Pisa

“Itália! Sério?” Não conseguia acreditar nos meus ouvidos quando o Marido disse que tinha recebido uma proposta de trabalho naquele país. A gente estava em Portugal fazia três anos, completamente adaptados e felizes. Mas…. Itália? Uau!

Resolvemos passar um final de semana prolongado em alguma cidade italiana “para ver aquilo com olhos diferentes e sentir o clima”. Fomos parar em Pisa, só porque não a conhecíamos. Exploramos o lugar de cima para baixo. Começamos pelo mais óbvio, a torre, e de lá, caminhamos muito, tiramos dezenas de fotos e fizemos tudo aquilo que os visitantes devem fazer.

Na hora de escolher onde jantar, decidimos sair do burburinho e procurar algum lugar onde não houvesse turistas. Achamos um restaurante pequeno e bonitinho que, para a nossa sorte, tinha uma mesa disponível para três. Nossa intuição dizia que comer ali seria muito bom.

Assim que sentamos, o garçom nos trouxe um pequeno quadro negro onde estavam anotados os poucos pratos do dia. “A-ha!”, disse o Marido. “Não te falei?” O Marido tem uma teoria que não costuma falhar: quanto menor o tamanho do cardápio, melhor será a qualidade da comida. Para ele, a gente deve fugir sempre que puder dos cardápios de várias páginas e, principalmente, daqueles que têm uma página em cada língua e fotos dos pratos. Não era o caso ali…

O Filho, então com sete anos, não parecia nada impressionado com nossa animação. Quando seu gnocchi al sugo chegou, ele não conseguia entender a razão de nossa excitação. Não queria comer. Idade complicada… “Isso aqui tá uma delícia! Experimenta!”, tentávamos. Nada. Quando a paciência se esgota, a gente deixa o bom senso de lado e contraria descaradamente a recomendação dos pediatras que costumam dizer que não devemos subornar nossos filhos porque as crianças comerão quando sentirem fome. Subornamos. Aliás, ameaçamos. “Se não comer tudo, não vai ter sobremesa.” O garoto não viu outro jeito senão comer. Queria muito a torta de chocolate que estava no cardápio e engoliu as bolinhas sem reclamar. Assim, nós três pudemos jantar com serenidade. Dois terços da família estavam felizes da vida e o outro terço estava… resignado.

Pratos retirados, o garçom perguntou: “Volete un dolce?” “Sì! La torta al cioccolato, per favore.” “Mi dispiace, è finita.” O-oh! “Volete la torta di mele? È buonissima.” Ele disse torta de maçã? Torta de fruta? Estava fora de questão. O Filho se pôs a chorar. Sentiu-se traído. Tinha comido todas aquelas bolinhas de gnocchi só por causa da sobremesa de chocolate que viria depois. “Não é justo, não é justo!”

Da janelinha da porta da cozinha, o chef observava a cena. Veio ver o que acontecia. Num italiano capenga, explicamos que o menino era chocólatra e que, naquela idade, torta de maçã não parecia uma coisa muito apetitosa. “Non ti preoccupare, caro! Faccio un dolce al cioccolato specialmente per te!” Foi para a cozinha e voltou, minutos mais tarde, com um prato na mão. Nele estava um guardanapo vermelho em cima do qual o chef havia arrumado cuidadosamente várias bolachas do tipo Maria. Do lado das bolachas vinha uma taça pequena cheia de ganache (chocolate derretido em creme de leite). Aquilo era bolacha e chocolate derretido. Só. Mas estava lindo! O menino sorriu de orelha a orelha e se lambuzou com gosto.

Claro que o fim de semana em Pisa não foi decisivo na hora de aceitarmos a proposta de emprego. No fundo, a gente já sabia que queria ir mesmo antes daquela viagem. A gente também sabia que morar na Itália seria bem diferente de visitá-la. E foi mesmo. O dia a dia muitas vezes se tornava um exercício de paciência porque as coisas podem ser bastante complicadas ali. Mas quando fomos embora de lá, as complicações viraram uma vaga lembrança. A gente se lembra mesmo é da deliciosa simplicidade de uma pizza Margherita e de um prato de gnocchi al sugo como aquele de Pisa, da sobremesa improvisada de bolacha Maria e chocolate derretido e de um cappuccino bebido ao balcão do bar. Mas, além da comida, a gente se lembra também da simplicidade da atitude do chef que saiu da sua cozinha para ver como podia consolar um menino que chorava. Simples aqui não tem nada a ver com simplista, simplório, coisa feita de qualquer jeito ou de mau gosto. É só o contrário de complicado e pretensioso. Complicações a gente esquece, deixa para lá. O que é bom de verdade geralmente é simples. E de coisas boas e simples a Itália está cheia.

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E por falar em cardápios longos…

Na Itália muito dificilmente se come mal. Até mesmo nos restaurantes bastante turísticos, as chances de se encontrar comida relativamente boa são razoáveis. Poderá não ser uma comida fantástica, mas será decente. O que os restaurantes “de cardápio em várias línguas” em algumas cidades italianas têm de atraente é o preço baixo dos pratos. Aí é que mora o perigo porque, por outro lado, sua Coca-Cola custará quase tanto quanto a lasagna que você pediu. No final, a conta será bem diferente do esperado. Vale a pena caminhar quatro ou cinco quarteirões para sair do miolinho turístico. Com certeza haverá uma Osteria ou um restaurantezinho bacana onde a comida será melhor e o preço final sairá quase igual ao daquele turístico.

Já que estou relembrando coisas maravilhosas, aqui vai uma bela canção do Negramaro.

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