Os miseráveis de Paris

thumbnail_fullsizerender

Há muitos necessitados em Paris. Nós os vemos por todos os lados. Necessitados é um termo muito vago que poderia ser substituído por mendigos, pedintes, desafortunados, pessoas em situação de rua, até mesmo miseráveis – na sua primeira definição, a de excessivamente pobres. Seja qual for o termo que eu escolher, a ideia vai ficar incompleta e a conotação vai ser negativa. Dar esmola é outro termo que acho terrível. Soa pequeno, insuficiente, condescendente. Mas vou usá-lo aqui também, porque não vou conseguir fugir dele.

Cotidianamente vejo os mesmos necessitados pelas ruas por onde passo. Tenho minha rotina, faço os mesmos caminhos, eles também. Pego o metrô no mesmo horário todas as manhãs e entro no último vagão. Quando o trem para na estação Franklin Roosevelt, de onde estou, vejo uma senhora sentada num dos bancos da plataforma, dormindo de braços cruzados e com a cabeça caída para a frente. Nunca vejo seu rosto. Ela está sempre com a mesma roupa, que, com o passar do tempo (eu a vejo há meses), tem ficado mais rota. As portas do trem se fecham e eu sigo viagem. Vejo a senhora por poucos segundos, mas a cena é igual todas as vezes.

Todos os dias vejo um senhor sentado num degrau de uma rua perto de casa, acompanhado de seu cachorro. No chão, há um papelão com a mensagem nous avons faim (temos fome). Ele está sempre de olhos baixos, fazendo palavras-cruzadas. Tem um jeito muito distinto e não parece estar pedindo dinheiro. Bem-vestido, não fosse por aquele papelão, ninguém o tomaria por mendigo.

Muitos desses necessitados espalhados pela cidade são franceses, mas há inúmeros refugiados também, como a família sentada no chão do Trocadéro: o pai numa ponta, os dois filhos no meio e a mãe na outra ponta. Ou o casalzinho jovem aqui da esquina, ou o rapaz da rua da frente. São alguns poucos exemplos, entre tantos outros casos.

Recentemente, vi uma mulher que, pelas roupas, parecia ser do norte europeu. Ela carregava um bebezinho dormindo no colo. Na mesma hora, lembrei de um artigo de revista que havia lido anos antes sobre essas mulheres pedintes que trazem sempre um bebê dormindo. Os bebês não são seus filhos e estão drogados, dizia a revista. Dormindo, eles passam um ar de anjinhos e comovem as pessoas. O artigo era taxativo: não dê esmola para essas mulheres!

Mas foi há poucos dias que vi uma cena mais perturbadora: outra dessas mulheres sentada no chão, com uma criança bem grande no colo. O menino devia ter sete ou oito anos. Ele dormia profundamente, e ela parecia mal aguentar segurá-lo. A mulher virou para mim com olhar de súplica. Desviei os olhos, pensando em como uma criança daquela idade podia estar dormindo tão pesadamente àquela hora da tarde, e fiquei cheia de revolta. Olhei de novo. O semblante dela se abriu, provavelmente porque ficou esperançosa, achando que eu havia me sensibilizado e que lhe daria alguma coisa. Não dei. Eu estava era indignada. Se eu falasse bem francês, se conhecesse as regras locais, com certeza teria procurado um policial e avisado, pensei. Não sei se teria tido coragem, na verdade, mas quis acreditar que eu teria tomado alguma providência.

Naquela noite, perdi o sono. Aquela cena não saía da minha cabeça. Eu me perguntava para onde aquele menino teria sido levado quando saíram dali. Teria sofrido violência física ou psicológica? A mulher também? Onde se alojavam? Como eu pude não ter ajudado? Como pude arbitrar sem ter conhecimento dos fatos? Que direito eu tive, ou melhor, tenho, de presumir qualquer coisa sobre quem quer que seja, se não estou sentindo na pele o que a pessoa está? Absolutamente nenhum. Não conheço a história dessas pessoas, não sei por que estão na situação em que estão. Então, não posso julgá-las. Mesmo se fosse possível conhecer sua história, eu não saberia o que se passa no seu íntimo. Então, não poderia julgá-las. Mesmo se fosse possível conhecer o que se passa no seu íntimo, eu as estaria julgando conforme meu íntimo, minhas vivências, meus valores. Então, não poderia julgá-las. A única pessoa que posso julgar sou eu mesma.

Mas e aí, diante da miséria alheia, como agir? Há pessoas que não se abalam com isso e não dão esmolas (eis o termo que acho terrível). É uma escolha válida. Se não existe um conflito interno, está tudo bem. Bom para elas. Por outro lado, há aquelas que se engajam, arregaçam as mangas, dedicam-se a aliviar o sofrimento dos outros. Eu as admiro e respeito profundamente. Não faço parte do primeiro grupo nem do segundo. O que faço é dar uns trocados aleatoriamente (como se alguns trocados fizessem alguma diferença) ou, pior ainda, escolhendo aqueles que parecem precisar mais ou merecer mais. Que critério mais absurdo é esse? Não é uma piada? Que prepotência a minha! Quem eu penso que sou?

Por que, afinal, dou esmolas? Não é para me sentir bem, para poder comer um éclair de cinco euros sem sentir culpa? Ora, dar esmolas é um ato egoísta ou de compaixão? Faço isso por eles ou por mim? E importa? Para quem recebe, possivelmente não. Para quem dá, acho que sim. Será que o que nos move (o que me move) não é uma noção religiosa – e distorcida – de que se não o fizermos seremos julgados por Deus? Deus, ando pensando, não tem nada com isso. Não o Deus em que acredito, que não julga nem castiga. Deixemos Deus fora disso. A coisa é entre mim e mim (num português capenga): o que aquela situação provoca em mim, que sentimentos ela gera e como eu reajo a eles, o que faço a partir daí. Só que, na maior parte das vezes, esqueço de pensar assim e me deixo mover, sim, pela culpa. Faço pouco e me culpo muito. Combinação desastrosa.

O outono chegou trazendo o frio de volta à cidade. Daqui para a frente, esfriará mais e mais. As estações de metrô se encherão de desabrigados à noite. Muitos dormem lá para se proteger das temperaturas baixas e das chuvas, que, no inverno, são quase diárias. Vou continuar a vê-los de manhã quando pegar o trem. Vou continuar a olhar para eles quando andar pelas ruas, achar alguma moeda no fundo do bolso, brincar de juíza e escolher para quem dá-la, mas logo, distraída, desviar o olhar para as vitrines lindas das lojas de Paris.

~ 0 ~

A miséria sempre me chamou atenção em todos os lugares onde morei: São Paulo, Rio, Londres, São Francisco… Ela pode ter causas distintas e ser expressa de formas diferentes, a gente sabe. E, obviamente, há vários níveis de pobreza. Mas fome é sempre fome, frio é sempre frio, desabrigo é sempre desabrigo, desespero é sempre desespero. Falei dos miseráveis de Paris porque é o onde estou no momento.

São Francisco, ícones e curiosidades

IMG_6878
Painel do Panama-Pacific International Exposition, de Young Museum (foto FPFA)

Do Terremoto à Feira Internacional

São Francisco era uma cidade jovem no início do século passado. Contava com 400 mil habitantes, escolas, hotéis, teatros, parques e museus. A cidade havia sofrido com enchentes, pragas, incêndios e governos corruptos, mas, ainda assim, já era um dos maiores centros urbanos americanos.

Na manhã de 18 de abril de 1906, um terremoto de magnitude 7,8 atingiu a cidade. Com o desmoronamento das casas e prédios, canos de gás estouraram e focos de incêndio se espalharam por todos os lados. O sistema de água se rompeu e a cidade ficou sem uma gota de água. Os bombeiros tentavam conter o fogo usando dinamite, o que, muitas vezes, ao contrário do que esperavam, aumentava o problema. As construções, quase todas de madeira e muito próximas umas das outras, arderam em chamas por vários dias. Cerca de 80% da cidade foi completamente destruída – foram 25 mil construções em 490 quarteirões. Estima-se que milhares de pessoas tenham morrido e que centenas de milhares tenham ficado desabrigadas. Muitas fugiram para Oakland e Berkeley.

Aos poucos, bastante gente retornou. Logo foram feitos planos de reconstrução. Todos queriam São Francisco de volta. Contra as previsões dos pessimistas e incrédulos, a cidade renasceu rapidamente e, nove anos mais tarde, foi palco da Panama-Pacific Exposition (PPIE), uma feira internacional que tinha como objetivo comemorar a abertura do Canal do Panamá e também mostrar ao mundo que São Francisco havia ressurgido maior e melhor que nunca. A feira durou dez meses e recebeu cerca de 19 milhões de visitantes vindos de 48 estados americanos e 21 países. Um número exorbitante, dadas as condições da época.

Para abrigar todas as obras de arte, shows e atividades diversas que faziam parte da feira, várias construções foram erguidas provisoriamente por toda a cidade. Quase todas foram demolidas depois, mas algumas restaram intactas, como o Palace of Fine Arts (hoje, vazio), na Marina.

IMG_0454
Palace of Fine Arts (foto FPFA)

 

Golden Gate Bridge: um ícone por acaso

Golden Gate é o nome da passagem entre a Baía de São Francisco e o Oceano Pacífico. A ponte foi construída ali em meio a muita controvérsia. Muitos acreditavam que ela estragaria a linda vista e que teria um impacto negativo no turismo. Em 1937, quando ficou pronta, resolveram de última hora que, em vez de pintá-la de cinza, a cor mais óbvia para pontes, iriam deixá-la da cor laranja-avermelhada, a cor da camada de tinta antiferrugem que havia sido usada para proteger suas partes, porque ela fazia um belo contraste com o verde das colinas e o azul do mar e do céu. Inserida numa paisagem incrível daquelas e daquela cor, quem poderia esquecê-la? A ponte acabou se transformando no mais importante símbolo da cidade.

DSCN1240
A ponte, vista do Presidio Park (foto FPFA)

 

Streetcars

Enquanto em muitos lugares eles pertencem a museus, em São Francisco os bondinhos ainda circulam nas ruas e fazem a linha F-Market & Wharves. Há bondinhos que datam dos anos 1930 e que vieram de várias cidades americanas, além de cidades europeias, como Milão e Lisboa. São um charme!

DSCN0419
Um dos charmosos bondinhos de São Francisco (foto FPFA)

 

Cable cars

Outro símbolo de São Francisco, os cable cars são bondinhos operados manualmente e que se locomovem através de cabos subterrâneos. Quase saíram de circulação completamente algumas décadas atrás, mas, por meio de um referendo, os apaixonados por eles conseguiram manter três linhas ativas – hoje usadas principalmente por turistas.

IMG_6999
Um cable car subindo a California Street (foto FPFA)

 

Transamerica Building

Com 48 andares, foi construído entre 1969 e 1972 e é o prédio mais alto de São Francisco. Sua construção também gerou protestos. Muitos diziam que o prédio alto em forma de pirâmide estragaria a visão do lindo céu da cidade. Hoje ele é outro ícone. Imponente, a gente o enxerga de onde a gente estiver.

IMG_6276
O Transamerica Building com a Bay Bridge por trás (foto FPFA)

 

Painted Ladies

Com a descoberta de ouro na região e o subsequente aumento da população de São Francisco, milhares de casas foram construídas nos estilos vitoriano e eduardiano entre os anos de 1849 e 1915. Eram todas bem coloridas. Depois, vieram a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais e ninguém mais tinha dinheiro para manter as casas ajeitadinhas. Muitas delas acabaram sendo pintadas de branco, porque tinta branca era muito barata, ou de cinza, com as sobras das tintas que haviam sido usadas para pintar os navios de guerra. Muito sem graça… Só lá pelos anos 1960 é que elas voltaram a ficar coloridas, graças a um artista que pintou a sua casa de azul e verde e, com isso, incentivou outros proprietários a fazerem o mesmo – e aos hippies (quem diria!), que pintaram suas casas em Haight-Ashbury de cores diversas. Os tons das casas variam de fortes a pastel.

O termo ‘Painted Ladies’ foi usado por dois escritores no título de seu livro sobre as casas vitorianas (Painted Ladies – San Francisco Resplendent Victorians, de Elizabeth Pomada e Michael Larsen, 1978) e passou a designar todas as casas daquele estilo. Mas, sem dúvida, as mais famosas são as da Steiner Street, em frente ao Alamo Square.

DSC_0010
As mais famosas ‘Painted Ladies’ contrastando com os prédios modernos atrás (foto FPFA)

 

Ilha de Alcatraz

Primeiro havia ali só um farol. Depois, construíram na ilha um forte e uma prisão militar. Mais para a frente, aquilo virou uma penitenciária federal que ficou famosa pelos criminosos que estiveram detidos lá, como Al Capone e Robert Franklin Stroud (conhecido como o ‘Birdman de Alcatraz’), entre outros. Hoje o lugar pertence ao National Park Service e está aberto ao público. A balsa chega rapidinho, já que a ilha fica a pouco mais de dois quilômetros de distância.

IMG_0429
Alcatraz (foto FPFA)

 

Calça Levi’s

Como tanta gente, Levi Strauss e Jacob Davis imigraram para a América ainda bem jovens. O primeiro era alemão e o segundo era russo. Ambos viveram em São Francisco até morrerem. Jacob era alfaiate e Levi era seu fornecedor de tecidos. Atendendo ao pedido da esposa de um lenhador que queria uma calça resistente para seu marido, Jacob criou um modelo que levava costuras duplas, tinha bolsos e, para fazê-lo, usou um tecido grosso e rústico (denim) que costumava comprar na Levi Strauss & Co. para fazer tendas e capas para cavalos, entre outras coisas. Nascia o blue jeans. A calça fez sucesso imediato. Jacob, com a ajuda financeira de Levi, patenteou o jeans em 1873. Levi abriu uma grande loja em São Francisco para vender a criação de Jacob, e o resto é história.

IMG_7111
(foto FPFA)

 

Televisão

Muitos estavam tentando, mas a primeira transmissão em televisão eletrônica foi feita por um garoto de vinte um anos chamado Philo Farnsworth. O feito aconteceu num laboratório na Green Street no dia 7 de setembro de 1927. Farnsworth transmitiu eletronicamente a figura de uma linha que se movia, usando seu ‘dissector de imagem’, de dentro de uma sala para um receptor numa outra sala. Parece pouco, mas veja só no que deu!

 

Sanduíche de sorvete

Alguém tinha de inventá-lo! E foi um cara chamado George Whitney, em 1928, que teve a ideia de botar sorvete de baunilha no meio de dois biscoitos de aveia. O nome da invenção? ‘It’s it’. Depois a fábrica se mudou de São Francisco para Burlingame, um pouquinho ao sul.

 

Cupid’s Span

Em 2002, os fundadores da Gap, Donald e Doris Fisher, encomendaram aos artistas Claes Odenburg e Coosje van Bruggen uma escultura enorme de um arco e flecha para expressar a ideia de que Cupido havia passado pela cidade. A escultura ficou pronta e foi montada durante a noite, causando espanto, admiração ou choque em todos os que passaram por ela na manhã seguinte. Ninguém ficou indiferente… Alguns a viram com ceticismo no início, mas ela acabou virando outro ícone da cidade e não vai sair de onde está tão cedo.

_MG_6769
O arco e flecha do Cupido, no Embarcadero (foto FPFA)

 

Algumas das empresas que adoramos e que nasceram ou têm sua sede em São Francisco

Instagram, Yelp, Uber, Lyft, Airbnb, Pinterest, Twitter, Open Table, Levi Strauss & Co., Gap Inc., Banana Republic e Old Navy, Lucasfilm… A lista continua, mas dá para se ter uma ideia.

São Francisco sempre foi inovadora. Lançou e continuará a lançar tendências. Ela acolhe a diversidade de bom grado e tem a mente no futuro, mas valoriza e protege seu passado. Embora tenha lá seus defeitos e seus problemas, suas qualidades são muitas e renderiam ainda incontáveis posts. Não tenho mais tempo, preciso ir embora. Paris me aguarda. Ah, mas qualquer hora eu volto…

– 0 –

E por falar em São Francisco ainda só mais um pouquinho…

A banda Train, que é de São Francisco, fez o vídeo abaixo. A música é uma delícia e as imagens da cidade são lindas! Dá só uma olhadinha:

 

Em 1962, Tony Bennett gravou a canção ‘I left my heart in San Francisco’. Pode ser o maior clichê do mundo, mas quem vai embora de lá sempre deixa um bocadinho do coração para trás, não tem jeito. Aqui vai o vídeo:

 

 

Fontes:

 

San Francisco Chronicle

San Francisco 1015 – Panama-Pacific International Exposition DVD

Jewel City, Art from San Francisco’s PPIE, de Young Museum

This Bridge will not be Gray, by Dave Eggers

Wikipedia

Vida de expatriados

IMG_6737

Muda-se de país por inúmeras razões. A nossa é o trabalho do Marido. Já passamos por isso diversas vezes e, nesta altura, sabemos mais ou menos o que esperar. Ajuda, embora nunca fique fácil… Tenho uma lista enorme de providências a tomar para a mudança que sairá daqui a dois meses. Mas, em vez de providências, vou é tomar um café… e escrever sobre como é essa coisa de pular de galho em galho. Vamos lá:

Mudanças são uma ótima oportunidade para a gente se desfazer de coisas, doando-as, vendendo-as ou até mesmo jogando-as fora. Então, separamos  aparelhos domésticos – que não funcionarão no novo destino por causa da voltagem diferente -, utensílios, brinquedos, papelada, revistas… A lista é longa e a trabalheira é enorme. Desfazer-se do que não é útil, bonito ou tem valor sentimental é algo que deveríamos fazer sempre, dizem os gurus da organização, mas a gente às vezes se esquece. Ao mudarmos de casa, ainda mais quando vamos para um outro continente, não há como evitá-lo. E lá se vão os potinhos de ervas aromáticas para o lixo e o vinho do Porto para o ralo. A gente tenta aproveitar tudo o que há na despensa para evitar desperdícios, e  se pergunta o que fazer com os pacotes abertos contendo restinhos de macarrão, de arroz, de farinha… Quem vai herdar a planta da sala? Mudar é um exercício de desapego.

Quando o caminhão de mudança vai embora com tudo aquilo que, até então, era nosso lar, é hora de fechar a porta pela última vez e partir para o novo destino. Se esse destino for um lugar desconhecido ou pouco conhecido, como tem acontecido conosco durante duas décadas, a gente vai recomeçar do zero, que é tão excitante quanto assustador.

A gente chega e reza para que ninguém fique doente antes de conseguirmos referências de médicos e dentistas. A gente enche a geladeira e os armários da nova casa com produtos de marcas estranhas, escolhidos no supermercado na base do mamãe-mandou – e adora quando encontra a pasta de dente da marca multinacional. A gente vai ao cabeleireiro pela primeira vez e prende a respiração, morrendo de medo de que ele faça um estrago devido a falhas na comunicação. E a calça recém-comprada vai ficar sem bainha por um bom tempo…

Chegar de mudança é  introduzir um elemento de fora numa história que já vem acontecendo há muito tempo, com seus personagens entrelaçados e vivendo suas vidas muito bem, obrigada. Chegamos. Não conhecemos ninguém. Precisamos absolutamente conhecer pessoas. As amizades não ocorrem tão naturalmente, elas são praticamente impostas pelo nosso instinto de sobrevivência. Entramos na vida das pessoas que sempre estiveram ali e causamos algum rebuliço. Elas, que já têm suas rotinas estruturadas, abrem espaço para a novidade: nós. E, aos poucos, vamos nos conquistando mutuamente ou nos distanciando. As afinidades acabarão fazendo a seleção com naturalidade e, certamente, depois de um tempo, teremos feito alguns grandes amigos.

Desbravar o bairro, explorar as ruas vizinhas, achar caminhos, descobrir onde ficam o banco, a farmácia, a padaria (será que há padarias?)… tudo isso pode ser delicioso ou, então, um pesadelo. Vai depender da nossa atitude. Comparar um lugar com outro, o que tínhamos antes com o que temos agora, o que era e já não é, costumes ou seja lá o que for é a receita perfeita para a frustração e o sofrimento. Quer ser feliz? Não compare. Quando a gente aceita cada realidade como ela é, nossas chances de adaptação são muito maiores. Se nos abrimos para o novo, para o diferente, só temos a ganhar: perdemos preconceitos, ampliamos horizontes, revemos valores e aprendemos muito.

Não demora e começamos a nos envolver com a cultura, a história e os costumes do lugar. O que sabíamos dele até então era o que tínhamos lido em livros e jornais ou visto na TV. Era tudo abstrato. A realidade é muito mais rica e complexa, claro. Passamos a acompanhar questões políticas e econômicas com mais interesse, seguimos seriados locais na TV, ouvimos as músicas que tocam frequentemente no rádio e já sabemos o nome de quem as canta.

Depois de algum tempo, já temos nossa cafeteria preferida, conhecemos atalhos para o trabalho e a escola, e a moça da lavanderia nos cumprimenta pelo nome. Já fazemos parte. E é quando tudo está assim, encaixadinho e confortável de novo, que normalmente a gente tem de mudar outra vez… Aí, largamos tudo para trás. As amizades a gente tenta manter. Graças às facilidades da tecnologia, trocamos mensagens recheadas de beijos, abraços e promessas de sempre manter contato. Mas a gente já sabe que não vai mais fazer parte do dia a dia daquelas pessoas. Deixaremos de ter acesso aos novos hits dos cantores de quem aprendemos a gostar, não saberemos que fim vai levar aquele último escândalo político e nem como vai terminar a novela.

Haja coração para lidar com tudo isso! Ajuda pensar que no próximo destino há pessoas fantásticas que ainda não conhecemos, mas que, em breve, vão se tornar queridas, que vamos nos deslumbrar muitas vezes com um monte de coisas incríveis que veremos e viveremos, e que, se os perrengues são inevitáveis (e há sempre muitos perrengues), no mínimo, eles nos ensinarão alguma coisa. Então, vale a pena? Eu acho que sim, vale muito!

IMG_6751
Feito Peixe Fora d’Água vai se mudar de São Francisco para Paris

~ O  ~

Essa é a perspectiva de um terço da minha família. 🙂 O Marido, com as responsabilidades do cargo recém-iniciado, e o Filho, com a nova escola, precisam administrar ainda muitas outras emoções.

** Seja lá onde a gente estiver, a saudade da família que ficou para trás é constante. Mas isso eu nem preciso dizer, não?

*** Quando somos expatriados porque o trabalho nos transfere, temos uma rede de apoio por trás, o que facilita muito a experiência toda. Mas conheço várias pessoas que saíram do Brasil só com a cara e muita coragem, atrás de um sonho ou de melhores condições de vida. O que lhes faltava em estrutura e recursos lhes sobrava em determinação e garra. A todas elas, deixo minha grande admiração.

 

Affogato al Caffè

Está preparando um jantarzinho para amigos, mas não vai ter tempo para fazer a sobremesa? Servir um Affogato al Caffè pode ser a solução. É doce, mas não doce demais e leva só o tempo de preparar o café. Mais fácil, impossível! Olha como se faz:

Faça café suficiente para o número de convidados (use uma xícara das de café como medida para cada um) e adoce-o, se quiser. Vale até café descafeinado, se preferir.

Em um copo ou taça, coloque de duas a três bolas de sorvete de baunilha, fior di latte ou creme e despeje o café por cima (verifique se a taça aguenta o choque de temperaturas!). Repita de acordo com o número de pessoas.

Para deixar a sobremesa mais interessante, você pode lambuzar o fundo da taça com Nutella ou calda de chocolate e/ou polvilhar o sorvete com raspas de chocolate. Muitos restaurantes italianos servem o sorvete com panna montata (creme de leite fresco batido) por cima. Mas, aí, já começa a complicar, não?

Pois é, isso é só sorvete com café… Mas se a chamarmos de Affogato al Caffè, a sobremesa muda de nível, concorda?

(Affogato al Caffè. Feito Peixe Fora d'Água)
(Affogato al Caffè. Feito Peixe Fora d’Água)

Nova Orleans: o jazz, a culinária e o French Quarter

(Foto de Feito Peixe Fora d'Água, em set/98)
(Foto de Feito Peixe Fora d’Água)

O jazz

O jazz surgiu no final do século XIX, depois do blues e do ragtime, e seu aparecimento não está bem registrado. As primeiras gravações foram feitas quando a tecnologia era ainda bastante limitada. Há também controvérsia quanto ao seu berço. Mas não há como negar que o gênero musical foi fortemente influenciado pela cultura Creole de Nova Orleans.

Muitos músicos negros Creoles pertenciam à classe alta de Nova Orleans e frequentemente eram educados em Paris. Voltavam com um conhecimento amplo e formal de música e tocavam com técnicas precisas. Mesmo os que não iam até a Europa costumavam aprender a tocar instrumentos europeus.

Em contraste, do outro lado da cidade habitavam escravos recém-libertados. Os ex-escravos tocavam blues e música gospel de ouvido e com muita improvisação. Os negros ricos e os ex-escravos viviam em dois mundos à parte… até que veio uma lei segregatória que obrigou os negros livres Creoles a se mudarem para o outro lado da cidade, aquele onde viviam os ex-escravos. Do encontro dessas duas culturas distintas nasceu o traditional New Orleans jazz.

(Nos clubes, nas casas de shows, nas ruas... o jazz está em todos os lados de Nova Orleans. fpfd)
(Nos clubes, nas casas de shows, nas ruas… o jazz está em todos os lados de Nova Orleans. FPFD)

A história do jazz é bem longa e tem muitas ramificações. Com o tempo, surgiram variações como o gypsy jazz, o cool jazz,, smooth jazz… Aqui vai só uma pincelada bem superficial. Para saber mais, dê uma olhada nas fontes no final do post.

Curiosidades:

-Louis Armstrong, um dos mais importantes e conhecidos intérpretes do jazz, nasceu em Nova Orleans em 4 de agosto de 1901.

-Jazz costumava ser tocado em funerais de pessoas ilustres da cidade.

– 0 –

A culinária

(Foto de Feito Peixe Fora d'Água)
(Foto de Feito Peixe Fora d’Água)

Tanto Creole quanto Cajun são termos largamente empregados para designar a culinária de Nova Orleans. Essas são duas culturas diversas e, portanto, seus estilos são diferentes, apesar de ambas usarem condimentos fortes e ingredientes parecidos. Para quem é de fora, não é tão fácil assim distingui-las.

Originalmente, a cozinha Creole era mais aristocrata e urbana. Era preparada por escravos de membros da sociedade e usava grande abundância de ingredientes. Os primeiros Cajuns*, no entanto, viviam em zonas rurais. Sem acesso a nenhum tipo de refrigeração ou a outras modernidades da cidade, tinham que se virar com o os recursos que conseguiam, e o faziam com muito talento. Da necessidade de não desperdiçar nada surgiram linguiças e salsichas como Boudin e Andouille, por exemplo.

(Foto de Feito Peixe Fora d'Água)
(Foto de Feito Peixe Fora d’Água)

Gumbo, Jambalaya, Crawfish Étouffée, Shrimp Creole, Po-Boy, Red Beans’n’Rice e Beignets estão entre os pratos locais mais conhecidos. Mas a variedade é imensa! E deliciosa! Pelas ruas do French Quarter se sente também o cheirinho tentador das Pralines vindo das diversas lojas que fazem o doce de açúcar derretido e amêndoas diariamente.

*No post anterior, há um pouquinho da história dessas duas culturas. Para lê-lo, clique aqui.

(Beignets com café au lait. FPFD)
(Beignets com café au lait. FPFD)

– 0 –

O French Quarter

(Varanda típica do French Quarter. FPFD)
(Varanda típica do French Quarter. FPFD)

O French Quarter é o bairro mais antigo – e vibrante – de Nova Orleans. Como fica numa região um pouco mais elevada que o restante da cidade, acabou sendo bem mais poupado da destruição causada pelo Katrina, em agosto de 2005, que outras regiões da cidade. Com a força do furacão, barragens inadequadas que protegiam a cidade das águas do Rio Mississippi e do Lago Pontchartrain partiram, e 80% da cidade ficou semanas inundada. Mas o French Quarter teve sorte.

(Foto de Feito Peixe Fora d'Água)
(Foto de Feito Peixe Fora d’Água)

A arquitetura do French Quarter é uma mistura de estilos francês, espanhol, americano e Creole – singular, linda e icônica.

É ali que fica a famosa Bourbon Street. E é no French Quarter que você provavelmente vai querer se hospedar, se for a Nova Orleans. O que não falta é diversão: restaurantes, lojas, casas de música, pequenos museus e casarões históricos, e muito mais.

(Foto de Feito Peixe Fora d'Água)
(Foto de Feito Peixe Fora d’Água)

Aqui vão algumas das atrações preferidas do local:

Museus:

-National World War II Museum: (um pouco afastado do French Quarter. Vá de táxi.)  para quem se interessa pelo assunto, este é um dos maiores museus sobre a Segunda Guerra Mundial que existem. O museu tem várias exposições e, em destaque, uma bastante detalhada sobre a invasão da Normandia pelos aliados,  além de um filme narrado por Tom Hanks. O filme, ‘Beyond All Frontiers’, apresenta uma perspectiva ampla da Guerra e é excelente. Imperdível. Único possível problema: como costuma acontecer nos museus americanos, tudo é só em inglês. Mas não deixe de visitá-lo mesmo assim.
945 Magazine Street, no ‘Historic Warehouse District’ (www.ddaymuseum.org)

-The Presbytère: o museu era dedicado originalmente ao Mardi Gras* de Nova Orleans. Mas, depois que a cidade se recuperou o suficiente da devastação causada pelo Katrina, o lugar passou a usar parte do seu espaço para registrar o desastre, contando o que aconteceu e mostrando relatos de pessoas envolvidas. O museu é para quem quer saber um pouco mais sobre uma das maiores catástrofes que o país já sofreu. Depois, é só prosseguir e levantar o ânimo com a exposição dedicada aos montes e montes de fantasias de Mardi Gras.
751 Chartres Street, Jackson Square

*Mardi Gras é o carnaval de Nova Orleans. Bem diferente do brasileiro…

(Foto de Feito Peixe Fora d'Água)
(Foto de Feito Peixe Fora d’Água)

Southern Food and Beverage Museum and Museum of the American Cocktail: um museu dedicado à comida e à bebida que conta a história de como os diferentes grupos étnicos contribuíram para que a culinária da cidade seja o que é. É também um passeio pela história de 200 anos de coquetéis no país. Muito instrutivo e divertido. Atenção: fecha às terças.
1 Poydras Street, no ‘Riverwalk Marketplace Mall’ (www.museumofthearicancocktail.org e www.southernfood.org)

Atrações:

(Foto de Feito Peixe Fora d'Água)
(Foto de Feito Peixe Fora d’Água)

-Preservation Hall: fundada com a finalidade de preservar o jazz tradicional de Nova Orleans, essa instituição é formada por uma banda de músicos que toca sem finalidade lucrativa. O lugar é minúsculo, escuro e meio caindo aos pedaços. Não há ar condicionado (aquilo fica um forno no verão) nem lugares confortáveis para se sentar. Em algum momento você vai se perguntar o que é que você está fazendo ali… Até aqueles senhores começarem a tocar e cantar. Ah, aí, tudo fica claro! Experiência única e inesquecível. Há três shows por noite, de cerca de 50 minutos cada. A fila na porta é sempre grande e nem todos conseguem lugar. Compre ingressos com antecedência pela internet e evite a fila e a decepção.
726 Street, Peter Street (http://preservationhall.com/hall/)

IMG_5367
(Prédio onde fica o ‘Preservation Hall’. FPFD)

Onde comer:

Há inúmeros restaurantes fantásticos. Aqui vão só algumas sugestões:

-Café du Monde: Paraíso dos beignets (massinha frita e passada no açúcar, meio que um ‘doughnut’ francês) com café au lait – o café aqui é feito à moda do sul: com um pouco de chicória. Não torça o nariz e experimente!
800 Decatur (www.cafedumonde.com)

-Johnny’s Po-Boys: as toalhas das mesas são de plástico, assim como os pratos e talheres. O lugar tem cara de pé sujo, mas é autêntico e muito bom no que se propõe a fazer. Lá eles servem vários exemplos da culinária local, inclusive, obviamente, o Po-Boy: sanduíches típicos de camarão, frango, linguiça, etc.

511 St. Louis Street (http://johnnyspoboys.com)

-Muriel’s Jackson Square: este é  bem diferente da lanchonete acima. Fica no coração do French Quarter e é um dos melhores restaurantes da cidade. Excelente cozinha, decoração aconchegante e elegante sem ser em nada pretensioso. Se tiver que escolher um só lugar para jantar, é ele.

801 Chartress Street (http://www.muriels.com/index.html)

IMG_5458

Há muito, muito mais. Faça uma pesquisa ou explore o lugar na hora e você certamente vai descobrir maravilhas. Divirta-se!

Para mais fotos e dicas, dê uma olhada na página do Feito Peixe Fora d’Água do Facebook e no Instagram.

IMG_5439

Fontes:

redhotjazz.com

louisianatravel.com

neworleanscvb.com

neworleansonline.com

nola.com

wikipedia.com

Frommer’s USA 2011

Nova Orleans: uma brevíssima passada pela sua história

imageNova Orleans fica no sul do estado da Louisiana. A cidade foi fundada em 1718 por colonizadores franceses e recebeu esse nome em homenagem ao Duque de Orleans, regente do Rei Luís XV na época. Permaneceu sob domínio francês por 45 anos, até passar a pertencer aos espanhóis com o Tratado de Paris (1763). Das mãos dos espanhóis, ela voltou para os franceses décadas depois, até Napoleão vender a Louisiana para os EUA em 1803, anos antes de a região virar estado.

IMG_5426

A influência europeia está por toda a parte na cidade: nós a vemos na arquitetura, na comida, na língua, na música… A presença africana e caribenha também é muito marcante. Dessa mistura de franceses, espanhóis, caribenhos e africanos nasceu a cultura Creole (crioula). O termo foi primeiramente usado para denotar pessoas de descendência europeia ou africana nascidas na Louisiana.

IMG_5423

Outro grupo étnico que ajudou a caracterizar o estado foi o Cajun. Esses eram colonizadores franceses que, séculos atrás, haviam se estabelecido no que é hoje o sudeste do Canadá. Conflitos entre os britânicos e os franceses (que disputavam aquela região) expulsaram esse pessoal de lá. Muitos voltaram para a França, enquanto outros foram para a Louisiana.

Mais tarde, até mesmo irlandeses, alemães, italianos e portugueses entraram nesse mexido.

_MG_5408

A história da cidade é muito longa. Com mais 60% de sua população composta por negros no início do século XIX (cerca de metade deles era composta por escravos e a outra metade, por negros livres da classe média e alta vindos do Caribe), dá para imaginarmos o papel que Nova Orleans desempenhou durante a Guerra Civil americana e, depois, no Movimento dos Direitos Civis, etc.

De porto importantíssimo e próspero, principalmente durante o comércio de escravos, a cidade sofreu um declínio significativo no último século. Uma década atrás, foi devastada pelo furação Katrina. Mas Nova Orleans é resiliente, vem se recuperando e continua linda. E única! Não há mesmo nada igual a ela.

IMG_5403

Para saber um pouco mais, aqui vão algumas fontes:

https://en.wikipedia.org/wiki/New_Orleans

https://en.wikipedia.org/wiki/Louisiana_Creole_people