas que a artista recebia e as viagens que fazia. Descobrimos que a senhora a acompanhava por todos os lados, que conhecia bem os amores e os desamores da diva, suas alegrias e suas depressões.

Entre um relato e outro, a guia ia, aos poucos, revelando-nos também um pouco de sua própria história. Disse-nos que havia se casado e tido filhos. Contou-nos que foi ela que encontrou Amália morta, numa manhã, ao chegar para trabalhar. Fui me dando conta de que aquela senhora não havia tido somente um papel coadjuvante na vida de uma pessoa ilustre como Amália. A senhora era, sim, protagonista de uma existência interessantíssima. Quantas coisas mais teria para contar? Quantas dificuldades e desafios teria vencido? Que pena que não escreveu um livro ou não registrou de alguma outra forma tudo aquilo que vivenciou e continua vivenciando, começando pela sua infância em Angola, sua paixão por uma artista portuguesa, sua determinação em conhecê-la e sua coragem de, ainda tão jovem, sair de seu país, sem imaginar que o estava abandonando. Isso há mais de cinquenta anos!

Nossa visita guiada chegou ao fim. Saí do museu encantada com as histórias da Amália e com a trajetória daquela senhora e com vontade de saber mais sobre as duas. Não fosse eu tão tímida nem a guia tão ocupada, talvez a tivesse convidado para um café e um dedo de prosa. Mas eu sou tão tímida e ela estava tão ocupada…

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E por falar em fado…

– Sua história é complexa e muito rica. Quem quiser saber um pouco mais sobre o assunto não pode deixar de visitar o Museu do Fado, no Lg. do Chafariz de Dentro, 1, em Santa Apolônia. Tel.: 21 882 3470 ( www.museudofado.pt )

A Casa Museu Amália Rodrigues fica na Rua São Bento, 193. Tel.: 21 397 1896

– Nos meses de julho, agosto e setembro geralmente acontecem as ‘Visitas Cantadas’ em Alfama e na Mouraria, dois bairros típicos da cidade. As visitas se dão no final da tarde, duas vezes por semana. Basta chegar no ponto de encontro e se juntar ao grupo. As visitas são guiadas e o grupo caminha por ruas importantes da trajetória do fado, ouvindo histórias e músicas. Para maiores detalhes, visite o http://www.museudofado.pt . É bom ligar antes para se certificar que vai haver.

Em tempo: um programa imperdível na Mouraria, ao terminar a visita cantada, é subir até o terraço do Hotel Mundial, pedir uma bebidinha e apreciar o pôr do sol. A vista da cidade é linda! O hotel fica na Praça Martim Moniz, 2.

– Há várias casas de fado em Lisboa. Normalmente o programa inclui o jantar, que é caro e nem sempre é bom. Mas é possível chegar mais tarde só para assistir ao show. Aqui vão duas opções:

Clube do Fado: Rua São João da Praça, 86-94, Sé. Tel.: 21 885 2704

Senhor Vinho: Rua do Meio à Lapa, 18. Tel.: 21 397 2681

– Engana-se quem pensa que fado é coisa do passado. O estilo musical tem encontrado novo vigor com nomes fortes como Mariza, Kátia Guerreira, Carminho e Ana Moura, entre tantos outros.

– Em 2011, o fado foi declarado Patrimônio Imaterial da Humanidade, pela UNESCO.

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Mural de autoria desconhecida, Mouraria
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Mural de autoria desconhecida, Mouraria

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