Bolo de iogurte

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Depois das dicas de como assar bolos fofinhos, aqui vai uma receita bem gostosa, fácil e rápida:

Ingredientes

1 1/4 xícaras de açúcar (225 g)

1 colher (sopa) de raspas de limão (opcional)

3 ovos

1 xícara de iogurte natural inteiro (245 g)

1/2 xícara de óleo (130 ml)

1 colher (chá) de baunilha

1 1/2 xícaras de farinha (180 g) + cerca de 1 colher (sopa) para untar a assadeira

2 colheres (chá) de fermento em pó

1/2 colher (chá) de sal

Preparo

Pré-aqueça o forno a 170 graus.

Unte uma forma própria para pound cake (ou de pão) com manteiga ou óleo e polvilhe com um pouquinho de farinha. Reserve. Se não tiver esse tipo de forma, use uma quadrada ou retangular não muito grande.

Em uma tigela, peneire a farinha, o polvilho e o sal. Reserve.

Na batedeira ainda desligada, misture o açúcar com as raspas de limão (se estiver usando). Em seguida, ligue-a, junte os ovos um a um e bata até obter um creme levemente esbranquiçado. Adicione o iogurte, óleo e a baunilha e bata um pouco mais. Junte a mistura da farinha e mexa bem (sem bater) até que a massa esteja homogênea.

Despeje na forma untada e leve ao forno por cerca de 50 a 55 minutos. Se sua assadeira for rasa, diminua o tempo. Depois, já sabe: é só fazer o teste do palitinho. 🙂

IMG_0946Sugestões sirva acompanhado de sua compota favorita (na foto, usei geleia de damasco) ou de coulis de frutas vermelhas (fácil de fazer: em uma panela pequena, misture cerca de 1 xícara de frutas vermelhas de sua preferência, picadinhas, com 3 colheres (sopa) de açúcar. Leve ao fogo brando por uns minutinhos, mexendo de vez em quando, para encorpar um pouco. Depois, bata com a varinha mágica. Ou deixe os pedacinhos mesmo!).

Dicas para assar bolos mais fofos

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No meu post anterior, prometi compartilhar com vocês minhas receitas de bolos preferidas*. Antes de mais nada, achei que seria bacana passar algumas dicas para que eles cresçam bem fofinhos e sem embatumar. Se você é boleira ou boleiro tarimbado, já sabe de tudo isso! Senão, aqui vão elas:

-Use sempre ingredientes em temperatura ambiente. Num dia de calor, basta tirar os ovos, a manteiga e o leite (se for usar) da geladeira cerca de 30 minutos antes de começar. No inverno, tire-os com algumas horas de antecedência. Quando a manteiga estiver bem macia, é sinal de que está no ponto.

-A não ser que a receita diga algo diferente, peneire os ingredientes secos numa mesma tigela, como a farinha, o fermento em pó, o sal, o chocolate em pó (se for o caso). Isso ajuda a evitar que empelotem e, mais importante, areja-os.

-Se a receita pede manteiga, normalmente você vai batê-la junto com o açúcar até obter um creme. Nesta etapa, é bom bater vigorosamente. A batedeira é uma mão na roda aqui porque ajuda a massa a ficar bem homogênea e a criar as minúsculas partículas de ar que vão ajudar o bolo a crescer.

-Quando for acrescentar os ovos, inclua um a um, batendo bem entre uma adição e outra.

-É hora de juntar a farinha com o fermento? Então, desligue a batedeira e mexa com uma espátula, delicadamente. Vá ‘dobrando’ a massa de fora para dentro, até que os ingredientes estejam bem misturados. Mexer demais, nesta fase, é arriscado: o bolo pode ficar pesado.

-Se a receita levar um líquido (como leite, por exemplo), alterne-o com a farinha. Isto é, despeje um pouco de farinha no creme de ovos e açúcar, adicione um pouco do líquido, mexa. Repita algumas vezes até que tudo esteja incorporado. Não junte toda a farinha e todo o líquido de uma vez, senão, você vai precisar mexer muito e é isso que a gente quer evitar.

-A temperatura ideal do forno é a de 180 graus. Mas, se seu forno for ventilado, diminua para 170 graus. Se a receita for pequena, aqueça o forno a 170 graus (160 graus, se o forno for ventilado).

-Se possível, coloque a assadeira na grelha do meio. Assim, o ar circula por todo o bolo e ele assa por igual.

-Deixe sempre o bolo esfriar antes de tentar desenformá-lo.

-Se você acha que vai assar bolos com uma certa frequência, vale a pena investir numa balança de cozinha. Há muitas bem simples e acessíveis. Nas receitas que eu compartilhar, vou procurar colocar as medidas em gramas e em xícaras e/ou colheres, mas a balança é sempre mais precisa.

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Uma observação: não há muito como escapar: bolos levam açúcar, farinha e alguma espécie de gordura (geralmente óleo ou manteiga), três ingredientes considerados vilões da culinária (ainda bem que o ovo foi absolvido!). Obviamente, existem bolos que não pedem farinha, e há como adoçá-los com mel, xarope de ácer ou bordo (maple syrup), tâmaras, açúcar mascavo… Às vezes também podemos substituir a farinha branca por uma integral ou de coco, etc. Mas não é tão simples assim fazer substituições. A gente pode mudar uma coisinha ou outra sem alterar o resultado (é o que tenho feito), mas é preciso cautela. Para fazer o bolo de chocolate cuja receita postei aqui, resolvi trocar o óleo vegetal por óleo de coco, mas precisei adaptar a quantidade para que ficasse equivalente. Resumindo, quero comer bolos mais saudáveis também, mas, enquanto não encontro uns que me convençam, vou continuar a assar bolos como os que minha mãe e minha avó faziam – e a apreciá-los com moderação. Você vem comigo nessa?

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*As receitas que eu compartilho no blogue são de domínio comum, sua autoria se perdeu no tempo. Ou, então, eu as adaptei. No caso de alguma receita original, citarei a autoria.

Meu filho e os bolos que quero fazer

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Quando penso na minha infância, uma das imagens recorrentes que me vêm é a da geladeira da casa dos meus pais. Costumava abri-la com frequência para ver o que havia de bom para lambiscar. Sempre encontrava algum doce. Na minha infância também nunca faltaram bolos. Minha mãe sempre fez pratos deliciosos, doces e salgados. Muitos deles são receitas que eu nunca experimentei – nunca ousei – fazer. Meu repertório culinário é bem diferente do dela. Eu nunca conseguiria fazer igual. Comida de mãe é comida de mãe. Outro dia estava pensando em como as lembranças que meu filho, hoje adolescente, vai ter serão diferentes das minhas. Entrei em crise, quis recuperar algumas coisas, fazer para ele o que traz reconforto para mim. Depois acabei me dando conta de que isso é impossível. Memória afetiva não se transfere. Meu filho se lembrará de outras coisas. Das recordações que ele terá não farão parte os doces ou bolos que fazem parte das minhas. Nem os lanches da tarde em volta da mesa da minha avó ou das minhas tias com café passado na hora, queijo fresco, bolachas e pães, muitas vezes, feitos em casa. De qualquer forma, espero que ele encontre aconchego quando, adulto, pensar na sua infância e adolescência. Aí, resolvi começar a fazer bolos com mais frequência (os que eu fazia eram bastante esporádicos…). Sei que essa é uma corrida contra o tempo, mas gostaria que me filho se lembrasse sempre de como é gostoso chegar em casa e sentir o cheirinho de bolo assando no forno. Porque, sério, isso é mesmo bom, não? Bolo simples, sem recheios ou coberturas complicadas. Aconchego não precisa de sofisticação. É bem possível que as recordações que ele terá nem incluirão comidas. Talvez eu esteja tentando plantar as memórias que eu quero ter. Deve ser isso mesmo, sou eu que quero me lembrar que assei bolos para meu filho antes de ele bater asas e voar para longe, coisa que vai acontecer daqui a não muito tempo. Mas torço muito para ele curtir os bolos de verdade!

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Já que resolvi virar boleira amadora, vou compartilhar com você as receitas que eu fizer e que derem certo. O tipo de bolo que escolhi é o pound cake. Já explico o que é:

Pound cake não tem uma bola tradução para o português. Esse bolo surgiu em algum lugar do norte da Europa no início do século dezoito. Bem impreciso, eu sei… Mas não há muitos registros que contem sua história direitinho. O que se sabe de fato é que ele recebeu esse nome porque, originalmente, sua receita levava a mesma medida (‘one pound’, isto é, uma libra – cerca de 450 gramas) de cada um desses quatro ingredientes: farinha, ovos, açúcar e manteiga. E só. O bolo de três séculos atrás pesava quase dois quilos e alimentava uma porção de gente. Com o tempo, pound cake passou a designar qualquer bolo cujos ingredientes tivessem o mesmo peso, qualquer que fosse esse peso. E o bolo continuou se transformando. Hoje em dia, pound cake é sinônimo de bolo simples, normalmente feito em assadeira do tipo daquelas usadas para fazer pão ou bolo inglês. Lembra-se do bolo Pullman de muitos anos atrás? É isso. Receitas maiores costumam ser feitas em assadeiras redondas, de furo, ou do tipo Bundt (uma assadeira redonda toda trabalhada, que deixa o bolo lindo!).

O bacana do pound cake é que ele pode ser servido assim, sem nada, ou, então, com um pouquinho de açúcar de confeiteiro peneirado por cima, com algum glacê ou com cobertura de chocolate, por exemplo. Sua simplicidade permite que ele seja acompanhado de manteiga, geleia, doce caseiro, pasta de amêndoa… E o melhor: ele combina com tudo: café, chá (quente no inverno, gelado no verão), chocolate quente, leite frio, suco… É uma felicidade!

(Especula-se que o pound cake seja originário da França, onde, até hoje, ele conserva o nome de quatre-quarts (quatro-quartos), referindo-se às partes iguais dos quatro ingredientes.)

Então, que tal começarmos fazendo um bolo que costuma agradar a todo mundo?

 

 Bolo de Chocolate – Chocolate Pound Cake

 

Esta receita é grande. Você vai precisar de uma assadeira de um bom tamanho. Como em casa somos só dois que comem bolo, em vez de usar uma assadeira grande, costumo dividir a massa entre duas assadeiras daquelas de pães (as minhas são pequenas). Assim, um bolo fica para consumo imediato e o outro eu congelo. Não é genial?

Ingredientes :

 3 xícaras de farinha (mais cerca de 1 colher de sopa, para polvilhar a assadeira)

½ xícara de chocolate em pó*

½ colher (chá) de fermento em pó

½ colher (chá) de sal

1 xícara (225 g) de manteiga sem sal, na temperatura ambiente (mais um pouquinho para untar a assadeira)

5 ovos, na temperatura ambiente

3 xícaras de açúcar

1 colheres (sopa) de extrato de baunilha

6 colheres (sopa) de óleo de coco (90 ml)**

1 xícara de leite, na temperatura ambiente

Açúcar de confeiteiro para polvilhar (opcional)

*Não vale usar achocolatado! Nada de Nescau, Nesquick, Toddy… Todos contêm muito açúcar e pouco cacau. Dê preferência, se possível, a chocolate em pó 100% puro ou o mais próximo disso.

** A receita da qual adaptei esta aqui levava gordura vegetal. Usando óleo de coco no lugar, o bolo fica com um aroma delicioso. Use uma colher de sopa padrão (de 15 ml) como medida.

Preparo:

Unte uma assadeira, redonda ou retangular, com manteiga e polvilhe com cerca de 1 colher de farinha. Reserve.

Pré-aqueça o forno a 170 graus enquanto prepara a receita.

Em uma tigela, peneire a farinha, o chocolate em pó, o fermento e o sal. Misture e reserve.

Bata a manteiga, o óleo de coco e o açúcar na batedeira por vários minutos, até que a mistura esteja bem macia e leve. Acrescente a baunilha e bata um pouquinho mais. Use uma espátula para raspar os lados da tigela da batedeira.

Adicione um ovo de cada vez e bata por vários segundos entre um ovo e o outro, raspado os lados de vez em quando.

Despeje um pouco de leite, bata e acrescente um pouco da mistura da farinha. Continue assim, alternando o leite e a farinha até que estejam bem incorporados e a massa esteja homogênea e leve. Tome cuidado para não bater demais nesta etapa.

Despeje a massa na assadeira e leve ao forno por cerca de uma hora. Aqui vai depender um pouco do forno que você tem. A melhor maneira de saber se o bolo está completamente assado continua sendo o teste do palitinho de dente! Deixe esfriar uns minutos, depois retire da assadeira e deixe esfriar mais um pouco. Se quiser, polvilhe com açúcar de confeiteiro.

Voilà ! Este bolo não precisa de mais nada, mas se quiser deixá-lo incrível, sirva com um pouquinho de creme de amêndoas feito em casa (receita facílima a seguir). É puro prazer!

(Versão do bolo adaptada da receita original de Trisha Yearwood – Trisha’s Southern Kitchen – para Food Network)

 

Creme de amêndoas

Pré-aqueça o forno a 180 graus.

Distribua cerca de 1 xícara de amêndoas em uma assadeira. Você pode escolher se quer usar amêndoas com pele ou sem. A pele não altera o sabor, só deixa o creme mais escurinho.

Leve ao forno por cerca de 5 a 10 minutos.

Retire as amêndoas e despeje em um processador. Bata ou pulse por vários minutos. A princípio, as amêndoas vão virar pó. Continue batendo, raspando os lados do processador com uma faca ou espátula, e verá a mágica acontecer: o pó começará a virar uma pasta. Continue batendo um pouco mais, até atingir uma consistência bem macia e cremosa. O processo todo leva em torno de 10 minutos.

Obs.: O creme de amêndoas não é doce, já que amêndoas são o único ingrediente. Ele fica uma delícia assim, mas, se preferir, acrescente um pouco de mel ou de xarope de bordo (maple syrop) depois que o creme estiver pronto. Basta bater um pouco mais. Você pode acrescentar um pouquinho de baunilha também. Agora, sério, não há necessidade de nada disso!

 

 

A manteiga e o caramelo

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A manteiga existe há vários milênios, mas até virar isso que passamos no pão nosso de cada dia, muita coisa aconteceu. Antes ela era feita de leite de cabra ou de ovelha. Foi só bem mais tarde, com a domesticação do gado, que se passou a confeccioná-la com leite de vaca. Aí, em alguma altura do campeonato, começaram a adicionar sal, um conservante natural, ao creme para que ela durasse mais. No início, manteiga era coisa de camponeses pobres; mais tarde, caiu nas graças da nobreza. A história é longa… Aqui na França, um rei lá da Idade Média* resolveu impor uma taxa alta sobre o preço do sal em quase todo o território francês. As pessoas tiveram de parar de botar os cristaizinhos na manteiga. Aliás, tiveram de parar de botá-los em muitas outras coisas: o sal tinha virado artigo de luxo. Só que a Bretanha era, na época, uma província governada como se fosse uma nação separada dentro do reino e acabou ficando isenta de pagar esse tal de imposto. Ainda por cima, a região produzia o próprio sal. Com acesso fácil ao produto, os bretões continuaram acrescentar sal a tudo, inclusive à manteiga. Desde então, a manteiga salgada bretã adquiriu excelência e fama. Não é de se admirar que o caramelo salgado (e é aqui que eu queria chegar) tenha sido inventado lá, séculos mais tarde. A data de sua origem é meio incerta, mas foi no final da década de 1970 que ele começou a se popularizar graças a um chocolatier** que, para se diferenciar de seus concorrentes, criou um bombom usando chocolate, amêndoas e caramelo feito com um pouquinho da manteiga salgada local. Foi sucesso absoluto. De uns anos para cá, o caramel au beurre salé virou moda no mundo todo e aparece em forma de balas, bombons e também em calda, como essa da foto acima, cuja receita – fácil, fácil – eu deixo aqui. Quem não conhece pode se assustar: caramelo salgado? Não, não: você sente um pouquinho do sal, sim, mas a calda continua sendo bem doce, não se preocupe. Fica ótimo por cima de frutas, sorvetes, pipocas, crepes ou panquecas, rabanadas e bolos, como o brownie, por exemplo.

*Rei Philippe VI de Valois, em 1343.

**Chocolatier Henri Le Roux, em Quiberon, na Bretanha.

 

Caramelo com manteiga salgada (Caramel au beurre salé)

Ingredientes:

½ xícara de açúcar

2 colheres (sopa) de manteiga com sal

200 ml de creme de leite integral e fresco (procure não usar creme de leite de latinha porque o sabor dele é intenso e o resultado será diferente)

Preparo:

Leve uma panela com o açúcar ao fogo baixo. Deixe caramelizar, sem mexer, até ficar com aquela corzinha bem dourada. Se necessário, gire a panela de vez em quando para que o açúcar derreta uniformemente. Cuidado para que não passe do ponto: a gente sabe que caramelo queimado é amargo!

Retire do fogo, junte a manteiga e mexa bem.

Acrescente o creme de leite, leve de volta ao fogo baixo e mexa constantemente, até que o caramelo esteja bem homogêneo. Sirva morno ou frio. Se o puser na geladeira, ele vai ficar cremoso: uma delícia para comer às (pequenas) colheradas!

Obs.: Empelotou? Sem problema: leve ao fogo bem baixinho de novo e mexa até derreter.

 

Sobre excessos, carências e chocolates

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Paris tem “chocolateries” fantásticas, e algumas delas ainda fazem tudo “Maison”, da torrefação ao produto final. Visitá-las é um agrado a vários dos nossos sentidos. Hoje entrei numa e saí com um saquinho contendo pequeninos chocolates que eu trouxe para casa. Eles não são baratos. Mas isso é porque utilizam os melhores ingredientes, são feitos meticulosamente e exigem cuidados no armazenamento, já que chocolate não gosta de frio nem de calor. Normalmente esses quadradinhos ou bolinhas têm uma casquinha por fora que protege seu recheio. Quanto mais fina for essa casquinha, melhor é a sua qualidade. Os chocolates artesanais daqui parecem obras de arte em miniatura. Devem ser tratados com respeito. Nem se os preços não fossem proibitivos nós os deveríamos tratar com menos reverência. Não se devora um chocolatinho desses: a gente aprecia cada minúscula mordida da pequena maravilha. Há quem prefira enfiá-los inteiros na boca e saborear a explosão de sensações de uma vez. Também é válido, desde que se ponha atenção no que se está fazendo. A gente não come um chocolatinho desses assim, às pressas, vendo uma cena de suspense na TV ou andando da cozinha para a sala… Eles não são muito doces, por isso, podem não agradar a quem prefere barras e bombons mais açucarados. Costumam ser ou intensos ou delicados. Às vezes, são intensos e delicados ao mesmo tempo, por mais que essas qualidades pareçam incompatíveis. Portanto, não é só pelo preço que não os comemos aos montes. É que basta um mesmo. Ou dois…

A gente não precisa de muita coisa para ser feliz. E isso, embora verdade, é um danado de um clichê. Então, vou colocar de outro jeito: nada em excesso faz bem. Nem mesmo as coisas boas. Bem, essa é a minha opinião… O que varia, acho eu, é o que a gente considera excesso. Cada um tem um limite diferente. Veja bem, a terceira (ou quarta, ou quinta… quantifique como preferir) latinha de cerveja ou taça de vinho possivelmente vai resultar em enxaqueca ou ressaca – física ou moral -, e aquela xícara extra de café pode atrapalhar o sono dos mais sensíveis à cafeína. Acompanhar o que está acontecendo no mundo é essencial, mas assistir a noticiários indiscriminadamente deprime.  Um pouco de raiva pode ser positivo, porque nos impulsiona a fazer alguma coisa. No entanto, muita raiva causa estragos às vezes irremediáveis, a gente sabe. Até amor em demasia faz mal, já que o amor que a gente sente não costuma ter lá muito de sublime, não? Ele geralmente vem temperado de egoísmo, ciúmes, superproteção, sentimento de posse, controle… Vai dizer que muito disso é bom?

E tem outra, será que porque a gente pode, a gente deve? Aquela coisa que é tão sensacional, se feita, consumida, usada, comprada (preencha aqui com o verbo que quiser) com muita frequência, vai acabar virando banal e perdendo a graça. É uma pena quando o encanto acaba. Por isso, não quero comer esses chocolatinhos especiais todos os dias. Também não quero tomar banho de banheira todos os dias (o meio ambiente agradece), mesmo tendo a grande sorte de ter uma banheira no meu apartamento alugado. Um banho de banheira, quando a gente mora num país onde faz muito frio, equivale a um banho de piscina ou de mar no verão brasileiro. É uma bênção! Olha só, não quero nem papear com minhas amigas todos os dias. Espera, que explico: quero vê-las com muita frequência, claro, mas não todos os dias. Porque é uma delícia sentir um pouquinho de saudade e ter o que contar quando a gente se encontra. A espera também é um prazer porque a gente já curte por antecedência o que vai vir. A gente curte duas vezes.

É claro que o oposto de excesso também não é nada legal. Carência é péssimo, privação é chato. Quem é que adora um regime ou quando acaba a água? Gostaria de estar com meus pais e irmãos mais vezes, porque os visito muito pouco. Isso me faz muita falta. Meu filho adolescente logo vai para a universidade e vai morar bem longe. Queria poder continuar a vê-lo todos os dias, mesmo que só por alguns minutos. Mas o que para mim é uma necessidade básica para ele certamente é exagero. É aquela história que eu disse acima, de cada um ter um limite diferente.

Acho que o negócio é não pecar por um lado nem por outro. O melhor mesmo é a gente aproveitar os pequenos prazeres, cuidando para que continuem a ser pequenos prazeres. Hoje vou me deliciar com meus chocolatinhos da “chocolaterie” bacana e já sei que vai ser assim, porque sempre é: o primeiro que eu provar vai ser divino, o segundo vai ser bom e, se eu não parar, o terceiro não vai me dar, nem de longe, tanta satisfação quanto o primeiro. Melhor deixá-lo para amanhã. Isso vale para um monte de outras coisas. Ou será que estou enganada?

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Roquefort & Gorgonzola

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Alguns dizem que o Roquefort é o rei dos queijos franceses. Outros, que ele pode até não ser o rei dos queijos, mas é o queijo dos reis. Ou era, já que não há mais reis na França há um bom tempo. De qualquer forma, são produzidas quinze mil toneladas de Roquefort por ano, e oitenta por cento dessa quantidade toda é destinada ao consumo interno. É mesmo um caso de amor entre os franceses e um queijo de cheiro peculiar e sabor intenso.

Parece que o queijo de veias azuladas foi criado por acaso. Reza a lenda que, lá pelo século XI, um jovem pastor descansava numa gruta quando viu uma moça passar a distância. Ela era linda, e ele adorava um rabo de saia. Encantado, ele largou para trás sua bolsa com o queijo que pretendia comer no almoço e foi atrás da jeune femme. Ao voltar à gruta, meses mais tarde, viu que seu queijo havia sofrido uma transformação graças à ação de um fungo local (Penicillium roqueforti). O jovem experimentou o queijo mofado e adorou seu sabor forte e salgadinho. Daí, virou o que virou.

Em 1979, o Roquefort recebeu o selo de A.O.C. (Appellation d’Origine Contrôllée), que, até então, era dado somente a vinhos. Em 1996, ganhou o selo de A.O.P. (Appellation d’Origine Protégée). Recebem esses selos produtos que seguem regras bem específicas e rigorosas. No caso do queijo, ele só pode ser chamado de Roquefort se for produzido com leite cru das ovelhas da raça Lacaune da cidade de Roquefort e região (uma área de cerca de 150 quilômetros ao redor da cidade, no sudoeste da França); três-quartos da alimentação dessas ovelhas devem vir do solo dessa mesma região e, por fim, o queijo deve ser maturado nas grutas de Roquefort-sur-Soulzon durante um período de três a nove meses. As veias azuladas são criadas pelo fungo e resultam da ação da umidade e temperatura que se mantêm constantes dentro dessas grutas.

O Roquefort tem vários primos estrangeiros, como o inglês Stilton e o dinamarquês Danish Blue. Mas, sem dúvida, seu parente mais famoso é o italiano Gorgonzola, que parece ter nascido lá pelo século IX, na cidadezinha de Gorgonzola, pertinho de Milão.

O queijo Gorgonzola é feito de leite de vaca pasteurizado. Ele também tem um selo de proteção, o D.O.P. (Denominazione d’Origine Protetta), porque tanto os franceses quanto os italianos adoram preservar seus produtos mais queridos de invencionices e modificações. Fazem muito bem.

O Gorgonzola Piccante é figura fácil nos supermercados do Brasil. Mas há também um outro tipo, menos conhecido pelos brasileiros, o Gorgonzola Dolce, que de doce não tem nada. Ele leva esse nome porque possui menos veias, é mais cremoso e bem mais suave que o outro.

A origem do Gorgonzola, dizem, também está ligada a um jovem que tomava conta de um rebanho e ajudava a fazer queijos. Certa vez, ele resolveu dar uma escapada: deixou o trabalho e foi passar a noite nos braços da amada. Voltou ao trabalho ao amanhecer e, para que sua escapulida não fosse descoberta, juntou o coalho do dia anterior, que já não estava lá grande coisa, ao daquela manhã. O resultado foi que, assim, acabou criando um queijo que continuava macio mesmo quando envelhecido. O jovem furou o queijo para ver se conseguia secá-lo, e os furos acabaram causando mofo. E così è nato e il Gorgonzola. Ou assim o dizem.

O fungo do Gorgonzola é introduzido no leite junto com o coalho. Dias depois, fura-se o queijo com varetas fininhas de cobre ou aço para que o fungo se prolifere. Se observarmos um pedaço do queijo, poderemos ver algumas riscas onde foram feitos os furinhos. O Gorgonzola é maturado por um período de 50 (Dolce) a 80 dias (Piccante). Para receber esse nome, ele deve ser produzido nas regiões da Lombardia ou do Piemonte.

Os italianos fazem mais de 4 milhões de formas de Gorgonzola anualmente, das quais 91% é do tipo Dolce. Cerca de 16 mil toneladas são exportadas. É bastante queijo!

A semelhança entre as lendas que contam a origem dos dois queijos é interessante. Fica difícil saber de verdade qual surgiu primeiro, como e quando. Mas quem se importa, não?

Mas uma coisa é certa, é melhor degustar o produto verdadeiro: substituí-lo por um queijo azul de baixa qualidade dificilmente vai proporcionar uma experiência prazerosa, já que quase certamente a imitação será forte ou salgada demais.

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Gorgonzola com Mascarpone. Genial!

 

E por falar em experiências prazerosas…

 

Os dois queijos podem ser saboreados como petisco, acompanhados de torradinhas, tiras de aipo, frutas ou compotas e um bom vinho… E também são excelentes no preparo de pratos. Aqui vão cinco sugestões de como usar um ou outro na culinária:

  1. Faça uma salada de folhas verdes variadas, acrescente nozes caramelizadas (basta derreter um pouco de açúcar junto com algumas nozes quebradas), um punhadinho de uvas-passas (ou, melhor ainda, cranberries desidratados!), e seu queijo azul preferido, em pedacinhos. Tempere com um belo vinagrete feito de vinagre balsâmico e azeite extra virgem. Misture delicadamente e sirva.

 

  1. Acrescente um pouco de Gorgonzola junto com o queijo parmesão de praxe no final do preparo de um risoto basiquinho.

 

  1. Numa frigideira com um fio de azeite, sele pequenos medalhões de filé mignon (de mais ou menos 100 g cada) dos dois lados. Não precisa fritá-los completamente porque irão ao forno. Tempere com sal e pimenta (pouco sal: o queijo já é salgado!). Cubra cada pedaço de carne com um pedacinho de Roquefort e um pouquinho de alecrim fresco. Embrulhe os medalhões em massa folhada, formando ‘pacotinhos’. Você vai precisar abrir a massa e cortar alguns retângulos para fazer os pacotinhos. Arrume cada medalhão numa metade de cada retângulo, cubra com a outra metade e aperte os dois lados para que fechem bem. Pincele a parte de cima com um ovo batido e leve ao forno pré-aquecido para acabar de assar a carne e dourar a massa folhada (siga as instruções da embalagem da massa).

 

  1. Aproveite o friozinho para fazer uma polenta bem molinha e servi-la como se faz em Bergamo, a terra da polenta: por cima de um pedaço de Gorgonzola Dolce.

 

  1. Derreta um pedaço de Roquefort ou Gorgonzola com um pouquinho de creme de leite fresco. Tempere com pimenta (e sal, se preferir) e sirva por cima do bife ou hambúrguer. Fácil, fácil.

 

Fontes:

academiabarilla.com

http://www.gorgonzola.com/il-formaggio-gorgonzola-le-origini/

http://www.saporinews.com/2014/04/dati-di-vendita-lo-confermanoil-formaggio-gongorzola-e-piu-forte-della-crisi/

https://fr.wikipedia.org/wiki/Roquefort_(fromage)

 

 

 

 

 

Os miseráveis de Paris

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Há muitos necessitados em Paris. Nós os vemos por todos os lados. Necessitados é um termo muito vago que poderia ser substituído por mendigos, pedintes, desafortunados, pessoas em situação de rua, até mesmo miseráveis – na sua primeira definição, a de excessivamente pobres. Seja qual for o termo que eu escolher, a ideia vai ficar incompleta e a conotação vai ser negativa. Dar esmola é outro termo que acho terrível. Soa pequeno, insuficiente, condescendente. Mas vou usá-lo aqui também, porque não vou conseguir fugir dele.

Cotidianamente vejo os mesmos necessitados pelas ruas por onde passo. Tenho minha rotina, faço os mesmos caminhos, eles também. Pego o metrô no mesmo horário todas as manhãs e entro no último vagão. Quando o trem para na estação Franklin Roosevelt, de onde estou, vejo uma senhora sentada num dos bancos da plataforma, dormindo de braços cruzados e com a cabeça caída para a frente. Nunca vejo seu rosto. Ela está sempre com a mesma roupa, que, com o passar do tempo (eu a vejo há meses), tem ficado mais rota. As portas do trem se fecham e eu sigo viagem. Vejo a senhora por poucos segundos, mas a cena é igual todas as vezes.

Todos os dias vejo um senhor sentado num degrau de uma rua perto de casa, acompanhado de seu cachorro. No chão, há um papelão com a mensagem nous avons faim (temos fome). Ele está sempre de olhos baixos, fazendo palavras-cruzadas. Tem um jeito muito distinto e não parece estar pedindo dinheiro. Bem-vestido, não fosse por aquele papelão, ninguém o tomaria por mendigo.

Muitos desses necessitados espalhados pela cidade são franceses, mas há inúmeros refugiados também, como a família sentada no chão do Trocadéro: o pai numa ponta, os dois filhos no meio e a mãe na outra ponta. Ou o casalzinho jovem aqui da esquina, ou o rapaz da rua da frente. São alguns poucos exemplos, entre tantos outros casos.

Recentemente, vi uma mulher que, pelas roupas, parecia ser do norte europeu. Ela carregava um bebezinho dormindo no colo. Na mesma hora, lembrei de um artigo de revista que havia lido anos antes sobre essas mulheres pedintes que trazem sempre um bebê dormindo. Os bebês não são seus filhos e estão drogados, dizia a revista. Dormindo, eles passam um ar de anjinhos e comovem as pessoas. O artigo era taxativo: não dê esmola para essas mulheres!

Mas foi há poucos dias que vi uma cena mais perturbadora: outra dessas mulheres sentada no chão, com uma criança bem grande no colo. O menino devia ter sete ou oito anos. Ele dormia profundamente, e ela parecia mal aguentar segurá-lo. A mulher virou para mim com olhar de súplica. Desviei os olhos, pensando em como uma criança daquela idade podia estar dormindo tão pesadamente àquela hora da tarde, e fiquei cheia de revolta. Olhei de novo. O semblante dela se abriu, provavelmente porque ficou esperançosa, achando que eu havia me sensibilizado e que lhe daria alguma coisa. Não dei. Eu estava era indignada. Se eu falasse bem francês, se conhecesse as regras locais, com certeza teria procurado um policial e avisado, pensei. Não sei se teria tido coragem, na verdade, mas quis acreditar que eu teria tomado alguma providência.

Naquela noite, perdi o sono. Aquela cena não saía da minha cabeça. Eu me perguntava para onde aquele menino teria sido levado quando saíram dali. Teria sofrido violência física ou psicológica? A mulher também? Onde se alojavam? Como eu pude não ter ajudado? Como pude arbitrar sem ter conhecimento dos fatos? Que direito eu tive, ou melhor, tenho, de presumir qualquer coisa sobre quem quer que seja, se não estou sentindo na pele o que a pessoa está? Absolutamente nenhum. Não conheço a história dessas pessoas, não sei por que estão na situação em que estão. Então, não posso julgá-las. Mesmo se fosse possível conhecer sua história, eu não saberia o que se passa no seu íntimo. Então, não poderia julgá-las. Mesmo se fosse possível conhecer o que se passa no seu íntimo, eu as estaria julgando conforme meu íntimo, minhas vivências, meus valores. Então, não poderia julgá-las. A única pessoa que posso julgar sou eu mesma.

Mas e aí, diante da miséria alheia, como agir? Há pessoas que não se abalam com isso e não dão esmolas (eis o termo que acho terrível). É uma escolha válida. Se não existe um conflito interno, está tudo bem. Bom para elas. Por outro lado, há aquelas que se engajam, arregaçam as mangas, dedicam-se a aliviar o sofrimento dos outros. Eu as admiro e respeito profundamente. Não faço parte do primeiro grupo nem do segundo. O que faço é dar uns trocados aleatoriamente (como se alguns trocados fizessem alguma diferença) ou, pior ainda, escolhendo aqueles que parecem precisar mais ou merecer mais. Que critério mais absurdo é esse? Não é uma piada? Que prepotência a minha! Quem eu penso que sou?

Por que, afinal, dou esmolas? Não é para me sentir bem, para poder comer um éclair de cinco euros sem sentir culpa? Ora, dar esmolas é um ato egoísta ou de compaixão? Faço isso por eles ou por mim? E importa? Para quem recebe, possivelmente não. Para quem dá, acho que sim. Será que o que nos move (o que me move) não é uma noção religiosa – e distorcida – de que se não o fizermos seremos julgados por Deus? Deus, ando pensando, não tem nada com isso. Não o Deus em que acredito, que não julga nem castiga. Deixemos Deus fora disso. A coisa é entre mim e mim (num português capenga): o que aquela situação provoca em mim, que sentimentos ela gera e como eu reajo a eles, o que faço a partir daí. Só que, na maior parte das vezes, esqueço de pensar assim e me deixo mover, sim, pela culpa. Faço pouco e me culpo muito. Combinação desastrosa.

O outono chegou trazendo o frio de volta à cidade. Daqui para a frente, esfriará mais e mais. As estações de metrô se encherão de desabrigados à noite. Muitos dormem lá para se proteger das temperaturas baixas e das chuvas, que, no inverno, são quase diárias. Vou continuar a vê-los de manhã quando pegar o trem. Vou continuar a olhar para eles quando andar pelas ruas, achar alguma moeda no fundo do bolso, brincar de juíza e escolher para quem dá-la, mas logo, distraída, desviar o olhar para as vitrines lindas das lojas de Paris.

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A miséria sempre me chamou atenção em todos os lugares onde morei: São Paulo, Rio, Londres, São Francisco… Ela pode ter causas distintas e ser expressa de formas diferentes, a gente sabe. E, obviamente, há vários níveis de pobreza. Mas fome é sempre fome, frio é sempre frio, desabrigo é sempre desabrigo, desespero é sempre desespero. Falei dos miseráveis de Paris porque é o onde estou no momento.